domingo, 30 de dezembro de 2007

Feliz alma nova!



E lá vem um novo ano. Sei que é um clichê nojento, mas não consigo evitar dizer que o ano passou muito rápido. Acho que minhas pegadas andaram mais rápida que meus próprios pés. Fiquei olhando para trás tentando entender por onde andei e porque fiz tudo que fiz e não deu em nada. Fiz tudo que fiz, e andei por onde andei porque foi assim que foi. Não é destino nem providência divina, é que foi assim que aconteceu, e não podia ter sido diferente pelo simples fato de que foi como foi e como podia ter sido.

Com isso quero dizer que eu agi como agi foi porque eu não podia fazer de outra forma, ou porque não quis agir de outra forma ou simplesmente porque não sabia ser de outra forma. É assim que termino o ano sem culpa alguma. Certa vez ouvi de alguém que a culpa não serve para nada. É a mais pura verdade. Sentir-se culpado pelo que se fez ou deixou de fazer não nos ajuda em nada; não ajuda a mudar de atitude e nem gera arrependimento. Não sinto culpa por nada. Na verdade, sinto uma expectativa grande pelo novo ano que começa. Pressinto que um mar de oportunidades, escolhas, destinos e caminhos se abrem para mim. É assim com todo ano: não há nada programado, não há destino, não há absolutamente nem um plano traçado ou sina obrigatória. Tudo que há é da ordem da mais pura possibilidade. Como diz o ditado bíblico “ para Deus tudo é possível”. Sim. Tudo é possível porque Ele é a eterna possibilidade. Nele tudo é possível e está entregue em nossas mãos. É verdade que de tempos em tempos ele mexeu os pauzinhos e algo de milagroso cruza nosso caminho, mas não é sempre assim. Pela minha experiência vejo que Ele prefere ficar como um pai coruja que vê seu filho andar de bicicleta pela primeira vez—sabe que o filho vai cair, mas não o priva das muitas quedas que darão o tão sonhado equilíbrio. Ele vê de longe, de uma distância segura, mas longe o suficiente para fazer de nós seres autônomos, com força própria. Posso estar errado, mas acho que isso explica porque nossas orações são monólogos; exceto pelos fanáticos que dizem ouvir a voz de Deus.


Em 2008 cabe a mim fazer escolhas boas e, principalmente racionais. Quero tentar, ao menos uma vez na vida, usar minha razão para alguma coisa. Nunca deixarei de viver com paixão pela vida e por meus sentimentos, mas neste ano quero racionalmente ser intolerante comigo mesmo. Ontem disse para alguém que o título deste novo ano será O ano da intolerância. Na mesma hora esta pessoa me disse que eu nunca fui muito tolerante. Ledo engano. Sempre fui tolerante demais com tudo e com todos, especialmente comigo mesmo e meus desejos obtusos e masoquistas.

Mas, é interessante como chega um momento ( acho é que são os ventos de uma velhice que já anuncia cálidos porém certeiros agouros) em que cansamos de tolerar nosso próprio masoquismo e percebemos que, acima de tudo, todos merecem ser felizes, incluindo nós mesmos. Acho que estou chegando nessa nova era.
É com isto em mente que anuncio a chegada do Ano da intolerância para mim. É algo do tipo: ame-o ou deixe-o. alguns hão de concordar comigo que : tentamos ser bons para os outros e de nada vale; quando somos piores do que realmente somos, também de nada vale. Então, é preciso ter coragem de assumir que somos todos insuportáveis. Assumir que somente nós mesmos nos aceitamos como somos e que ninguém mais está disposto a nos suportar com tudo que somos e com tudo que sentimos. Esta é uma libertação sem par. Apesar de parecer uma entrada num mundo extremamente solitário, pelo contrário, continua sendo uma entrada solene no mundo das coisas possíveis.

Sendo como somos, sem tirar e nem nada acrescentar, corremos de fato o risco de sermos muito solitários. Ao mesmo tempo, temos a possibilidade de encontrar pessoas ( ou quem sabe uma pessoa) que goste do que veja ( viva à diversidade!) e estejam disposta a nos suportar por algum tempo. Não todo o tempo porque já sabemos que ninguém é capaz disso, mas ser suportado e amado por algum tempo já é alguma coisa. Mesmo que seja por pouco tempo seremos amados por quem nós somos e não por uma imagem mal feita e mal talhada de alguém que nunca fomos ou seremos.

