segunda-feira, 23 de abril de 2007

Saudade

( Ao som de Ennio Morricone- The Mission)

Alguns devem imaginar que ter um blog é coisa de adolescentes. Eu também pensava isso quando não tinha um. Mas pra mim ele se tornou uma necessidade. Primeiro que é um local onde você escreve e é lido, ainda que por poucas pessoas. Segundo, todos gostam de falar e desabafar e sempre ter uma audiência passiva. Eis o blog---ainda que não seja tão passiva assim porque tem os comentários, mas posso sempre apaga-los, como eu gosto de dizer, placidamente.

Vamos aos desabafos.


Hoje preciso lidar com a saudade. Morar longe de casa e dos seus não é tarefa fácil, mas acredito que escrevendo posso chegar a algum significante que dê sentido ao vazio.

Vazio. Foi exatamente isso que senti ao ler um email do meu pai hoje. Não pelo email em si, mas por ver que a vida continua em São Luís; e ela continua sem mim. Talvez seja o que há de mais cortante na vida seja isso: ela continua não importa o que. No email ele me contava de suas felicidades e de projetos, dos quais, pela distância, não posso participar diretamente. Ontem à noite conversei um pouco com minha irmã ao telefone e tive a mesma sensação: a vida prossegue. Júlia ( nossa poodle) está prenha. Jack ( outro poodle) vai ter que ir embora lá de casa porque está neurótico; mamãe não agüenta mais. Espero que achem uma boa casa pra ele. Mas isso não deve interessar meus leitores.

Ainda na busca de encontrar significantes para minha saudade, fui ao dicionário procurar ajuda. Se não estou enganado Cecília Meireles disse que se tivesse que levar consigo um só livro para uma ilha desabitada, levaria um dicionário. Na época não concordei, mas hoje vejo que ela foi muito sábia. O dicionário é um poço de significantes. Então vejamos:

Saudade:


1 sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável.

Etimologia
lat. solìtas,átis 'unidade, solidão, desamparo, retiro'; der. do lat. sólus,a,um 'só, solitário', que se conservou nas línguas hispânicas, esp. soledad, port. Saudade.




Acho que vou me apegar à palavra “retiro” e ao ” afastamento de um lugar e ausência de certas experiência e determinados prazeres já vividos”. É isso que é saudade. Mas sinto que devo expandir. Saudade é ter que continuar vivendo; mesmo sabendo que as experiências dantes vividas não param de acontecer só porque não estamos mais presentes. A vida continua; as pessoas continuam saindo juntas e fazendo planos para o futuro. A cidade não pára; os amigos não deixam de se reunir; os cachorros engravidam; compram-se novos móveis; algumas pessoas se mudam. Outras de casam; outras começam a namorar; algumas terminam o namoro. Em suma: quando você volta, nada está como você deixou. Tudo muda e isso só aumenta a saudade, pois sabemos que o período que estivemos fora está perdido para sempre. Acho que é isso que intensifica a saudade. Mas há pelo menos uma consolação quando você sente falta de pessoas amadas. É que se elas realmente te amam – como é o caso—elas sempre reservam algumas experiências que, mesmo que prazerosas, só fazem sentido se forem vividas com você. É isso que consola a gente na saudade: ter a certeza de que sempre deixam um lugarzinho para nós.

"Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade,
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido..."

Pablo Neruda

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Alegria ao contrário



Este é o meu lugar de mal-estar não é? Sim, é um lugar que me pertence, bem no meio de um mundo em que quase nada me pertence aqui tenho o direito de pensar. Sim! Porque por aí à fora, as pessoas que pensam não são muito bem vindas; desde Galileu que o pensamento livre é punido com a fogueira ou forca. Eu, como todos o sabem, sou universitário profissional. Entretanto, nunca me foi possível exercer meu ofício com dignidade pelo fato irremediável de nunca conheci uma Universidade. Ás vezes, num ato de puro delírio, alucinação mesmo, eu penso que estou em uma Universidade e resolvo pensar. É aqui que me lasco. Claro! Todos sabem que ao longo de séculos nunca foi permitido que se pense livremente dentro das Universidades; e ainda mais na UNIFOR é um verdadeiro sacrilégio ousar ter um pensamento próprio. Normalmente os livres pensadores são tidos como arrogantes, “ donos da verdade” ou pessimistas inveterados. Basta lembrar de nomes como Nietzche e Schopenhauer. Alías vale à pena lembrar o que Shcopenhauer nos diz sobre pensar por si mesmo:

“ No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa. Em comparação com os pensamentos próprios que se desenvolvem em nós, os alheios, lidos, têm uma relação como a que existe entre um fóssil de uma planta pré-histórica e as plantas que florescem na primavera”.

