quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Filosofia do copo de caju.

Não me deixe só. Isso...Assim...Abra os braços e eleve-os acima da cabeça, bem perto das orelhas. Isso...Não deixe escapar nada. Agora me abrace. Quero ficar junto ao teu peito. Respira perto de mim como uma água-viva. Respira pela pele, pelos pés, pelo rosto. Bem aqui ó: pertinho de minha boca. Vai...Me ressuscita. Vem...me faz levitar. Quero sair daqui de dentro. Deixa eu sentir teu hálito, bem misturado ao meu gás carbônico. Hidráulica alma. Alma minha. Lama minha. Quero deitar no chão e estender-me como um pulmão esticado. Isso..vai...deixa eu respirar claro. Cada percepção um gesto, um germe, uma conta, um cálculo de amor. Quero aprender essa matemática das metafísicas da alma.

E nem quero fazer sentido algum. “ teu problema é que você quero dar sentido a tudo”. Vê se pára de escrever, olha sua mão! Vai ficar bom nunca menino. Não quero ficar bom. Bom em que? E Clarice também disse que ter nascido lhe estragou a saúde. Filha de uma égua! Fica a me roubar as melhores frases. É por isso que faltam bons escritores—Clarice e Pessoa roubaram as frases de todo mundo. A mim, eles roubam tudo. Roubam até minha esperançazinha feia. De feio já basta eu.

E se é possível fazer filosofia de um copo de cerveja, pode ser com um copo de suco de caju? Sentado em cima da mesa há o copo de caju. Quase vazio; um filete de suco descendo por fora do copo molha a mesa. Lá está ele: impávido, sentado, teso. Tesão. Parece um gozo espalhada para todo lado. Cor de mijo. Mijo que alguém bebeu e esqueceu das pulsões cropófilas.

Sem sentido, gostou? Pás-de-sens. C-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e pás-de-sens. Na esperança marota e simples de chegar ao fim. No fim de tudo a estória sem fim continua. Persigo o sempre no nunca, naquele que manca. É melhor mancar do que correr sem calça. Ou é melhor correr sem calça, sem alça, sem lança, sem ser de mansinho. Fortalece essas costas rapaz! É que nas pernas o peso é maior. Tem que sustentar todo esse teu ser: malicioso, estúpido. Que mentira. Fala consigo a verdade e mente pros outros. Mentir só existe pros outros. Pra si mesmo é sempre verdade. Há mais verdade num copo de suco de caju que nos manuais de filosofia. Agora entendo.

Deixa eu sentir sua mão perto da minha. Não me deixe só. Não quero ficar só, com o copo de suco e a ponta do cigarro. Não deixe sua mão, quero ficar só. Só o copo de caju perto da minha mão. Não quero a ponta do cigarro. Não quero ficar só. Deixe sua mão perto do cigarro...Apague o copo de caju, tome a ponta do cigarro. Não me deixe só. Não me deixo só. Tenho medo do caju, do cigarro e de minha mão.