segunda-feira, 24 de março de 2008

ALMA

Ah, o progresso de uma alma jamais poderá ser dito. Alma é coisa que a gente não diz; dela não se fala e nem se deve falar. Nossa alma é um sentimento tão próprio, uma insolvência tão grande—uma dívida eterna comigo mesmo que nem tem tempo para dor. A dor passa como uma brisa vitoriana: rígida, tensa e conformada.
Porque na vida é preciso ser conformado. Não falo de forma ou conformação, mas sim de um sentimento de desconforto pacífico e lúcido; como a lagarta que não se sabe borboleta e assim mesmo se submete ao processo de metamorfose.
Sim, eu me metamorfoseio, sem escolha e sem padrão. Deixo-me grudar em qualquer dessas janelas, caules ou folha. A vida não escolhe padrões, sob sua espada somos todos vítimas de um crime sem rosto.
Sei de uma tristeza que me faz andar no que jamais poderia ser dito. Um enunciado forte demais para se sustentar em mim. Sou desses que nasceu para não ser dito—um segredo de loucos que não se permitem a graça de ter um oráculo. Sou um segredo não confessado na boca de um padre ou uma beata. Sou também uma penitência mentida. Sou um chicote que nunca foi usado. Sou uma mentira mal contada. Sou uma verdade mal elaborada.
...não se pode dizer do progresso de uma alma. Alma é coisa que a gente diz mal-dito. Alma é definitivamente coisa maldita...de uma inexpressão que despreza nossas tentativas piegas de dar sentido a tudo.
Alma é coisa triste.
Sinto-me terrivelmente triste.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Novidade de Vida.


“... eis que faço novas todas as coisas” ( Ap. 21:5-6)

Umas das cenas mais belas do filme “ A Paixão de Cristo” de Mel Gibson, é o momento quando Maria, mãe do Cristo,corre para junto dele na via dolorosa. Jesus está em frangalhos, caído com a cruz às costas; Maria corre pra junto dele e diz: “ estou aqui filho, estou contigo”. É o consolo de uma mãe desesperada vendo seu primogênito passar por tanto sofrimento. Posso imaginar a angustia de Maria; sua impotência perante a morte iminente de Jesus. Fico muito comovido ao ver uma mãe presenciar o massacre de seu filho mais querido e nada poder fazer, mas não é isso que me faz chegar às lágrimas. O que fez minha alma amanhecer foi ouvir Jesus olhar para ela, em meio a sangue e lágrimas: “ mãe, vê, estou fazendo novas todas as coisas”.
Esta frase ainda ressoa em meus ouvidos desde o primeiro dia que a li no livro de Apocalipse, a estória, como a li , se parece mais ou menos com isto.....:

Ap- 21:1-7 ( segundo meus olhos puderam ler)

.....

Então, absorto, ergui os olhos para o céu. Entre nuvens gotejantes e ventos tépidos, vi o deslumbre como cortina, sim, com meus próprios olhos vi, do avesso de minh’alma, vi um céu que descia tomando para si o antigo céu. Um azul tão profundo que meus olhos mal podiam fitar. Vi também que descia, juntamente ao novo céu, uma nova terra. O firmamento fundia-se com a velha terra....os céus e terra haviam passado, e já não era mais. O mar fora engolido pela nova terra. No centro, a cidade de Davi, subia santa e resplandecente. Seu reflexo purificava minhas palavras que, ao descrevê-la perdiam sentido antes mesmo de me chegar à boca. Como uma noiva, toda de branco; alma nua e quente—totalmente entregue ao prometido marido. Translúcida de excitação Jerusalém resplandecia.
Pisquei os olhos.....
......
Por detrás de mim vi o trono. Um trono pleno. Não se via luz; “porque na tua luz vemos a luz”. Um alto e sublime trono, cheio de Graça e Verdade. Do trono vinha uma voz como de uma multidão:
-- Emanuel! Dizia-me a potente voz. Emanuel! Eis o tabernáculo de Deus. E ele habitará entre os homens; com eles viverá como antes...antes de tudo. E não haverá mais separação entre o mundo visível e o invisível, pois o próprio Deus estará no meio deles. O inefável será plenamente assimilável—aquilo que não tinha nome ficará gravado como uma nome para sempre dentro do coração de cada homem...Eles serão o seu povo e Ele será o seu Deus. Ele mesmo vai consolar cada um dos seus filhos, e dos seus olhos lágrima nenhuma brotará. Porque a ordem anterior chegou ao fim. Não haverá mais morte, nem sofrimento, pranto ou mágoa. Ele mesmo enxugará dos seus olhos toda lágrima.
..e aquele que se assentava no trono olho para mim...Senti como se tudo ao meu redor fosse denso; brumas suaves incendiaram seu olhar....Nada em mim escapava a sua vista. Olhou-me no fundo de meu olhar dizendo:
“ olha....estou fazendo nova todas as coisas”.