Bem, se os dois referidos autores não tiveram sorte em suas vidas, porque eu haveria de ter? Talvez neste ponto realmente eu seja muito pretensioso em almejar melhor tratamento ou aceitação por parte da comunidade acadêmica. Pura bagatela.

Tudo isto para dizer que fui punido com um 6,0 em um trabalhinho de Psicologia Organizacional pelo crime de pensar. Passei o dia me lamentando, mas agora compreendo melhor e, na verdade, sinto-me agradecido. Sim! Porque se eu fosse congratulado e elogiado pelo psicologismo e pensamento medíocre adjacente aí sim seria motivo de vergonha e de que algo estava realmente errado em minha formação como intelectual. Ao contrário, alegro-me e estou satisfeito que não sou achado digno de pertencer ao famigerado grupo de paquidermes de um sistema que jamais estará satisfeito enquanto não alienar até o último mortal do planeta terra.

sábado, 7 de abril de 2007

Tássia


Uma pausa na programação para escrever algo de presente para Tássia.



( bom para ler ouvindo " Eu preciso de você", na voz de Roberto Carlos . link aqui.)




Alguém já disse que os amigos são a família que a gente escolhe—então eu sou um afortunado, porque dentro de minha própria família pude escolher meu melhor amigo. A bíblia diz que “ há um amigo mais chegado que irmão”, com Tássia eu vivo um paradoxo frente à esses ditados: ela é minha irmã e é melhor amiga. Fazer o que? Minha mãe diz que nasci com a bunda pra lua, literalmente- minha bunda impossibilitou o parto normal. Isso explica muita coisa, não?

Acho que dessa vez eu não serei bem sucedido em escrever algo que faça minha little sister chorar, como sempre faço, mas de qualquer forma tentarei.

Nos últimos tempos tenho pensando muito em minha infância e, obviamente, as memórias de nós dois são abundantes. Uma coisa que sempre tento me lembrar é quando foi que passamos de irmãos para amigos. Havia um tempo que competíamos, que brigávamos; um tempo em que eu fazia de tudo para mantê-la longe do meu mundo, dos meus brinquedos e dos meus amigos. Lembro-me bem que em certa época ela me irritava e era a irmã menor que sempre atrapalhava meus planos . Um horror. Ela sempre queria brincar comigo e com meus amigos , e isso me irritava profundamente. Que audácia querer fazer parte do meu mundo. Interessante. Já naquela época ela, mesmo mais nova, era mais madura do que eu.

Foi assistindo “Ponte para Terabítia” que eu tive a revelação: percebi o quanto eu desperdicei. Quanta convivência desperdicei simplesmente porque a infância é assim mesmo: um tempo de enormes desperdícios...sempre achamos que temos todo tempo do mundo; todos os amigos e que a família sempre estará conosco.

O tempo foi passando. Morei um ano fora do Brasil. Quando voltei ainda éramos irmãos; a amizade estava à vista, mas ainda não concretizada. Ela ainda namorava uma criatura com a qual meu santo não batia. Acho que o ciúmes que eu sentia daquele rapaz despertou um amor diferente em meu coração. Fiz de tudo e consegui derrubar aquele namoro. Logo ela começou a namorar seu futuro marido. Até onde me lembro, foi aqui que a amizade começou. Então vamos recapitular: o ciúmes que eu sentia do antigo namorado e a perspectiva do casamento me mostraram o quanto eu a amava. Estranho os caminhos do amor....muito estranhos.

Foi nessa época que algo começou a nos unir. Nos juntamos em torno de dilemas que eram só nossos; angustias de filhos nos uniam. Foi quando começou nosso acampamento na sala de tv. Colocava-mos um colchão no meio da sala e dormíamos juntos, conversando até altas horas. Parecia que o tempo perdido da infância urgia: o amor tinha pressa em crescer.

