terça-feira, 29 de julho de 2008

Como o vento...


“O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. João 3:8

Este é um trecho de uma conversa que Jesus teve com um homem chamado Nicodemos.
Nicodemos era um mestre da lei judaica, mas desconhecia as grandes verdades existenciais que Jesus ensinava. Este príncipe dos judeus, tal como ele é chamado da bíblia, representa hoje tantos outros que reconhecem que Jesus veio de Deus; reconhecem sua divindade; quem sabe até são grandes líderes religiosos, entretanto, não conseguem ver o Reino de Deus.

Nicodemos acreditava no Reino como algo físico, referente a costumes, comida e bebida. Sabemos que São Paulo foi enfático ao dizer que o Reino de Deus não é comida, nem bebida, nem costumes, nem regras ou moral. O Reino de Deus é justiça, paz e alegria. Onde há justiça há Reino; onde há paz já Reino, e onde há alegria há Reino.

Eu acrescentaria só mais uma coisa: onde há amor, lá está o Reino. Quando Paulo ensinou que o Reino não é de comida ou bebida ele aponta para algo surpreendente—o Reino de Deus não se mostra fisicamente. O Reino são princípios. O Reino são sentimentos. O Reino são ações. O Reino é aquilo que nós vivemos e que está de acordo com a justiça, com a paz e com a alegria.

Jesus confirma minha reflexão quando ele diz que aquele que é nascido do Espírito Santo é como o vento. Ele sopra onde quer; não podemos vê-lo, mas o sentimos. Não sabemos de onde ele vem, nem para onde vai. Mesmo assim, seus efeitos são sentidos. Só que o Reino sopra onde quer. Assim é todo aquele nascido do Espírito. Com isto, creio que Jesus nos quer ensinar que todo aquele que quer ser parte do Reino deve nascer no Reino. Quem nasce da carne é carne, mas quem nasce do Espírito é espírito. Quem nasce nessa vida é mortal, quem nasce no Reino é espírito. Portanto, é como o vento. Sopra onde quer. Sabe-se vivendo uma existência terrena que ás vezes parece sem sentido e confusa. Mas ele sopra. E sopra onde quer. Ninguém ouve sua voz; ás vezes não sabe para onde vai, nem de onde vem, mas o fato é:ele sopra. E não sopramos ao leu—--sopramos a justiça, paz e a alegria que há no Reino.
Principalmente sopramos o amor que há no Reino.

Para mim não há nada mais parecido com o vento do que o amor. É por isso que ás vezes o comparamos a um grande furação; uma ventania que parece querer nos arrebatar. É assim. O amor sopra onde quer. Escutamos a sua voz, mas não sabemos de onde ele vem, nem para onde vai. Mas, isso não impede que vivamos o amor; muito menos nos impede de amar. É como o velho Freud gostava de dizer: isso não impede de existir. É assim no Reino. Estamos nele como o vento, e é assim que temos que viver:

Mesmo sem saber para onde estamos indo, tão confusos e perdidos. Só sabemos de uma coisa: nada disso impede de existir no Reino.

Assim eu vou....como o vento...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Ano sabático


Meu canal preferido sem dúvida alguma é a GNT. Cá estou eu novamente plugado assistindo o “ happy hour”, que é um programinha simpático sobre os assuntos mais prosaicos. Para vocês terem uma idéia, ontem o tema foi “ mania de fazer listas”. Mas, o que me traz aqui hoje é o tema “ ano sabático”. Eu sempre fui um grande entusiasta do ócio e da preguiça. Eu acho a preguiça acho fenomenal. Acho que porque no fundo eu não acredito que exista preguiça. Nosso organismo não foi programado para sentir preguiça. Aquilo que chamamos de “ marasmo” ou “ preguiça” nada mais do que falta de desejo de fazer algo que não nos interessa. Dizem então, que o contrário da preguiça é a disciplina. Discordo novamente. Se não existe preguiça então, o contráro dela também não existe. Acho que por disciplina as pessoas querem dizer “ resignação”. Existem aqueles que se resignam a fazer algo que não gostam ou acham desinteressante porque têm alvos prazerosos a longo prazo.