Estimado público, é com muita honra que, em alto e bom som, anuncio o Ano da Intolerância. Não só para comigo mesmo, mas para com todos aqueles que tentarem tirar ou acrescentar uma vírgula na minha famigerada existência. Custou-me muitíssimo conseguir ser o que hoje sou e jamais permitirei que alguém ache isso ruim. Continuarei aceitando as posições contrárias e críticas de qualquer ordem, mas asseguro-me o direito de não levar em consideração nada que contradiga o que minha alma sempre soube. É. Durante 2007 sempre soube todas as respostas em minha alma, ainda assim, não resisti à tentação de buscar uma boba confirmação no outro. Por que? Quando sempre tive minha alma para buscar conselho e conforto? Nunca estive só. Sempre tive a mim mesmo, mas era como se estivesse adormecido entre densas brumas de insegurança.
Que venha 2008....Sem medo, com coragem e uma pitada de insanidade, sigo em frente..Eu e minha alma. Juntos, jamais sozinhos. Um fazendo companhia ao outro. Fazendo assim, espero que em algum lugar do caminho encontremos outra alma acompanhada. Cansei das almas solitárias. Elas são sedentas; vampiros de sentimentos. É como Caio Fernando disse uma vez: “ num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece a outra”. Faço votos de que neste novo ano eu e minha alma cruzemos com almas especiais...deixo as desertas para peregrinos mais inexperientes...

Feliz ano novo !

Rafael Pinheiro.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Uma estória da carochinha.

Uma amiga pediu que eu escrevesse um texto de natal. Não sei se todos sabem, mas sou cristão convicto. Desta forma, o texto que segue é um texto cristão. Não peço que o aceitem, e nem que o respeitem. Muito menos que o leiam. Mas reservo-me ao direito de escrevê-lo sem justificar porque acredito em algum que não posso ver, nem tocar. Não me justifico porque acredito em alguém que, normalmente não responde minhas orações, mas ao mesmo tempo me apaixona tremendamente com silêncio....Sim. Eu creio e confio em Deus. Aqui está o texto.

“... deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino...” ( Jesus Cristo)

É noite. O céu está estrelado. O luar é tão claro que faz os bichos acordarem. Algo de puro e transparente corta o ar, como uma sensação de uma notícia urgente. Na verdade, nesta noite, nenhum animal do campo consegue dormir. As aves voam como se fosse dia. O movimento do gado acorda os pastores que velam por seu rebanho. Algo nas estrelas parece fora de lugar, fora de ordem. Os pastores do campo conhecem bem o movimento dos astros: algo mudou. Eles examinam o céu à procura de uma explicação para a repentina mudança nos ares; mas nada parece explicar o que se passa. Desta vez, não há pressagio, as estrelas nada falam--a não ser por um brilho especial, uma luz doce que alcança não só seus rostos, mas especialmente seus corações. As dúvidas e medos do dia anterior de nada valem nesta noite. Tudo é eterno num só momento. As lembranças mais vívidas que emergem são as mais tenras memórias de infâncias: dias ensolarados,banhos de cachoeira, comida da mamãe; tardes de outono, folhas secas ao vento....

Ao mesmo tempo, não é o mistério que dá o tom da noite. Não. Pelo contrário. Cada um deles sente como se seus anseios mais cotidianos fossem realizados nesta noite. Como se uma revelação, que eles já esperavam há muito tempo estivesse por acontecer.
Foi assim, como num clarão de um relâmpago repentino que tudo se fez dia. As estrelas se iluminaram com força sem igual. A lua tornou-se um grande sol e toda a noite se fez alegria. Em seus corações uma dor ardente se transformava em pranto. De joelhos os pastores admiravam o grande evento. De uma ponta a outra o céu se rasgava; nuvens desciam como se fosse dia claro. De uma fenda na noite um coral de seres magníficos enchia o ar com cores brilhantes. Prata, azul celeste, púrpura e amarelo dourado coloriram a abóbada celestial como uma pintura.
Seus corações quase não podiam suportar tanta certeza: era hoje. Algo de maravilhoso se anunciava com força majestosa. Foi então, que numa multidão de vozes se fez ouvir por toda parte um coral ao mesmo tempo assustador e reconfortante:

“ Não tenham medo filhos de Adão; porque eis que trazemos boas novas que será de grande alegria para todos os povos! Porque na cidade do rei Davi, nasceu hoje o Salvador, que é Cristo , o Senhor de todos. E assim será que encontrareis um menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura”.

