( Ao som de Ennio Morricone- The Mission)Alguns devem imaginar que ter um blog é coisa de adolescentes. Eu também pensava isso quando não tinha um. Mas pra mim ele se tornou uma necessidade. Primeiro que é um local onde você escreve e é lido, ainda que por poucas pessoas. Segundo, todos gostam de falar e desabafar e sempre ter uma audiência passiva. Eis o blog---ainda que não seja tão passiva assim porque tem os comentários, mas posso sempre apaga-los, como eu gosto de dizer, placidamente.
Vamos aos desabafos.
Hoje preciso lidar com a saudade. Morar longe de casa e dos seus não é tarefa fácil, mas acredito que escrevendo posso chegar a algum significante que dê sentido ao vazio.
Vazio. Foi exatamente isso que senti ao ler um email do meu pai hoje. Não pelo email em si, mas por ver que a vida continua
Ainda na busca de encontrar significantes para minha saudade, fui ao dicionário procurar ajuda. Se não estou enganado Cecília Meireles disse que se tivesse que levar consigo um só livro para uma ilha desabitada, levaria um dicionário. Na época não concordei, mas hoje vejo que ela foi muito sábia. O dicionário é um poço de significantes. Então vejamos:
Saudade:
1 sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável.
Etimologia
lat. solìtas,átis 'unidade, solidão, desamparo, retiro'; der. do lat. sólus,a,um 'só, solitário', que se conservou nas línguas hispânicas, esp. soledad, port. Saudade.
Acho que vou me apegar à palavra “retiro” e ao ” afastamento de um lugar e ausência de certas experiência e determinados prazeres já vividos”. É isso que é saudade. Mas sinto que devo expandir. Saudade é ter que continuar vivendo; mesmo sabendo que as experiências dantes vividas não param de acontecer só porque não estamos mais presentes. A vida continua; as pessoas continuam saindo juntas e fazendo planos para o futuro. A cidade não pára; os amigos não deixam de se reunir; os cachorros engravidam; compram-se novos móveis; algumas pessoas se mudam. Outras de casam; outras começam a namorar; algumas terminam o namoro. Em suma: quando você volta, nada está como você deixou. Tudo muda e isso só aumenta a saudade, pois sabemos que o período que estivemos fora está perdido para sempre. Acho que é isso que intensifica a saudade. Mas há pelo menos uma consolação quando você sente falta de pessoas amadas. É que se elas realmente te amam – como é o caso—elas sempre reservam algumas experiências que, mesmo que prazerosas, só fazem sentido se forem vividas com você. É isso que consola a gente na saudade: ter a certeza de que sempre deixam um lugarzinho para nós.
"Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade,
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido..."
Pablo Neruda


