domingo, 19 de novembro de 2006

Para o Norte

E ele corria. Corria...corria...corria para o Norte. Observava as formigas; inquieto, pensava que talvez não fosse dar conta de levar aquilo até o fim. Continuou correndo—não queria pensar em nada—correr sempre o ajudou a manter a mente sã, atenta e alerta. Esta noite teve um sono enquanto corria, sim, porque nunca parava de correr. No sonho era como se estive em um templo, uma igreja. Eram tantas pessoas, parecia que ele já conhecia o lugar: bem iluminado com centenas de velas. Uma senhora gorda olhava para ele alegremente. Um sacerdote vinha em sua direção e lhe falava que conduzisse a reunião. Ele, sem saber o que fazer, tomou um livro na mão. o livro era o microfone. Tinha o lugar certinho de ser falar, logo perto do código de barras. Agora que fazia força pra se lembrar do sonho, bem que lhe parecia que o livro que segurava era essa coletânea de artigos do Pasquim. Achou que fosse. De qualquer forma falava à congregação através livro. Achou tudo aquilo muito desconfortável e pediu um microfone. A moça que cantava ao seu lado disse-vou pedir pra mudar pra 180, porque a freqüência ficar melhor e você não precisa ficar fingindo nada né? Ele não gostou nada do tom da menina. Começou a cantar uma música que não conhecia, algo como –“enche está casa com tua glória, enche...enche”.

Esse foi o sonho. Nenhum significado aparente. Mas, ele não tinha tempo para ficar pensando e decifrando sonhos. Ele tinha que correr. Correr e correr. Sempre para o Norte. Sim! As formigas. Ficava observando como elas paravam umas em frente das outras; sussurravam , pareciam dizer algo e a outra continuava. Alguém lhe disse que é assim que elas se comunicam—trocam substâncias, algo como comunicação química. ----Ah! À merda essas explicações! Que coisa! Falou com raiva mesmo. –Esse povo não se conforma de inventar explicação pra tudo. Eu acho que as formigas conversam mesmo. por que não? Se é química ou voz, qual a diferença. Eles só inventam isso pra dizer que as formigas são as formigas e os humanos são humanos. É um medo danado que a humanidade tem de se confundir com o Tudo.

É por isso que ele corria. Corria pra o norte. Já estava suado e suas roupas já gastas. Corria descalços, porque seu tênis não agüentou, deve ter ficado lá pra bandas do México. Não parava de correr. O clima já estava mais frio que o seu corpo descoberto pudesse suportar. Mas, ainda assim, não parou de correr. Correu até que suas pernas pediram arrego e lhe deixaram cai no chão frio. Ao cair, lembrou-se do sonho...Lembrou-se das formigas. Olhou para o Norte e neste momento, somente neste momento achou que não chegaria lá. Mas foi um pensamento rápido, desses que a gente tem ao acordar e logo se esquece. Deitado, não pensou mais que não conseguiria. Não tinha forças nem para andar. Olhou uma carreira de formigas que passeava ao seu lado. Elas conversavam entre si. Ele estava tão resoluto ao olhar para as formigas que não piscava. Estava tão cansado e queria tanto chegar ao Norte. Era tudo para ele. Foi por isso que correr tanto tempo. Seu coração já não batia tão forte, devia ser o frio. Mas não desistiu. Seu pensamento voou longe...volto ao sonho. Estava em frente à congregação novamente. A velha gorda já não lhe olhava com tanta alegria. O olhar agora era de uma comiseração venerada. Deixou-se cair em profundo sono, mas antes, olhou para as formigas, e , com esperança segredou: “ eu vou para o Norte..sim eu vou..nem que seja carregado pelas formigas”.

Um comentário:

  1. Ei meu querido, to sempre acompanhando teu blog, só não tenho comentando, tenho achado desiteressante os comentários que tenho a fazer, então não sinto vontade- e vontade sempre é relevante. Mas vc como sempre é sensacional, saiba q sou uma das suas maiores incentivadoras. Um grande beijo
    Janaina

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