Quanto mais se aproximava a data de seu casamento mais amedrontado eu ficava: ela teria que sair de casa. O luto de sua saída , para mim, resultou em nossa aproximação. A cada noite nosso amor crescia e a necessidade de estarmos juntos aumentava. As memórias da infância fundiam-se com o presente que agora, era doce e terno. Meus amigos agora eram os delas, os seus eram os meus. Não havia mais competição. A coisa foi se transformando sem que nos déssemos conta. Foi completamente inconsciente.

Depois do casamento nada nos separou. Algo nos uniu ainda mais. A amizade agora alcançava um ponto de maturidade. Já não me lembrava mais que ela era minha irmã. Eu finalmente superei o velho ditado: eu escolhera um membro da família como meu amigo. A irmã desaparecia...algo mais sublime entrou em jogo: amor. Sim. Porque irmãos não são amigos e amantes necessariamente, pois onde há competição não pode haver amor ágape. Sim! Espantem-se! Há um vínculo maior que o amor de sangue. Eu vi isso acontecer em minha própria carne.

Outros eventos me surpreenderam ao longo da minha vida: encruzilhadas e decisões que só eu , Deus e Tássia o sabem. Lugares do meu coração que eu fui abrindo, hoje são janelas escancaradas para ela. Ela pode olhar através e além. Muito além. Minha mudança pra Fortaleza foi dolorida. Mas o incrível sobre Tássia é isto: tudo que em mim é fraco nela é forte, e tudo que nela é fraco em mim ela encontra forças. O amor que cresceu não é depende nem ciumento. O ciúme é fraco e a dependência indigna. Não há nada indigno em nossa amizade. Ela é livre , serena e forte- capaz de resistir ao mundo e aos outros. Alguns podem achar que nosso espaço é impenetrável. Minha resposta é simples: de fato o é. No espaço que existe entre nós não cabe mais ninguém , pois ele foi construído contra nossa vontade e sem nosso consentimento. Assim, só cabe Rafael e Tássia. Foi assim que a vida quis, foi assim que o destino fez. E quem sou eu pra argumentar com o destino?

Nossa distancia nunca nos separou. Neste dia especial eu sinto não poder estar perto para festejar, mas não me entristeço, porque sei que Tássia é dona de seu tempo e sua liberdade. Conheço poucas pessoas tão livres e que desfrutam uma alegria serena. Por isso não fico triste. Fico feliz que Deus concede, graciosamente, mais um ano de vida.

Hoje não sou mais uma criança. Não desperdiço mais amor e, muito menos, tempo. Já se passou o tempo que eu deixava passar as coisas porque achava que elas estariam sempre presentes. Não. Cada dia é mais um presente.

Minha querida amiga, vida longa aqui na terra. Sei que temos a eternidade juntos, mas eu exijo muito da vida- quero você aqui e além.

Um grande beijo do seu antigo irmão, hoje amigo mais chegado que um irmão.

Te amo.

Rafael.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Do it!


Do It

Lenine

Composição: Lenine/Ivan Santos

Tá cansada, senta
Se acredita, tenta
Se tá frio, esquenta
Se tá fora, entra
Se pediu, agüenta

Se sujou, cai fora
Se dá pé, namora
Tá doendo, chora
Tá caindo, escora
Não tá bom, melhora

Se aperta, grite
Se tá chato, agite
Se não tem, credite
Se foi falta, apite
Se não é, imite

Se é do mato, amanse
Trabalhou, descanse
Se tem festa, dance
Se tá longe, alcance
Use sua chance

Se tá puto, quebre
Ta feliz, requebre
Se venceu, celebre
Se tá velho, alquebre
Corra atrás da lebre

Se perdeu, procure
Se é seu, segure
Se tá mal, se cure
Se é verdade, jure
Quer saber, apure

Se sobrou, congele
Se não vai, cancele
Se é inocente, apele
Escravo, se rebele
Nunca se atropele

Se escreveu, remeta
Engrossou, se meta
Quer dever, prometa
Pra moldar, derreta
Não se submeta