Neste mesmo momento os pastores atônitos assistiram ao maior espetáculo já visto. Do mais alto céu se podia ouvir um coro divino. Vozes em harmonia cantando as grandezas de um lugar onde a dor já não existe; onde todas as lágrimas são apagadas, e todas as tristes memórias já não são mais. Ao ouvir aquele canto celeste, seus corações se encheram da mais pura paz e certeza de amor. Em meio a tantas vozes se podia ouvir claramente, anjos a cantar: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”.
Com uma certeza de amor jamais então experimentada, os pastores se levantaram. A jornada seria longa, mas seus corações estavam aquecidos de uma alegria sem igual. Juntos começaram sua caminhada rumo à cidade do grande rei Davi. Nada poderia impedi-los de ver, com seus próprios olhos, a alegria em forma de gente....



Esta é uma das minhas visões daquele dia tão especial no qual nosso querido Jesus encarnou entre nós. Eu poderia dizer ainda de tantas formas, tantos quantos fossem os anseios do meu coração. Cada um de nós fala dessa noite da forma que Cristo lhe toca.

A mim, ele me toca como a alegria mais profunda que eu jamais experimentei. Alegria nenhuma se compara ao dom de conhecer a Cristo e deixar que ele inunde de alegria um coração aflito. Imagino que para alguns esta noite não tenha significado algum; para outros não passa de uma fantasia humana. Uma estória bem criada para fazer dormir inocentes criancinhas. Acho que é por isso que Jesus disse que o Reino de Deus pertence à inocência de uma criança.

Nós os adultos já temos o coração muito ferido; desconfiado, amargo e marcado pelas mentiras que a vida nos conta. Mas é preciso ser como uma criança: confiante, sem medos e sem preconceitos para acreditar em uma estória tão feliz. Nosso coração adulto tende a desconfiar das alegrias e da bondade humana. O coração de uma criança, ao contrário, só acredita na bondade, no amor e na confiança no próximo. Portanto, este é o meu convite para todos neste natal: Recebamos esta velha “estória da carochinha” do natal com a alegria e fé de uma criança. Lembram de quando crianças era tão fácil para nós acreditar em Papai Noel? Exatamente. Voltem a esse tempo quando seus corações ainda eram abertos à esperança. Não desistam de esperar. Aqueles que esperam em Deus têm suas forças renovadas. Que neste natal, cada um de nós tenhamos o coração como o de uma criança para receber o nascimento de Cristo, todos os dias em nossos corações. Crer no nascimento de Jesus é acreditar de novo no amor. É acreditar no amor ao outro. Crer no nascimento de Jesus é acreditar na força da humanidade. Feliz natal a todos!

domingo, 16 de dezembro de 2007

Tende piedade de nós.

É preciso algo além de disciplina interior para evitar reclamar da vida. Não gosto das pessoas que só sabem reclamar da sua sina, de amores perdidos, de sorte mal amada. Gosto de preferir uma coisa meio: “se você crer em Deus, erga as mãos para o céu numa prece, agradeça ao Senhor, você tem o amor que merece”. Mas nem sempre consigo ser tão traiçoeiro comigo mesmo. Por vezes, me pego correndo atrás de mim mesmo; perseguindo-me além da conta. Chego a correr mais rápido que eu, uma luta injusta saber meus defeitos e fraquezas. Talvez fosse melhor me deixar alcançar; colocar-me a conversar comigo mesmo e deixar que eu ouça as vozes que me querem dizer segredos e ilusões. “Senhorinha levada batendo palminha, fugindo assustada do bicho papão...”. É a parte de mim que precisa reclamar e dizer o quanto odeia as obrigações de felicidade. Uma voz bem minha e que me arranca amargura das brechas do coração--daqueles lugares que não cicatrizam bem. É de lá que brotam flores murchas que não se pode dar a ninguém. Mesmo assim, se oferece as flores. Pétalas caídas de uma imensidão tão triste... Tão poética... Tão cálida. De tão frágil,tudo ao redor parecer ser tão pesado, tão denso e escuro. Tudo sem graça. Minha parte de pétalas não quer saber do ridículo, ou das regras que ensinam a ser menos ridículo. Ás vezes ela chora prenha, outras áridas e inférteis. Ouço gritos roucos que me dizem verdades objetivas: duras e ásperas. Minhas reclamações não alcançam ninguém. Aliás, quase nada em mim alcança alguém. Porque para alcançar é preciso saber dizer em palavras vulgares, no entanto, o mais importante não pode e nem deve ser dito senão pela poesia de palavras costuradas. As palavras secas dos que dizem não sofrer, não servem para nada. A não ser para ferir corações já por demais feridos. É...Os humanos não têm pena de si mesmo. É preciso também muita coisa para não se ter pena de si próprio, quando ninguém mais sente piedade de você.
Piedade meu Deus. Tende piedade de nós....

