segunda-feira, 30 de março de 2009

Sobre uma análise.


Devo dizer algumas palavras sobre a psicanálise. Muitas pessoas me perguntam por que fazer uma análise e o que realmente faz um analista. Dizer por que alguém faz uma análise é difícil,as talvez um bom começo seria dizer que o sofrimento, o medo, ou seja, a angustia levam alguém ao divã. Não há pílula para o medo, para a indecisão; não há remédio para os anseios da alma, estes, só se expressam em nossas tentativas cambaleantes de dar sentido a uma vida, que, de forma imanente, não tem nenhum sentido. A verdade da ciência não aplaca a angustia posto que, as descobertas científicas só reafirmam o não-sentido da vida. A religião também falha, já que os sentidos são inflexíveis e entregues prêt-à-porté, isto é, está lá, antes de nós.
Uma análise também não pode tudo. Mas, pode alguma coisa. O que ela pode é dar ao sujeito a chance de, do não-sentido e vazio da existência, criar algo que é só seu- sua verdade. E a verdade aqui é a ficção própria que cada sujeito irá realizar sob a escuta atenta de um analista. Aquilo que era da ordem de um sofrimento irá falar, e falar elegantemente. Deixo-os agora com algumas palavras do próprio Lacan numa rara entrevista em 1974.
Sobre o tratamento diz Lacan:

JL - O neurótico é um doente que se trata com a palavra, e acima de tudo, com a dele. Ele deve falar, contar, explicar-se a si próprio. Freud define a psicanálise como a assunção da parte do sujeito de sua própria história, na medida em que ela é constituída pela palavra endereçada a um outro. A psicanálise é a rainha da palavra, não há outro remédio. Freud explicava que o inconsciente não é tão profundo quanto inacessível ao aprofundamento consciente. E ele dizia que nesse inconsciente, aquele que fala é um sujeito dentro do sujeito, transcendendo o sujeito. A palavra é a grande força da psicanálise.

EG - Palavra de quem? Do doente ou do psicanalista?

JL - Em psicanálise os termos “doente”, “médico”, “remédio” não são mais justos que as fórmulas no passivo que adotamos comumente. Dizemos: se fazer psicanalisar. É um erro. Aquele que faz o verdadeiro trabalho em psicanálise, é aquele que fala, o sujeito analisante. Mesmo se ele o faz da maneira sugerida pelo analista, que lhe indica como proceder e o ajuda por suas intervenções. Lhe é também fornecida uma interpretação. À primeira vista, ela parece dar um sentido ao que o analisante diz. Na realidade, a interpretação é mais sutil, tendendo a apagar o sentido das coisas pelas quais o sujeito sofre. O objetivo é mostrar-lhe através de sua própria narrativa que o sintoma, a doença digamos, não tem nenhuma relação com nada, que ela é privada de qualquer sentido que seja. Mesmo se na aparência ela é real, ela não existe. As vias pelas quais esse ato da palavra procede, reclamam muita prática e uma infinita paciência. A paciência e a medida são os instrumentos da psicanálise. A técnica consiste em saber medir a ajuda que damos ao sujeito analisante. Em conseqüência, a psicanálise é difícil.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Homofobia, mais um pouco.

Organizado pela Frente Parlamentar Evangélica, várias lideranças políticas ligadas a ideologias fundamentalistas irão realizar um seminário intitulado "Riscos que Correm a Família Brasileira" na Câmara Municipal de Campo Grande (MS). O encontro acontece amanhã (27/03) das 9h às 12h30.

Entre os temas a serem debatidos destaca-se o tópico que irá debater a "questão da chamada Homofobia", a ser ministrada pelo pastor e deputado Pedro Ribeiro do PMDB de Ceará. Outro tema polêmico a ser discutido pelos evangélicos é sobre "A legalização do aborto no Brasil", comandada pelo pastor Wilton Acosta. Discutir-se-á também a questão da pedofilia.

