sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Filipe



Mais um aniversário de Filipe. Falei com ele ao telefone. Ele fala pouco quando está ao telefone; ele espera e ouve. Não sei o que ele quer ouvir, então falo como se eu falasse com um bebê. Algo que me ocorreu hoje é que no tom e no espírito da sua voz eu não sinto que ele é um bebê, ou que eu falo com uma criança. É como se além das palavras ele quisesse dizer algo--como se fosse uma saudade há muito guardada em seu coração. Fiquei pensando o que ele esperava ouvir de mim... Enquanto eu pensava no que dizer era como se eu também esperasse que ele me dissesse algo. Mas ainda não sei o que.

Ele sempre me faz parecer mais idiota do que já sou. Minha “normalidade” tomba ao ouvir sua pequena voz. Tudo que nele parece torto me entorta mais ainda: minhas muitas palavras também nada dizem e o pouco que ele diz vem carregado de algo que me ultrapassa. Na corrida das palavras ele sempre ganha. Ele ganha porque ele fica em silêncio ao telefone como se sentisse que a presença fosse suficiente e as palavras...ah..as palavras são , às vezes, desnecessárias. O que carregam as palavras? Também não sei; mas imagino que seja algo impossível de ser dito. Filipe se limita a nada dizer; ou porque não sabe dizer ou por não saber como dizer intui, sem palavras, o que as palavras carregam. Filipe tem sua própria linguagem porque ele também é. Certamente ele não é como todos somos e por isso mesmo enfrenta uma linguagem mais profunda: ele fala profundamente pelo silêncio. Das poucas palavras que ele me fale sempre está presente um pedido: “ irmão, volta casa”. Depois vem o silêncio; a espera. Ele espera que eu volte...Ou talvez que eu entenda o que é voltar pra casa. Ele espera...Silencia; ouve e respira. Eu sinto, e ele sente a presença ausente que é falar ao telefone.

Hoje, mais uma vez, Filipe desperta em mim um dito que eu não posso dizer, mas que insisto em tentar dizer: tentar explicar o que ele significa para todos nós. É algo que , infelizmente, ainda não sei dizer. Mas cada vez que tento dizer percebo o quanto ele continua sendo, sempre, especial. Especial porque, mesmo sem saber, ele faz mover um desejo firme de continuar procurando um sentido. Meu irmão continua uma incógnita, um enigma para mim; e como todo enigma ele guarda em si mesmo a resposta para seu mistério. É doloroso dizer, mas preciso terminar dizendo que , fatalmente, ele é um autêntico enigma: só ele sabe seu verdadeiro significado e, talvez, eu nunca saiba pois ainda não me acostumei a ouvir o silêncio; e o silêncio é a linguagem que ele sabe falar. Não. A deficiência não é dele; porque ele, mesmo que com dificuldade fala, já eu , sou completamente incompetente quando se trata de ouvir os silêncios e os espaços de incerteza.

Feliz aniversário querido irmão. Obrigado por me fazer escrever meu melhor. Filipe nunca será capaz de ler as coisas que ele me faz escrever, mas não tem problema: ele já sabe tudo que acabei de dizer-ele é o mestre.

5 comentários:

  1. Filipe viu a foto e ficou emplogado. Eu li o texto e fiquei maravilhado. Vai em frente nessa veia de escrever que vai sair coisa muito boa. Precisamos de mais bons textos em uma época de muitas baboseiras.

    Pai coruja

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  2. Brigado pai. vou continuar. bjs. rafael.

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  3. Nunca sei o q comentar depois dos textos sobre Filipe...sao sempre os melhores...e sempre me deixam sem palavras...
    Na foto, é o sorriso mais verdadeiro!

    Tássia

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  4. Amigo, acho que nunca li tanto um texto teu, sinto-me plenamente tocado pelas tuas palavras e pelo sil�ncio do teu irm�o! um desencontro, a palavra e o sil�ncio, uma rela�o sempre p�stuma, velada, mas feliz, o nascer de um e o encontro de outro!

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