O saguão do hotel estava lotado. O movimento das pessoas, as malas e algumas crianças brincando davam um tom família para o hotel moderninho. A grande recepção tinha um alto pé direito que dava para uma brilhante clarabóia deixando entrar o sol. Lá embaixo, uma gringa se protegia do sol passando uma quantidade cavalar de protetor solar—fugia do câncer. Sentado num sofá branco, “ clean”, daqueles estilos pós-pós-pós modernos de decoração, que como um amigo diz é o modelo decoração hospitalar: branco e minimum;‘Menos é melhor’, dizem todos hoje em dia, lá estava eu, à espera como quem espreita.
Nervoso folheava uma revista de moda, tudo muito clean, light, leve , limpo e solto. Ajeitei o cabelo, cheirei meu punho—o perfume ainda estava fresco, causaria. Eu queria causar uma boa impressão, logo de cara, assim, poupava-me o trabalho na hora da sedução. Eu queria estar clean, light, limpo, leve e solto. O elevador se abriu e lá veio ele. Todo buliçoso, bem alegre, acenou ainda ao longe. Sentou-se ao meu lado cumprimentando o recepcionista. Senti um leve mal estar e propus conversamos do lado de fora.
“ vodka, pura..Não, com gelo, mas só um pouco. Sim, duas vodkas”.
_ gostei do lugar, alegre Né? To adorando sua cidade...
---é que você não a conhece bem, mas ela trata bem os turistas não?
-- até agora está ótimo.
Um silêncio calmo cortou a conversa por alguns instantes enquanto apreciávamos as bebidas. O barman esqueceu-se de pôr álcool. A bebida voltou mais forte . o movimento da mão, os lábios no copo e o olhar curioso cortavam o ar frio da madrugada. Senti um medo de conhecê-lo. Ele era tão desinteressado e, ao mesmo tempo, parecia que só eu estava ali presente. Desinteressado porém bem presente.
--bom perfume, me agrada muito— disse sem timidez. Fui bem direto já que o cheiro me confundia ainda dentro do carro a caminho.
--brigado..Acabei misturando dois perfumes sem querer..tinha passado um, esqueci, passei o outro..não gostei do efeito..Hahaha! Mas, que bom que você gosta.
O perfume dizia tudo. Era denso, sem tocar em nada. Como seus olhos. Negros, pequenos. Um olhar constante de curiosidade. Ávido pelo momento..momento após momento destruía minhas cinzas convicções. Eu nem sabia se havia vida inteligente além daquele olhar, mas ele prendia meu estômago revolto em mim. Era um riso controlado que me via. O perfume despertava a sensação...Aquela sensação que se vê perdida logo após o amor virar bruma e ilusão. Aquele cheiro despertava tudo isso: a paixão nova, descompromissada com o amor, nada além da fugacidade de uma experiência verdadeira, mais tenra que o próprio amor. Aquele perfume colocava em questão todo o amor. Repetindo mentalmente a palavra “ amor” eu ia perdendo seu sentido para sempre. “ amor” parecia uma descrição errada para algo que se aprende entre duas pessoas. De certo aquilo não seria amor. Não seria? Há aqueles que parecem ter descoberto o que é o “ amor” e o descrevem como aquela sensação de pertencimento que vem depois dos embates e dos choros compartilhados..Das perdas cultivadas e dividas. No amor é que se vive as verdadeiras culpas e é lá mesmo que elas se esvanecem, perdem todo valor. No amor não há culpados e talvez no amor, não haja tanto amor assim. De repente, em outro planeta, a paixão é amor, e o amor não é nada além de uma terrível dor de dente. Isso é amor: uma dor de dente que gostamos tanto porque localiza...localiza...espacialmente uma sensação. É. O amor localiza espacialmente, topologicamente uma sensação..E no meu caso, naquele dia, o amor localizou uma sensação num lugar específico: meu nariz. O perfume me provava que o amor existe, mas ninguém sabe exatamente o que ele é.
O cheiro ficou no meu travesseiro. Eu sei porque na manhã seguinte, quando não havia mais um corpo ao meu lado, cheirei o travesseiro.Penetrado por uma saudade qual bicho de pé, fiquei deitado, abraçado ao travesseiro...Tentando refazer minha metafísica do amor. Toda uma ontologia num traço de perfume misturado. Nuns olhos pequeninos curiosos de amor. Era isso? Olhos com curiosidade para amar? Só sei do cheiro. Do perfume de amor que eu senti num fim de semana que se foi e se acabou rompendo minha curta aula de filosofia.
Um encontro pode sim nos ensinar algo sobre o amor, mesmo que seja que o amor só é uma rápida mistura de dois perfumes.