domingo, 30 de novembro de 2008

a bunda



Nestes dias em que tenho tanta consciência de que tenho uma bunda, e de como ela me é importante, dei de cara com um site - http://www.ovidente.com.br/edicoes/09/index.htm--onde achei um poema, super prosaico, de um amigo meu. vejam como me cabe tão bem...

a bunda é sempre um choque
escancarando nossa existência
A bunda está sempre nascendo
e é um rosto.

Daniel Franção Stanchi.

este é só um pequeno trecho, mas ficou bem marcado. Sugiro que visitem o site, lá tem mais coisas.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

uiIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

Aos navegantes desinformados devo dizer que fiz uma cirurgia para retirar um cisto pilonidal. Aos leitores corajosos recomendo entrar no youtube e assistir a uma cirurgia semelhante a minha. Sim, por mais que a medicina esteja tão avançada eles ainda não arrumaram um jeito melhor de tratar esse problema. Como meu cisto fez um abscesso a ferida tem que ficar aberta e fechar de dentro para fora; eles chamam isso de cicatrizar por segunda intenção. Caso alguém tenha estômago para olhar as fotos no Google verão o tamanho do buraco que estou carregando aqui atrás. O rombo do meu orçamento fica na região sacral, mais conhecida como região acima do cóquix, vizinho do cu. Resultado: tenho agora um buraco de 8 cm de cumprimento por 6 cm de largura. Façam as contas. É enorme. Aberto. Tenho que fazer um curativo todos os dias; é o momento de maior suplício. A gastura e a dor que sinto são indescritíveis. Só desejo isso para meus piores inimigos! Sim! É um ótimo castigo dos deuses.

Por falar em deuses... Agora que tenho todo tempo do mundo para ficar deitado ( de ladinho ou de bruços) lendo, resolvi pegar uma obra digna do que estou passando: A Odisséia. Só mesmo os sofrimentos do pobre Ulisses para fazer jus à minha saga de sofrimento. Sim, porque antes da cirurgia o tal do cisto inflamou e encheu de pus. O médico fez uma punção enfiando a agulha pele adentro sem dor ou piedade. Nem precisa dizer que a dor foi lacerante, fui ao Hades e voltei. Vi estrelas cadentes, anjos e demônios. A cirurgia não foi nada comparado ao sofrimento da punção. Resultado: duas seringas cheias de puro pus misturado com sangue.

Antes que todos se perguntem: o que ele fez para merecer tudo isso?
Joguei pedra na cruz. Melhor, provavelmente eu era um dos pregos que matou Cristo. É a única explicação. O que tudo isso me ensinou? Que a bunda, o cóquix e o cu são as coisas mais importantes da vida. Sem eles nada feito. Por isso também que Montaigne já disse: no trono mais alto do mundo, os reis assentam-se sobre o seu cu.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Uma rápida mistura.

O saguão do hotel estava lotado. O movimento das pessoas, as malas e algumas crianças brincando davam um tom família para o hotel moderninho. A grande recepção tinha um alto pé direito que dava para uma brilhante clarabóia deixando entrar o sol. Lá embaixo, uma gringa se protegia do sol passando uma quantidade cavalar de protetor solar—fugia do câncer. Sentado num sofá branco, “ clean”, daqueles estilos pós-pós-pós modernos de decoração, que como um amigo diz é o modelo decoração hospitalar: branco e minimum;‘Menos é melhor’, dizem todos hoje em dia, lá estava eu, à espera como quem espreita.

Nervoso folheava uma revista de moda, tudo muito clean, light, leve , limpo e solto. Ajeitei o cabelo, cheirei meu punho—o perfume ainda estava fresco, causaria. Eu queria causar uma boa impressão, logo de cara, assim, poupava-me o trabalho na hora da sedução. Eu queria estar clean, light, limpo, leve e solto. O elevador se abriu e lá veio ele. Todo buliçoso, bem alegre, acenou ainda ao longe. Sentou-se ao meu lado cumprimentando o recepcionista. Senti um leve mal estar e propus conversamos do lado de fora.


“ vodka, pura..Não, com gelo, mas só um pouco. Sim, duas vodkas”.
_ gostei do lugar, alegre Né? To adorando sua cidade...
---é que você não a conhece bem, mas ela trata bem os turistas não?
-- até agora está ótimo.


Um silêncio calmo cortou a conversa por alguns instantes enquanto apreciávamos as bebidas. O barman esqueceu-se de pôr álcool. A bebida voltou mais forte . o movimento da mão, os lábios no copo e o olhar curioso cortavam o ar frio da madrugada. Senti um medo de conhecê-lo. Ele era tão desinteressado e, ao mesmo tempo, parecia que só eu estava ali presente. Desinteressado porém bem presente.

--bom perfume, me agrada muito— disse sem timidez. Fui bem direto já que o cheiro me confundia ainda dentro do carro a caminho.
--brigado..Acabei misturando dois perfumes sem querer..tinha passado um, esqueci, passei o outro..não gostei do efeito..Hahaha! Mas, que bom que você gosta.

O perfume dizia tudo. Era denso, sem tocar em nada. Como seus olhos. Negros, pequenos. Um olhar constante de curiosidade. Ávido pelo momento..momento após momento destruía minhas cinzas convicções. Eu nem sabia se havia vida inteligente além daquele olhar, mas ele prendia meu estômago revolto em mim. Era um riso controlado que me via. O perfume despertava a sensação...Aquela sensação que se vê perdida logo após o amor virar bruma e ilusão. Aquele cheiro despertava tudo isso: a paixão nova, descompromissada com o amor, nada além da fugacidade de uma experiência verdadeira, mais tenra que o próprio amor. Aquele perfume colocava em questão todo o amor. Repetindo mentalmente a palavra “ amor” eu ia perdendo seu sentido para sempre. “ amor” parecia uma descrição errada para algo que se aprende entre duas pessoas. De certo aquilo não seria amor. Não seria? Há aqueles que parecem ter descoberto o que é o “ amor” e o descrevem como aquela sensação de pertencimento que vem depois dos embates e dos choros compartilhados..Das perdas cultivadas e dividas. No amor é que se vive as verdadeiras culpas e é lá mesmo que elas se esvanecem, perdem todo valor. No amor não há culpados e talvez no amor, não haja tanto amor assim. De repente, em outro planeta, a paixão é amor, e o amor não é nada além de uma terrível dor de dente. Isso é amor: uma dor de dente que gostamos tanto porque localiza...localiza...espacialmente uma sensação. É. O amor localiza espacialmente, topologicamente uma sensação..E no meu caso, naquele dia, o amor localizou uma sensação num lugar específico: meu nariz. O perfume me provava que o amor existe, mas ninguém sabe exatamente o que ele é.

O cheiro ficou no meu travesseiro. Eu sei porque na manhã seguinte, quando não havia mais um corpo ao meu lado, cheirei o travesseiro.Penetrado por uma saudade qual bicho de pé, fiquei deitado, abraçado ao travesseiro...Tentando refazer minha metafísica do amor. Toda uma ontologia num traço de perfume misturado. Nuns olhos pequeninos curiosos de amor. Era isso? Olhos com curiosidade para amar? Só sei do cheiro. Do perfume de amor que eu senti num fim de semana que se foi e se acabou rompendo minha curta aula de filosofia.

Um encontro pode sim nos ensinar algo sobre o amor, mesmo que seja que o amor só é uma rápida mistura de dois perfumes.