O ano sabático é um ano no qual você pára de trabalhar e de fazer as atividades rotineiras para viver de outra forma. A maioria das pessoas viajam no sabático, mas nada impede que você permaneça em sua própria cidade, contanto que tudo mude. Na verdade, a questão não é parar de trabalhar ou sair da rotina, mas é viver a vida conforme seu desejo em outro ritmo de vida. As coisas podem até sair do controle, mas não existe preguiça já que você está vivendo de acordo com o seu desejo. O melhor de tudo é não precisar ter disciplina! Pra que disciplina se você está tão engajado naquilo tudo? Ficar um ano fora da rotina nos leva, inexoravelmente, a mudar tudo; principalmente nós mesmo. Eu acho que um ano sábatico ideal é aquele que você faz uma viagem, de preferencia viajar para outro país. Morar um ano em outro país muda qualquer pessoa. Eu mesmo já experimentei tirar um ano sabático. Tranquei o curso de Direito e me mandei pro Texas.


Morei um ano em Dallas num bible college. O lugar foi o Christ for the Nations, um instituto de formação religiosa. Mas, a coisa toda não foi simplesmente estudar a bíbilia; principalmente foi entrar num mundo todo novo para mim. Qualquer um pode pensar que eu escolhi o lugar errado para aprender a ser cosmopolita. Ledo engano. Eu tinha meia bolsa, mas gringo não dá nada de graça, então fui pagar minha bolsa trabalhando na biblioteca. Somente os alunos internacionais trabalhavam no campus; os gringos não tinham esse privilégio, já que eles podem arranjar emprego fora do campus. Foi exatamente esta bibiloteca que me abriu o mundo todo. Tive que dividir o local de trabalho com a Dinamarca, África, Nepal, Japão, Usbekistão, México, Hungria, Índia, Canadá, Israel. Esses são os países que eu lembro! Nada era mais interesante do que ouvir as estórias de Sarah, uma judia convertida ao cristianismo. Ela fora deserdada depois que seus pais descobriram que ela havia se convertido ao cristianismo. Seu pai fez inclusive um funeral com enterro e tudo! Com direito a caixão e vela preta para sepultar para sempre sua filha infiel.


Vivi nos E.U.A de agosto de 2001 a agosto de 2002. Vivi de perto o 11 de setembro e toda aquela paranóia que o mundo viveu. Foi um dos anos mais significativos de minha vida. Mudou minha cabeça ( e meu corpo, engordei 10 kilos!) e meu espírito. Deixei um velho Rafael lá e nunca mais o reencontrei.


Adoro viajar. A última grande mudança que eu fiz foi vir morar em Fortaleza. Faz exatamente três anos que estou morando aqui. Há três anos nesta mesma época do ano eu estava vivendo algo semelhante: arrumando um novo apartamento e me readaptando à uma nova vida. Papai tem uma teoria que a vida de um homem deve mudar de três em três anos. Esse é o lado astrólogo dele! Não sei se ele tá certo quanto a isso, mas em minha vida a regra se aplica sempre. Em 2005 eu estava completando mais um ciclo de três anos, eu tinha 26 anos, ou seja, entrando em mais um múltiplo de 3! Aos 27 anos eu já estava bem instalado em Fortaleza vivendo uma vida absolutamente nova. Hoje, três anos depois, estou vivendo em outro aparatamento há menos de um mês.

Ano que vem faço 30 anos ( outro múltiplo de 3! ) e já estarei formado e pronto para enfrentar mais um ciclo de 3 anos. O Rafael que chegou aqui em fortaleza há três anos ficou pra trás. Mal o reconheço...Ele se foi.

Comecei o post falando de ano sabático e terminei escrevendo sobre a teoria astrológica de papai! Ufa! De qualquer forma acho que no fundo eu queria mesmo era comemorar meus três anos vivendo aqui no Ceará. Provei mais uma vez o inconsciente; já que eu não fazia a mínima idéia que acabaria escrevendo sobre isso. Olhando o calendário agora percebo que cheguei aqui dia 14 de Julho. Esta foi a data exata quando voltei de minhas férias de São luís semana passada! Assim, acho que escrevi o post inteiro para comemorar mais um ciclo de três anos que começa!
Abraço a todos!

