quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

No sense


Ele acordou pra vida tarde demais. Depois de acender um cigarro jogou-o sem fumar pela janela. Observou-o cair até onde sua visão podia alcançar. Aproveitou pra olhar as pessoas que bebiam do outro lado da rua. Pensava se um dia ele se acomodaria em seu próprio mundo. Sentiu-se farto das mesmas coisas... Sentia hoje que mesmo que fosse tarde ainda podia viver metade de sua vida com a força suficiente e necessária para prevalecer com dignidade. Sabia que precisaria de muita dignidade, mas acima de tudo, coragem para se permitir viver. Era preciso achar seu meio; um habitat essencial -sua morada. De todos os seus amantes lembrava-se raramente de algum... Ficou somente uma mistura de cheiros confusos que lhe davam a nítida sensação de que seus perfumes já se misturaram demais para só uma vida... Para uma só vida.

Levantou-se resoluto. Era madrugada e o silêncio lhe corrompia os sentidos. O barulho do dia era como tambores a sufocar seus gritos miúdos. Mas ele gostou naquela madrugada de ser corrompido – pelo menos agora estava sendo corrompido pela sensatez. Não era uma sensatez que vinha de outro lugar, mas vinha de dentro, dele mesmo; dentro de tudo que se pode chamar de suas experiências. Ele acordou tarde demais pra a vida. Mas como acordar antes? Como despertar antes se para acordar é preciso quase morrer tentando viver? Escreveu pra si mesmo:

"Sinto-me desperto de um jeito novo e corpulento. Sinto a vida me envolver e me ensinar coisas que há tempos se perderam dentro de mim; uma mistura de frustração com esperança viva de acertar. Minha certeza burra se dissolveu. Quem sabe eu possa estar complicando tudo de novo, mas ao menos é novo, e é de novo. Sinto-me desperto de uma maneira rica e suficiente, como se nada mais me atraísse da mesma forma. Como se o poder das cores tivesse sido invertido e agora eu percebesse tudo um pouco fosco. Sem força, o desejo se levanta contra mim, eu luto, não me deixo vencer. Abarco o mundo com meu olhar... E ele me abarca para me sufocar, mas não o deixo. Há uma força repentina e teimosa que me cerca de todos os lados. Dentro em mim não há mais certezas... Duvido se posso continuar. Sei que não devo procurar mais nada. Sei agora que devo aceitar as coisas e agradecer porque algo me acontece. Minhas tentativas bregas de ser gente se perderam completamente. Sinto-me desperto de um jeito novo e voraz. Saio de um limbo de parasitas para uma vida viva, porém comedida. Riu agora dos excessos e me defendo deles. Meu desejo se revolta contra mim. Eu me revolto contra meu desejo. Sufoco a agonia e a chamo de insana.

Tocam os sinos da aurora

No meu peito uma brasa se apaga... No frio deixo minha solidão permanecer.

Ela aumenta e comprime tudo ao redor...

Nada feito sem ela, nada feito com ela.

Deixo minha solidão partir sozinha... Em busca de si mesma... Não cedo nem para eu mesmo passar. Passo arrastado...

Devo ir...devo ir..devo ir..."

Um comentário:

  1. Mas eu já não sangro á tôa e agora lembro que tenho olhos para ver as coisas.

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