quarta-feira, 18 de abril de 2007

Alegria ao contrário



Este é o meu lugar de mal-estar não é? Sim, é um lugar que me pertence, bem no meio de um mundo em que quase nada me pertence aqui tenho o direito de pensar. Sim! Porque por aí à fora, as pessoas que pensam não são muito bem vindas; desde Galileu que o pensamento livre é punido com a fogueira ou forca. Eu, como todos o sabem, sou universitário profissional. Entretanto, nunca me foi possível exercer meu ofício com dignidade pelo fato irremediável de nunca conheci uma Universidade. Ás vezes, num ato de puro delírio, alucinação mesmo, eu penso que estou em uma Universidade e resolvo pensar. É aqui que me lasco. Claro! Todos sabem que ao longo de séculos nunca foi permitido que se pense livremente dentro das Universidades; e ainda mais na UNIFOR é um verdadeiro sacrilégio ousar ter um pensamento próprio. Normalmente os livres pensadores são tidos como arrogantes, “ donos da verdade” ou pessimistas inveterados. Basta lembrar de nomes como Nietzche e Schopenhauer. Alías vale à pena lembrar o que Shcopenhauer nos diz sobre pensar por si mesmo:

“ No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa. Em comparação com os pensamentos próprios que se desenvolvem em nós, os alheios, lidos, têm uma relação como a que existe entre um fóssil de uma planta pré-histórica e as plantas que florescem na primavera”.

Bem, se os dois referidos autores não tiveram sorte em suas vidas, porque eu haveria de ter? Talvez neste ponto realmente eu seja muito pretensioso em almejar melhor tratamento ou aceitação por parte da comunidade acadêmica. Pura bagatela.

Tudo isto para dizer que fui punido com um 6,0 em um trabalhinho de Psicologia Organizacional pelo crime de pensar. Passei o dia me lamentando, mas agora compreendo melhor e, na verdade, sinto-me agradecido. Sim! Porque se eu fosse congratulado e elogiado pelo psicologismo e pensamento medíocre adjacente aí sim seria motivo de vergonha e de que algo estava realmente errado em minha formação como intelectual. Ao contrário, alegro-me e estou satisfeito que não sou achado digno de pertencer ao famigerado grupo de paquidermes de um sistema que jamais estará satisfeito enquanto não alienar até o último mortal do planeta terra.

2 comentários:

  1. AAAAEEEEE Bonitão...se nivelou por cima hein??? Nietzsche, Schopenhauer...
    Apesar da ditadura ja ter acabado, nossos professores são crias desta forma de ensino, ainda bem que alguns escapam, o que mostra que nem tudo está perdido. Mas neste caso em especial...de Organizacional,não dá nem pra argumentar. Servindo a quem eles servem, ao capitalismo que aí está e ainda bancando os bozinhos...vc queria o que??
    Me recolho a minha insignificancia de equilibrista e balanço a corda conforme a música, depois de formada que vai fazer o ritmo sou eu, até então teremos que passar por essas provações.
    Take it easy!

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  2. olha eu aqui de novo!
    rafa, tem muita coisa nova mesmo, li algumas coisas, o outro trecho do rilke que vc postou ( e q tb amo!), quem matou odete roitman (hilário), a linda homenagem q vc fez a sua irmã, o "la donna è mobile" e vários outros...

    continuo gostando dos seus contos, ainda que tenha prometido críticas que iriam "acabar com a tua vida"...hehe

    mas uma coisa que lembrei qdo estava lendo seu blog, foi de um trecho do "Retrato do artista enquanto jovem", no qual o personagem percebia enquanto estava num ônibus, acho, que ainda que ele retirasse todo o cenário em que estava, tudo que fosse contingente, a sua literatura deveria ser capaz de transmitir ainda o essencial, o que se reflete numa busca pelo mais simples. isso me marcou profundamente. lembro da história do livro por alto, pq ainda não o reli, mas isso me marcou.

    por outro lado, tem gente que faz do contingente, o mais essencial. e enquanto estava lendo os seus contos, eu fiquei me perguntando isso sobre eles e não encontrei uma resposta.

    agora me diga você, o mais abstrato ou o mais contigente (uma outra maneira de abstração)?

    bjos, amado :)
    amanda

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