domingo, 28 de outubro de 2007

Le petit prince


Não dá pra entender. São 2 da manhã e cá estou tentando parar de sofrer. Sim, escrever é uma das melhores formas de dar conta de um sofrimento. O mais gozado em tudo isto é que estou de luto hoje por alguem que morreu, que eu não sabia que já estava morto. Estou de luto por alguem que eu nunca vi na vida e nem ao menos conhecia de longe. Ele se chama Gregory Lemarchal. Encontrei-o por acaso enquanto procurar novas versões da música Hymne a L'amour, eternizado na voz de Edith Piaf. Por mero acaso dei de cara com este garoto que morreu aos 23 anos. Sua voz é limpa, angelical; algo que realmente me tocou profundamente. Desta vez eu realmente não faço idéia porque, mas eu estou desolado em saber que ele simplesmente morreu antes de completar os 24 anos. Gregory morreu de uma terrível doença genética chamada de mucoviscidose. Eu não páro de chorar todas as vezes que o escuto cantando Hymne a l'amour. Talvez porque essa música, desde que eu vi o filme sobre a vida de Piaf, está em minha mente constantemente. Ela sempre foi uma canção que mexe muito comigo e depois do filme parece que algo que se arrebentou dentro de mim e que não pára de jorrar. Como as lágrimas quando eu descobir que Gregory se foi tão novo. Não sei que idenficação macabra me uniu a ele, mas algo de profundo. POr isso eu não queria deixar passar e registrar que a morte dele me pesa muito. Vamos. Pensem o que quiserem. Desde que eu sou um lunático que entro em luto por pessoas idealizadas aos quais eu nunca conheci, até a dizerem que estou apaixonado por Gregory. Pensem tudo. Pois tudo é verdade. Algo nele me foi patológico- no sentido de pathos, paixão e sofrimento. Não sei ainda o que pode ser. Tenho somente uma vaga idéia . Acho qeu Gregory, junto com Piaf abriram portas de amor em meu coração que estavam fechadas.

Descanse em paz " petit prince".

ps: no meu blog vocês encontram um video com sua performance.
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=10260813701071291909

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Filipe



Mais um aniversário de Filipe. Falei com ele ao telefone. Ele fala pouco quando está ao telefone; ele espera e ouve. Não sei o que ele quer ouvir, então falo como se eu falasse com um bebê. Algo que me ocorreu hoje é que no tom e no espírito da sua voz eu não sinto que ele é um bebê, ou que eu falo com uma criança. É como se além das palavras ele quisesse dizer algo--como se fosse uma saudade há muito guardada em seu coração. Fiquei pensando o que ele esperava ouvir de mim... Enquanto eu pensava no que dizer era como se eu também esperasse que ele me dissesse algo. Mas ainda não sei o que.

Ele sempre me faz parecer mais idiota do que já sou. Minha “normalidade” tomba ao ouvir sua pequena voz. Tudo que nele parece torto me entorta mais ainda: minhas muitas palavras também nada dizem e o pouco que ele diz vem carregado de algo que me ultrapassa. Na corrida das palavras ele sempre ganha. Ele ganha porque ele fica em silêncio ao telefone como se sentisse que a presença fosse suficiente e as palavras...ah..as palavras são , às vezes, desnecessárias. O que carregam as palavras? Também não sei; mas imagino que seja algo impossível de ser dito. Filipe se limita a nada dizer; ou porque não sabe dizer ou por não saber como dizer intui, sem palavras, o que as palavras carregam. Filipe tem sua própria linguagem porque ele também é. Certamente ele não é como todos somos e por isso mesmo enfrenta uma linguagem mais profunda: ele fala profundamente pelo silêncio. Das poucas palavras que ele me fale sempre está presente um pedido: “ irmão, volta casa”. Depois vem o silêncio; a espera. Ele espera que eu volte...Ou talvez que eu entenda o que é voltar pra casa. Ele espera...Silencia; ouve e respira. Eu sinto, e ele sente a presença ausente que é falar ao telefone.