Está a frente da organização o deputado federal João Campos (PSDB-GO), que também é presidente da Frente Parlamentar Evangélica, e o também deputado federal, Henrique Afonso (PT-AC), coordenador da Jornada Evangélica em Defesa da Vida e da Família. Quem também irá participar é o deputado Rodovalho (DEM-DF) presidente do Fórum Evangélico Nacional.




fico imaginando o que os evangélicos realmente querem com essa movimentação. Como eles pretendem defender a " família brasileira"? Exterminando os gays do Brasil? OU será que eles pretendem proibir que os gays apareçam nas ruas ou nos meios de comunicação? Talvez queiram tentar impedir o casamento gay e que eles possam adotar filhos.
A própria idéia de fazer um forum para discutir essas questãos, per si, já é um ato de intenso preconceito e intolerância religiosa.O que os religiosos não compreendem, isso vem da própria natureza do discurso religioso, é que não se pode normatizar o Desejo, e que este não escolhe , absolutamente, objeto.

O mais estranho é que ,agora que a fé evangélica perdeu sua força espiritual e de convencimento, parece-me que eles se voltam para a política com o objetivo de alcançar adéptos não mais pela força da fé e da conversão, mas pelo convencimento e , principalmente, pela Lei, e se possível, pela força. Foi assim na Roma antiga com Constantino e assim querem que seja os fundamentalistas evangélicos. Ainda somos umma jovem democracia, então, é perfeitamente normal que o Brasil ainda não seja um verdadeiro Estado Laico. Os gays ja´sabem disso...Os evangélicos talvez nunca saberão. Estamos num país livre; cada qual pode ter sua escolha religiosa, entretando, representantes do povo, como deputados e senadores,devem ter cuidado para zelar pelos interesses de todo o povo brasileiro.Posso garantir que até mesmo o deputado Rodovalho foi eleito por gays: um dos lugares que mais esconde " gays mártires" é a Igreja.

terça-feira, 24 de março de 2009

Pérolas aos porcos

Freud disse que se alguem quer se tornar um analista deve começar a analisar seus próprios sonhos. Não sei se essa frase fez um efeito no meu inconsciente, mas ando tendo sonhos os mais estranhos.
Esta noite sonhei que tentava ensinar um papagaio a falar, mas ele insistia em tentar me morder nas partes pudendas. Depois disse estava atravessando uma ponte, aqui em São Luís. Era estreita e eu tentava conduzir meu irmão por ela; eu estava assustado, com medo de cair e deixar meu irmão cair. Mas, Felipe ( meu irmão ) parecia saber o que estava fazendo, e eu não.

Deixarei as associações de lado hoje; meu humor não irá contribuir em nada. Acordei mais cedo hoje, ás 10:30. Meu intento era caminhar na praia, pegar um sol e perder a barriga. Não pude. Acordo sempre arriliado; o sol me dói, o calor é insuportável.
Ando sem inspiração para escrever, e até falar. Talvez eu não esteja a fim de ensinar papagaio falar hoje. Eles só repetem, não sabem o que dizem e ainda tentam atacar nossa intimidade. ha! Eis o sonho revelado .

Diria Jesus : Não jogue pérolas as porcos.

sábado, 7 de março de 2009

Sonhei.

Breve sonho.

“E então sonhei que andava aqui na beira mar de São Luís. Olhei para o mar e vi uma mulher a nadar rapidamente; ao olhar mais atentamente vi que ela não podia ser humana: tinha que ser uma sereia. Com certeza aguda afirmei dentro em mim: é uma serei. Ela era linda, grande, de pernas longas e cabelos encaracolados, belíssimos. Ela saiu da água, impávida; olhou-me atentamente com ar tranqüilo e curioso. Deitou-se ao estilo Cleópatra e começou enxugar as pernas e pés e eu pude ver nitidamente a transformação se passar—seus pés variavam entre pés normais e nadadeiras. Sua cauda não era una como são as das sereis normais, mas cada perna era uma nadadeira. Finalmente a transformação foi completa. Ela se levantou, me olhou com curiosidade e como se ,alegremente, houvesse encontrado algo. Junto dela vinha um garoto, um tipo de assistente na terra. Tomando a palavra ela disse: --bem, tenho mesmo 3 a 4 convites que posso dar para pessoas desconhecidas, vou te dar, você também vê. É um convite para um seminário.
Ela foi embora sem mais explicações. O garoto ficou, como um flanelinha, todo serelepe, ávido a conversar comigo. Perguntei se era traje de gala. Ele respondeu sim eu deveria ir de terno”.