. Essa é a sexta-feira santa pra mim. É Cristo; dentro e fora do tempo. É Cristo, o cordeiro que foi morto, antes da fundação do mundo. É Cristo; o alfa e ômega, que desde o começo dos tempos fez novas todas as coisas, antes mesmo que eu existisse.
A páscoa é , sem dúvida, o maior paradoxo da fé. É a cruz de Cristo: loucura para os gregos e escândalo para os judeus, mas para aqueles que crêem é o poder de Deus para salvação.

Sanctus est.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Eis o mal-estar

Eis o lugar do mal –estar....é que ele vem chegando como quem não quer nada e, sem que notemos, todo o corpo treme de um frenesi que sacode as pequenas alegrias –porque é de pouca alegria que se vive.
.....----- aí eu sacudo a poeira e dou a volta por cima. O problema é que sacudir a poeira e dar a voltar por cima de mim mesmo é uma pirueta que não sei dar. Sabendo que tantas piruetas são necessárias para se passar incólume pela densidade de uma só vida...que só vivendo duzentos anos eu poderia sacudir tanta poeira e dar tantas voltas. É como se diz: o mundo dá voltas...sim, mas voltas em torno de seu próprio eixo.
Eis o lugar do mal-estar: todo dia dou uma volta completa em torno do meu próprio eixo.

sexta-feira, 14 de março de 2008

de um olho maior que a boca...

Pensei em você hoje e senti que literalmente estava lidando com alguém muito diferente de mim. Uma diferença buliçosa que se expande para uma paixão ainda sem nome—e quiçá nunca o tenha—e que por isso mesmo me traz tranqüilidade. Uma tranqüila percepção de diferença que me impele a gostar tanto de ser eu , e gostar tanto de que você é você. E que para chegar até você eu preciso sair tanto de dentro de mim que de longe me olho--como se meu olho fosse maior que minha boca—-e aprendo a ser também um outro....E que correndo para perto de mim eu sinto tanta saudade de você. Será que na correria eu aprenderia a amar?
Poder ser, e por isso mesmo acho que gostar de você me faz um bem danado, mais que isso, você é um outro bom, bom demais até.

Gosto tanto de você....

sexta-feira, 7 de março de 2008

Avante Brasil!

Gostaria de agradecer os agradáveis que recebi nesta última postagem. Obrigado pelas visitas!
Agora vamos a coisas mais sérias que afirmações narcísicas....
Hoje cumpri meu ritual de pobre : esperar meu ônibus no calor cearense. Lá estou eu a procura da costumeira parada de ônibus, um abrigo do sol.
Imaginem vocês! Nm terreno atrás da parada de ônibus construiram um stand de vendas de um chique condomínios de apartamentos. Os bonitinhos simplesmente arracaram o abrigo da parada e colocaram uma placa miserável que indica: ônibus. HA! ´Só mesmo no país da piada pronta.Mas deve ter alguma lógica nisso não? O abrigo de ônibus " embregava" o local de vendas; as pessoas que compram esse tipo de apartamento não andam de ônibus e, como se não bastasse, nem gostam de ver paradas de ônibus, elas são uma afronta ao seu estilo de vida. Não sei se são uma afronta porque eles a consideram um artefato brega ou porque lhes lembra que enquanto eles compram um condomínio de luxo, seus empregados continuarão a esperar o ônibus por gerações e gerações a vir...Só que agora com um agravo: vão ficar bem tostadinhos porque o sol daqui ninguem merece....Aff! Avante Brasil! Salve o Ceará!