Hoje, mais uma vez, Filipe desperta em mim um dito que eu não posso dizer, mas que insisto em tentar dizer: tentar explicar o que ele significa para todos nós. É algo que , infelizmente, ainda não sei dizer. Mas cada vez que tento dizer percebo o quanto ele continua sendo, sempre, especial. Especial porque, mesmo sem saber, ele faz mover um desejo firme de continuar procurando um sentido. Meu irmão continua uma incógnita, um enigma para mim; e como todo enigma ele guarda em si mesmo a resposta para seu mistério. É doloroso dizer, mas preciso terminar dizendo que , fatalmente, ele é um autêntico enigma: só ele sabe seu verdadeiro significado e, talvez, eu nunca saiba pois ainda não me acostumei a ouvir o silêncio; e o silêncio é a linguagem que ele sabe falar. Não. A deficiência não é dele; porque ele, mesmo que com dificuldade fala, já eu , sou completamente incompetente quando se trata de ouvir os silêncios e os espaços de incerteza.

Feliz aniversário querido irmão. Obrigado por me fazer escrever meu melhor. Filipe nunca será capaz de ler as coisas que ele me faz escrever, mas não tem problema: ele já sabe tudo que acabei de dizer-ele é o mestre.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O gato


A luz da noite parecia terna hoje; nada irritável como de costume. Na rua um gato solitário passeava sozinho. Respirava estreitamente à procura de seu destino certo; ele era preto e todo mundo sabe que gato preto dá azar – ele sabia disso – era negro de alma também.

Seus passos eram trôpegos, mas sempre sensíveis a sua sina: de forma alguma ele era insensato. Caminhava solenemente como quem vai ao cadafalso. Seus ossos já carcomidos pela idade ainda doíam do dia anterior--um Corcel preto passou perto de atropelá-lo, as costelas lhe roubavam o fôlego. Andava simplesmente triste e desvairado, misteriosamente começava a aprender a se resignar aos fatos inevitáveis da rua: a dureza das calçadas; o temor das sarjetas mal habitadas; ratos corajosos ávidos por sangue; a crueza daqueles que passam – a rua tem um coração de metal.

O gato desfilava no meio da rua; a esta hora os carros dormiam, ele era o rei da avenida. Estava certo que seu desfile teria um efeito arrebatador sobre a gataria. Aqueles gritos nervosos e incertos da cambada no cio eram promessas de fertilidade – já se passaram anos desde a última orgia. Sua única preocupação era ser fiel ao seu fado. Fatalmente morreria hoje--na solidão de uma esquina vaga, de uma esquina abandonada por outro gato preto. Queria morrer solitário, sem piedade ou pieguice de qualquer marca. Queria morrer feito pierrô; ingênuo e sentimental.

Gato preto tem tempo certo pra morrer, não tem sete vidas como todos os outros; tem uma vida e esta quase sempre mal vivida. Sempre conviveu com gatos de outras cores que o olhavam com desdém, como quem olha para carne pouco vermelha, daquelas que deixam compradores em dúvida quanto a sua saúde. Ele nunca deixou de lado a mágoa, sempre cultivou o rancor da indiferença. A cor da pele marcou o tom de sua alma.

A madrugada avançava lentamente trazendo em seus ventos a perturbadora certeza: ele iria morrer hoje. Só e confuso. Queria morrer antes do nascer do sol. Seu plano era a morte sem doença e não observada. Era preciso ausência de luz. Nada de platéia. O choque deveria ser pela notícia. Bastaria alguém espalhar a notícia e sua alegria seria completa. A dúvida agora pairava sobre o método – como haveria de morrer? Seria uma morte dura, rápida e sem dor ou recheada de crueldade e sadismo? A platéia de certo que gozaria muito mais sensualmente com o sadismo expresso do que com a agressão dispersa em metáforas complicadas. Pronto. Já estava escolhido. Seria brutal, visceral e marcante.

