Este ano sem resoluções; sem enganos, sem promessas. Só no puro fato e acontecimento.
Em tempo, menos culpas, menos razão, menos coração. Mais vida, mais vida, mais vida muito além. No além dos além- lá no alto do além de todo bem e mal.
Arrependimentos?
Definitivamente não. Entrego a vocês meu contraditório: outro dia afirmei que me arrependia de muitas coisas e ainda me orgulhava disso. Pois é. Mudei de idéia. Eu não me arrependo. Não imagino um cão ou um gato se arrependerem de alguma coisa;. vivem demais no presente para isso. Só vivem no presente, para ser mais preciso. É a temporalidade que acaba com a gente: passado e futuro. Escapar dela é destruir a matemática e a gramática. É sambar na corda do abismo sem temer a queda pois já estamos caindo mesmo...
A lucidez do nascer do dia me diz: menos dignidade Rafael. E quando minha busca por ela terminar, finalmente deixarei de perdê-la tentando tão desesperadamente achá-la. Serei, enfim, digno. Quem terminar de ler esta prece louve meu nome ao recitar:
digno és.
porque estar à altura é insuportável.
Antes de um acordo ideal entre o dito e o dizer, queremos dar lugar à suprema diferença entre o dito e o dizer de quem fala, e que leve em conta também a possibilidade de modificarmos nossa posição subjetiva em relação ao dito.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
morrer em vida.
Tornar-se o que se é – tarefa pra toda vida.
No meu caso veio tardiamente. Mas veio. E veio com certeza de que só me encontrarei quando eu concordar em ser nada além disso que sou. O acordo requer uma grande dose de ostracismo- ninguém consegue levar sua constituição em matéria viva até as últimas consequências sem que pague com um pouco de recolhimento. Quando você começa a perceber que tudo é vão aí a vida começa a ficar realmente difícil. Quase insuportável. E certamente completamente imponderável. Quando você percebe em si uma quase completa inabilidade para pantomimas, aí é preciso com urgência seguir o plano B. No meu caso o plano B é voltar ao plano A. Foram necessários alguns desvios para eu aceitar, não sem relutância, que eu só corria em direção a esse destino: o plano A.
E qual é o plano A?
Não se diz. Ser não é algo que se consiga tão facilmente escrever; não eu um escritor medíocre. A única forma então de dizer-lhes do plano é colocando-o em ação. Duvidem, questionem e depois se surpreendam.
“ Aquele menino trazia na testa a marca inconfundível : pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar. Essas são as escolhidas- as que vão ao fundo, ainda que fiquem por lá”. Caio Fernando De Abreu.
“ Deus não mata ninguém. É a pessoa que se morre” Clarice Lispector.
E que bom é morrer em vida- Rafael Pinheiro.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Beleza da família
Quando somos mais novos tudo que queremos é sair da casa dos pais. Quando o tempo passa tudo que sonhamos é voltar para a casa dos pais, de um jeito ou de outro. Descobre-se a diferença sutil entre proteger e sufocar; depois de um tempo você cai na real e admite que,por vezes, proteger é sufocar - e que não é tão ruim assim ser sufocado por quem nos ama. É melhor do que quebrar a cara, literalmente.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Diálogos cotidianos (1)
Inicio hoje a série diálogos cotidianos. Para quem não sabe não moro só. Moro junto com uma querida amiga. Eu psicólogo, ela professora de filosofia ( título dado por ela mesma); ambos incomodados com as coisas. nossos diálogos tem o poder de nos mobilizar e, principalmente fazer avançar—cada um pro seu caminho. E que bom quando ás vezes nossos caminhos convergem. Esta série pretende ser um pequeno diário de nossa vida a dois.
Ela- Por que a gente nasceu pra pensar?
Eu- a gente não nasceu pra pensar. A gente pensa porque gosta.
Ela- vamos publicar isso!
sábado, 4 de dezembro de 2010
Homofobia. Drauzio Varella
Texto de Drauzio Varella na Folha de hoje.
Violência Contra Homossexuais
A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.
Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.
Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.
Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.
A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.
Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.
Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.
Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.
Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.
Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.
Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.
Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?
Violência Contra Homossexuais
A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.
Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.
Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.
Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.
A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.
Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.
Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.
Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.
Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.
Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.
Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.
Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?
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