terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Invasões Bárbaras ( Sem número)


Sempre achei que as invasões bárbaras estavam restritas ao cinema- pelo menos quando elas me atacavam. Mas fui ingênuo. Os bárbaros estão tomando de assalto todo o planta. A derrocada da civilização é rápida e os bárbaros nos consomem de todos os lados. Para todos as lados que eu olho lá estão as marcas dos bárbaros. Então, pra não perder o costume trago mais um relato de invasões no cinema – depois conto a invasão de hoje.

Ontem fui tirado do meu conforto domingueiro para ver “o Céu de Suely”- um filme brasileiro recém lançado. Eu não gostei. Os dois amigos que foram comigo disseram que gostaram, mas eu não sei ao certo. A mim o filme não disse nada. Não passa de um roteiro mal feito contando uma história que eu já ouvi milhões de vezes: moça pobre- abandonada pelo marido- retirante do nordeste- pobreza- prostituição-final infeliz. O normal. Receita normal para se tentar fazer um filme cult. Não foram bem sucedidos. Pelo menos não para mim. Realismo no cinema é coisa difícil de fazer sem parecer um apelo à boa vontade dos cinéfilos. Mas sim, não estou aqui pra falar disso.

Imaginem vocês que os pipoqueiros estão atacando também nos cinemas ditos “ cult”. É claro que eles me cercaram, literalmente, ao meu redor só tinha pipoqueiro. E olha que eu me sentei longe de todo mundo, só que eles vieram até mim. Parece que advinham. Além da ruminação de milho duro, dessa vez, um velho antipático resolver amassar o saco de pipoca a cada grão que ele tirava do saco. Um barulho ensurdecedor. Algo inenarrável – perco até o ar de pensar. Eu dei várias olhadelas pra cara do velho, mas ele parecida tirar um gozo sarcástico daquela tarefa mefistofélica de ficar me aporrinhando. Pelo santo graal! No fim de tudo, além do barulho infernal, deixaram o chão do cinema um nojo- pipoca pra todo lado, sim porque a boca do povo é furada. Olha, vou te contar. eu enforquei Judas, só pode. Fora isso, é claro, uma gorda enorme não parava de ri ( se o filme era comédia até agora eu estou no limbo, porque não achei a menor graça-).

Mas voltemos à barbárie de hoje. Um dos meus divertimentos é ler as portas de banheiros quando sou pego desprevenido na rua. Sim, porque eu faço de tudo para não ter que usar banheiros fora de casa, mas ás vezes, como hoje, é inevitável – tive que me render ao trono público – uma indignidade. Então, já que estava preso no cubículo de tortura passei a ler os escritos de banheiro. São ótimo! Tem de tudo. Mas algo me chamou a atenção hoje. Um dos escritos dizia: “ viado+ Gays= AIDS. Eu fiquei alguns instantes estupefato com a frase. Pensamentos como : “ que preconceito! Quanta ignorância!”, passaram pela minha cabeça. Mas depois uma tristeza aguda me bateu. Tristeza quando penso que ainda vivemos numa sociedade tão violenta e tão bárbara. São pouquíssimas as pessoas que conseguem ver além dos muros invisíveis. Foi incrível como esta frase me lançou naquilo que os lacanianos vão chamar do “ Real”- o insignificável. Não pude dar sentido o que senti. Fui ao Caio (* Caio Fernando Abreu, ele tem sido um refúgio sombrio nestas madrugadas insólitas que busco uma alma boa) e gostaria de finalizar com ele:

“....Aquele menino trazia na testa a marca inconfundível: pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifra-la ou se apenas pelo prazer de mergulhar. Essas são as escolhidas- as que vão ao fundo, ainda que fiquem por lá. Como aquele menino. Ele não voltou”. ( extraído do conto Eles).

4 comentários:

  1. rapaz, eu fico até acanhado de dizer... eu como pipoca em cinema! pronto, disse. mas eu me esforço ao máximo pra nao fazer barulho.

    ando gostando dessa última fase do teu blog... menos dark... mais divertido...
    abção

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  2. Nosso mundo é bárbaro em todos os seus sentidos, amplitudes e infinitudes... alguém se salva???
    Janaina

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  3. Rafa, Ontem tive uma experiencia parecida vendo "O ilusionista" no Del paseo...fiz tanto pssiiiu! que fiquei com cãimbras na boca!
    Quanto ao Ceu de Suely, o argumento é da Simone profa de sociologia da Unifor, o q tem dado o maior babado ,pois o Karyn Não inclui ela nos credito e sim nos agradecimentos. Olha q loucura a primeira vez q este filme foi feito, foi em curta e minha irmã a atriz que se rifava. bjs
    Marta L.

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  4. "Porue vc não pode voltar atrás no q vê. Vc pode se recusar a ver, o tempo q quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou mover-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em q vc vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coias não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe.Há aquele olhar de que lhe falei, e aquelas outras coias, mas nada sei de vc por dentro, depois de ver."

    ...

    Sintonia, baby! :)

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