De plano em mãos, porém sem saber como executa-lo continuou vagando ao som de uma ópera distante. Do alto se ouvia a soprano cantar um lamento árduo. O gato perseguia seu plano cego – a rua vazia não lhe oferecia perigo, a não ser nas ruelas úmidas onde habitavam outros gatos. Os espectadores! Precisava evitá-los. Morte para ele pressupunha solidão—o espetáculo é o achado, e depois o funeral - pensava resoluto.

Repentinamente avistou uma alameda vazia. Entrou ofegante; a morte suspirava tons sangrentos... Seus ouvidos ardiam. Tudo aconteceu tão rápido, difícil da narrar. Do alto de um prédio, das escadas de incêndio, das sacadas abandonas; dezenas de gatos revoltos desceram em ataque voraz. A voracidade com que devoravam sua carne deixaria perplexo qualquer expectador. Ele morria agonizando. A dor maior era que, não só tinha a tão repudiada platéia, como era ela mesma que o devorava risonhamente. O espetáculo era sórdido e sádico como ele planejara, mas lhe fora roubado o direito de executá-lo. Morreu frustrado e louco. Seu plano não se consumara.

Os gatos fedidos agora saíam em procissão imponente, felizes e satisfeitos: tinham cumprido sua meta , o plano dera certo: mataram um gato preto.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Vai, Carlos! Ser gauche na vida



No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no mei do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

Hoje em uma de minhas aulas ouvi uma colega criticar os poetas porque alguns poemas não fazem sentido, e que, basta ter fama que se pode escrever o que quiser. Obviamente que discordei prontamente e decidi homenagear Drummond ( já que elas citaram expressamente este poema como " enrolação") com o post de hoje. Imagino que as únicas pessoas que podem dizer que este poema é uma enrolação são aquelas que nunca tiveram uma pedra no meio do caminho. Além do mais, mesmo que o poeta ás vezes se engane, é mais uma prova de que na tentativa de dar sentido à existência, sempre haverá uma pedra no meio do caminho. Quem sabe até o poema não faça muito sentido e termine sem terminar; mas não foi porque Drummond queria " enrolar" ou porque ele não tivesse nada melhor pra dizer mas, simplesmente porque apareceu uma pedra no meio do seu caminho. Acerto ou erro de Drummond eu jamais aceitarei que alguém diga que este poema é uma "enrolação". Enrolação é covardia e não há nada covarde sobre este poema, pelo contrário ele foi muito corajoso ao expor sua inadequação perante a vida- inadequação esta que é de todos nós quando somos conclamados a dizer algo sobre o "indizível" e nos deparamos com a pedra no meio do caminho. Tentar encontrar um (1) sentido para um poema como este é beirar a loucura. Na poesia, e neste em específico, estamos no registro não de um (1) sentido , mas do duplo sentido, da metáfora. Mas realmente é pedir demais que todos compreendam isso facilmente. A repetição na linguagem está exatamente firmada no duplo sentido, e como tal , o que para alguns é genialidade, para outros é “ enrolação”. o próprio Drummond ao comentar sobre o frenesi que seu poema gerou nos meios intelectuais da época disse:

"Entro para a antologia, não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais".

A ignomínia da tal colega de classe causou tanta angustia em mim que me lancei a pesquisar sobre outros poetas que utilizaram o mesmo estilo. Deparei –me com o Canto Noturno de um pastor errante da Ásia, composto por Giacomo Leopardi publicado em 1831:

Por que estes ares infinitos, este
Infinito profundo, sereno, esta
Imensa solidão? e eu, que sou eu?

Muitos outros séculos antes Petrarca escreveu: "Tra la spiga e la man qual muro è messo?", o sentido do verso é mais ou menos este:“ No momento em que tudo parece estar obtido, surge inesperadamente um obstáculo de permeio”.

Quero terminar minha simples apologia dizendo o que eu disse a minha ingênua colega:
A genialidade de um escritor é nos fazer pensar que aquilo que lemos nós também somos capazes de escrever, mas no fim, se realmente tivermos “ ouvidos para ouvir” perceberemos que nem em mil vidas seriamos capazes de escrever algo semelhante.

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no mei do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.