sábado, 12 de julho de 2008

Uma barricada arranhada




Sentado sobre sua mesa preferida ele pensava. Nada refletia, nada pedia, nada esperava. Sentia simplesmente uma leve expectativa de acontecimento. Algo que , ao acontecer, causasse uma ruptura tal em sua tão prezada homeostase que lhe fosse impossível voltar atrás. O telefone tinha tocado várias vezes; em todas mandou dizer que dormia. Hoje não-- pensou enfadado—hoje eu não falo com ninguém. Alguem o convidara para tomar um café e colocar os assuntos em dia. Convite ao qual recusou peremptoriamente. Estava farto de pequenas conversas nas quais destilamos amenidades estúpidas com o fim de nos mantermos mais e mais afastados. Chegara, ainda que tardiamente, à conclusão que todos têm suas agendas secretas e que o altruísmo é mais raro do que se imagina. Cada ser humano tem seus próprios propósitos e, assim que outro pobre mortal se coloca em seu caminho, o bicho pega, e pega todas as vezes.

Ficar em casa era sempre a decisão mais sábia; em todo caso podia sempre ler um livro ou comer, comer e comer. Tudo bem que a companhia humana pode ser o que há de mais alegre que se pode conhecer, mas ninguém há de negar que “alegria é mãe de choro”, e que, antes só que mal acompanhado—diz o batido ditado. Companhia em excesso só nos faz esquecer o quanto é bom ter alguém por perto. O excesso do outro sufoca nossa plena liberdade de ser; e ser, em última instância , independe do outro. É fato que o outro nos dá a primeira chance de ser, mas ser com o outro pra sempre é o mesmo que nunca ter sido nada.

Depois de tudo isso, olhou para o canto. Lá, apertada contra a parede, havia uma tímida aranha. Era preciso enfrentar seu medo. O pequeno inseto sempre lhe causou os mais terríveis pesadelos. Sonhava que a aranha se entranhava em sua barriga; que lhe picava o cérebro; que comia seu sexo e que lhe revirava de cabeça pra baixo numa teia...Sugava seu sangue. Hoje seria o dia em que ele ia enfrentar esse bicho. Agarrou o jornal para matá-la. Depois de aproximar-se viu que de nada adiantaria matar o inimigo. Melhor era deixá-la viva a lhe assombrar a vida todos os dias; só assim seria provado todo dia pelo medo de um iminente ataque. Enquanto abaixava o jornal, olhou a aranha. Seus milhares de olhos lhe penetravam profundamente. Assombrado, ele retrucou:

-- então você acha impossível ficar só? Não é possível ser feliz sem usar alguma muleta? Olha...Te digo logo uma coisa, e não me lance esse olhar maldito; animalesco e terrível que me penetra desafiando minha solidão. Ficar sozinho é um aprendizado que a vida ensina a poucos. Aos poucos que estão dispostos a ficar sozinhos tempo suficiente até que a companhia de outro ser humano faça tanto sentido que eles entendem que é melhor mantê-lo o mais longe o possível, até que sua companhia se torne completamente preciosa. Qualquer um que não se agüente sozinho está sempre surdo em relação a si mesmo, e surdez quanto a si é também surdez para o próximo.

Então, que ousadia da sua parte afrontar minha solidão! É pretensão sua achar que alguém consegue realmente romper as barricadas de nossa solidão. Isso é coisa dura de roer, o vazio de ser! Cercados de tanta gente cá está ela por trás de tudo; impulsionando tudo e , acima de tudo, sempre pedindo por mais e mais. É a solidão dentro de nós; esse impostor que nos habita com altas pretensões de saciedade. E queremos amigos, e mais amigos; amor e mais amor; mais amor e sempre amor. Depois alegam que os solitários são infeliz porque não têm nada disso. Mal sabem eles que o impostor está sempre à espreita—como você a me olhar, com seus múltiplos olhares, todos eles malditos.

Desistindo da aranha foi para cama. Resoluto, tenso, nada zen. Não meditou. Dormiu teso e duro sobre o colchão king size. Dormiu sozinho na diagonal, usando toda cama para si mesmo. Puxou o lençol que lhe ficou um pouco curto...Dormiu com frio mesmo; sem alento e sem vontade de alento. Dormiu neutro e teimoso, entrando num sono profundo rumo ao mundo dos sonhos onde nunca estamos a sós, mas no qual inventamos tudo sozinhos.