Até aqui lembro-me do sonho. Sonhei muito mais, mas as memórias são fugidias. Pensei que um trabalho de associação livre neste sonho poderia render algo, então aqui vamos nós:

Beira mar em são Luís, mulher nadando rapidamente na água. Quando vi a cabeça dela na água lembrei da mulher de um tia meu, irmão de minha mãe. Parecia com ela. Ela nadava ao estilo borboleta, estilo que nunca aprendi. Mas sempre gostei de fazer natação, mas não passei muito tempo. Mas lembro que fiz natação num lugar aí que não lembro bem, não sei onde é. Mas o lugar me vem claramente à mente. Lembro também que teve uma competição; eu era super novinho. Nunca gostei de competições, participei dessa e no judô também. Não ganhei nenhuma dessas. Acho que nunca fui muito estimulado ou eu nunca tive muita gana por ganhar as coisas dessa forma. Competindo. Lembro muito bem da sensação de ir a uma competição. Algo naquilo tudo me enfraquecia, ou eu já era fraco para enfrentar aquilo. Eu era muito novo. Não tinha esse instinto. Até hoje não gosto dessa luta pelas coisas, a competição da vida. Não tenho essa avidez pronta para atacar. É ruim, mas é como eu sou. No judô não sei o que me fez ir competir. Bem, um amigo de meu pai, um pastor aí, veio aqui e achou bonito eu fazer judô. Disse que era coisa de homem. Que me faria bem. Imagina. E eu larguei o judô porque eu preferia estudar piano, estava acabando com minhas mãos. E uma sereia, metade mulher, metade peixe. Nadando à beira mar, rápida, alegre e feliz. E aquele ser dúbio e paradoxal a me chamar a atenção. A serei aque habita e canta no mar, mas faz seus afazeres na terra. Distribui convites a desconhecidos: posso chamar pelo menos 4 desconhecidos para este seminário. E ontem um conhecido me convidou para fazer uma pós-graduação, fui indicado por ele e até ganhei um desconto por ter sido convidado por ele. A serei virou para mim e disse que eu também vejo as coisas. Estranho? O que será que vejo? Por que a reconheci? Seria isso? Que todos a vêem, mas ninguém reconhece? Ou que sou parecido com ela? Canto no mar, mas vivo na terra? Que distribuo convites a desconhecidos? Vamos parar por aqui hoje.

terça-feira, 3 de março de 2009

Começando a viver.

Todos já sabem da minha última cirurgia, o tal do cisto que removi. Bem, é de conhecimento geral também a minha falta de sorte – outros dizem que é meu pessimismo que atrai minhas catástrofes pessoais--, assim, hoje fui parar na mesa de cirurgia do dentista para consertar minha gengiva. Pode? Simplesmente ela resolveu que ia crescer por sobre meu dente. Este bendito dente terá que ser submetido a um tratamento de canal, ou seja, daqui pro fim do ano termino minhas visitas ao dentista. Depois de ficar bom da cirurgia vou pro canal, do canal vou pra limpeza e assim sucessivamente até que eu tenha deixado de lado toda minha vida pra cuidar dos dentes.

