
Devo dizer algumas palavras sobre a psicanálise. Muitas pessoas me perguntam por que fazer uma análise e o que realmente faz um analista. Dizer por que alguém faz uma análise é difícil,as talvez um bom começo seria dizer que o sofrimento, o medo, ou seja, a angustia levam alguém ao divã. Não há pílula para o medo, para a indecisão; não há remédio para os anseios da alma, estes, só se expressam em nossas tentativas cambaleantes de dar sentido a uma vida, que, de forma imanente, não tem nenhum sentido. A verdade da ciência não aplaca a angustia posto que, as descobertas científicas só reafirmam o não-sentido da vida. A religião também falha, já que os sentidos são inflexíveis e entregues prêt-à-porté, isto é, está lá, antes de nós.
Uma análise também não pode tudo. Mas, pode alguma coisa. O que ela pode é dar ao sujeito a chance de, do não-sentido e vazio da existência, criar algo que é só seu- sua verdade. E a verdade aqui é a ficção própria que cada sujeito irá realizar sob a escuta atenta de um analista. Aquilo que era da ordem de um sofrimento irá falar, e falar elegantemente. Deixo-os agora com algumas palavras do próprio Lacan numa rara entrevista em 1974.
Sobre o tratamento diz Lacan:
JL - O neurótico é um doente que se trata com a palavra, e acima de tudo, com a dele. Ele deve falar, contar, explicar-se a si próprio. Freud define a psicanálise como a assunção da parte do sujeito de sua própria história, na medida em que ela é constituída pela palavra endereçada a um outro. A psicanálise é a rainha da palavra, não há outro remédio. Freud explicava que o inconsciente não é tão profundo quanto inacessível ao aprofundamento consciente. E ele dizia que nesse inconsciente, aquele que fala é um sujeito dentro do sujeito, transcendendo o sujeito. A palavra é a grande força da psicanálise.
EG - Palavra de quem? Do doente ou do psicanalista?
JL - Em psicanálise os termos “doente”, “médico”, “remédio” não são mais justos que as fórmulas no passivo que adotamos comumente. Dizemos: se fazer psicanalisar. É um erro. Aquele que faz o verdadeiro trabalho em psicanálise, é aquele que fala, o sujeito analisante. Mesmo se ele o faz da maneira sugerida pelo analista, que lhe indica como proceder e o ajuda por suas intervenções. Lhe é também fornecida uma interpretação. À primeira vista, ela parece dar um sentido ao que o analisante diz. Na realidade, a interpretação é mais sutil, tendendo a apagar o sentido das coisas pelas quais o sujeito sofre. O objetivo é mostrar-lhe através de sua própria narrativa que o sintoma, a doença digamos, não tem nenhuma relação com nada, que ela é privada de qualquer sentido que seja. Mesmo se na aparência ela é real, ela não existe. As vias pelas quais esse ato da palavra procede, reclamam muita prática e uma infinita paciência. A paciência e a medida são os instrumentos da psicanálise. A técnica consiste em saber medir a ajuda que damos ao sujeito analisante. Em conseqüência, a psicanálise é difícil.