Mas, no fundo eu acho que essas cirurgias sempre vêm em boa hora. Como se meu corpo soubesse a hora de parar um pouco e retomar meu eixo existencial. Na época do cisto foi o buraco que me lançou de volta ao meu centro, à minha falta estrutural. Agora, é minha boca que me obriga a fica calado e quieto. Posso ler e ver filmes, e é claro, usar a internet ( até o dia que minha síndrome do carpo resolva parar meus dedos de digitar). Só o fato de ficar parado e não poder fazer nada em si já é terapêutico, tem poder de ruptura, sendo deleuziano. Um fato corriqueiro como mexer na gengiva pode ser um verdadeiro “ acontecimento” que oferece uma ruptura no fluxo existencial de alguém. No meu caso fez minha mente parar e descansar; não planejar nada, já que não vou poder sair de casa mesmo pelo menos até amanhã. Posso ficar parado aproveitando o ócio, sem culpa ou racionalização e me recolocar na linha. Rever meu caminho e , como diz o salmista, “ contar meus dias”. Sempre digo que uma vida não refletida não vale a pena ser vivida. Outra coisa que aprendi com as cirurgias é que ter uma dor física presente nos coloca em outra relação com nosso corpo, com o sofrimento e com a mente. É como se a dor tornasse a vida mais pura e sem imaginação; sem rodeios a dor aguda mantém a mente sempre ativa. Não sei explicar, mas a dor é algo essencial da vida. Não há como fugir.
É por isso que eu digo: pra viver a gente tem que se lançar sem medo de ser feliz, e acima de tudo, sem medo de ser machucar. Porque ás vezes, sentir dor não é tão ruim assim, pode ser o início de realmente se começar a viver.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Hoje é dia de chuva.


Eu precisava ser resgatado-- escreveu na folha solta e deixou ao lado. Parece que a vida passou mais rápido do que eu.
São pensamentos soltos que deixei passar pela minha cabeça hoje. É difícil poupar o blog de um tom confessional em dias como hoje: quando a chuva cai e os anos começam a pesar como a mão de Deus. Quando a chuva traz exemplos de tantos outros que superaram seus arredores tão mais rápido; quando tudo ao meu redor informa o passo lento de meu desejo. E quando a chuva traz a lança fina da imperiosa vida; sem mistério, sem fantasia ou imaginação. Quando a vida, de repente, arregaça sua crueldade. A empáfia do viver no corpo. E não é da velhice que lhes falo, no entanto, o corpo sente a pressa de viver, enquanto a cabeça cai ao lado tonta de ter que viver tudo dentro dela.
É quando a chuva cai que percebo todas essas coisas: o som da música, os lugares, corpos e pessoas; e outras chuvas... E tantas outras possibilidades. Tudo num passado não vivido dentro de um presente que anuncia tudo; de tudo bebo; quero tudo que há. Tudo. Ao mesmo tempo. Engolfo-me. Gafadas rápidas, cheias de ópio. Sem goles; tudo de uma vez só. É que o presente se impõe tão fortemente com medo do passado...Que o futuro foge de mim. E eu aqui sentado sinto meu corpo vibrar em todas as cores que há no mundo; em todos os cheiros e as peles expostas ao sol reclamam minha vingança. Devo vingar-me de mim mesmo, ao custo de muita dor ou muito prazer. Vai acabar dando no mesmo. E meus olhos largados ao longo do rio me olham, ao longe, me secam. Sugam-me a vida. Pedem-me, não. Suplicam-me que eu viva mais e que tudo ao meu redor se eleve. Eu quero a levitação da vida. Ter os pés mais rápidos ...Mais velozes que meu passado. Meu presente pede tudo ao mesmo tempo e por ele meu corpo exige a morte mais lenta que eu possa achar. Não sei se concederei todos os desejos; mas minha imaginação sustentou minha saúde, até agora. Diz meu corpo: é chegado o tempo; e não há mais como esperar. A vida tem que ser, e será , porque ela vive sem mim, um mandamento. Eu vou obedecer. Sem escolhas, sem desculpas, sem pretérito.
Hoje é dia de chuva.