"...os seres..., ávidos de gozar a vida, sentem frequentemente a nostalgia de coisas infinitamente delicadas: frieza virginal, misteriosa atração do inacessível...Não sei como definir tais coisas. Aparentemente, são muito materiais e muito sanguíneos, até um pouco grosseiros, e niguém suspeita dos devaneios romanescos e sentimentais a que se entregam, porque esses homens bulhentos e robustos têm uma alma cheia de pudor. débeis virgens pálidas não escondem mais pudicamente o que se passa nas suas almas. Compreendes ....Que estes íntimos sentimentos, impossibilitados de se exprimir na linguagem vulgar, façam artista o homem que os tem?É incapaz de dizer o que sonha; nós é que temos de crer na vida misteriosa que dentro dele se agita e que, de tempos em tempos, produz , á luz do dia, uma flor de muito delicado aroma..."
Niels Lynne ( J. Peter Jacobsen)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Socorro




Foi no ano de 2002 que minha vida deu uma verdadeira reviravolta. Tudo mudou. Abandonei o curso de Direito no 7º semestre; literalmente fugi da UFMA e fui estudar psicologia no Ceuma. Quando me perguntam se sempre quis ser psicólogo, minha resposta é rápida: sim, sempre. Ainda hoje guardo com carinho o primeiro livro de psicologia que ganhei de presente, da minha querida amiga Érica Bandeira. Ela me deu um livro de psicanálise em 1997, no ano em que escolhi fazer o vestibular para Direito. Trilhas confusas que até hoje não entendi me levaram ao curso de Direito, mas a paixão e curiosidade pela vida me levariam por caminhos que desembocaram, inevitavelmente, no meu encontro com a Psicanálise.

Mudar do Direito para a Psicologia não foi só uma mudança de graduação, mas foi a abertuda de janelas em minha vida que poucos compreendem. No entanto, graças a Deus, sempre encontramos um ou outro que consegue ver o que ninguém jamais ousou ver. E assim foi comigo. Neste mesmo ano conheci uma das pessoas mais queridas e importantes para minha vida: minha querida Socorro. Ela sabe muito bem; muitos antes de eu ver a revolução que ocorria em minha vida, ela viu; gostou do que viu e me recebeu.

Assim, durante dois anos que passei no CEUMA, o apartamento de Socorro tornou-se um lugar de refúgio; não só para mim, mas para ela mesma. Sei que parece paradoxal, mas é como disse Caio Fernando de Abreu: “... num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Durante dois anos inteiros Socorro foi minha confidente, amiga e , porque não, uma grande mulher na minha vida. Nunca fomos namorados, nem amantes ( como muitas almas desertas gostam de crer). Fomos e somos muito mais do que isso. Socorro e eu somos algo que,nem mesmo nós ainda compreendemos.

Ambos nos conhecemos num momento crucial da vida: um recomeço. Um recomeço para mim em todos os sentidos; e para ela, um recomeço todo especial: depois de muitos anos ela decidiu voltar para a graduação e enfrentar todos os medos e preconceitos que alguém, no momento de vida em que está sofre porque deseja mais. Eu e Socorro desejamos muito mais do que a vida estava nos oferecemos. Ela me ofereceu a mão amiga, e eu lhe dei meu coração. Em pouco tempo estávamos unidos por um desejo de ser e poder mais.

Depois de cinco anos, recebo a notícia emocionante: Socorro agora é psicóloga. Não sei descrever a emoção que sinto. Para mim, ainda falta um ano inteiro para que eu alcance essa graça. Meu desejo me levou por um caminho que nos separou fisicamente, mas nunca na alma. Imagino que hoje todos os choros contidos, choros chorados e choros acolhidos naquele apartamento nostálgico no qual vivemos por dois anos, agora valem a pena. Acompanhei de perto a trajetória de uma mulher corajosa, persistente e , acima de tudo, uma das mentes mais brilhantes que conheço. Com ela aprendi sobre o amor; sobre a vida; aprendi a paciência. Aprendi a ouvir mais do que falar; aprendi que na vida, não podemos ter tudo. Aprendi o que significa realmente se doar ao outro. Com Socorro aprendi que eu podia e tinha o direito de recomeçar minha vida.

No dia de hoje sinto como se sua formatura fosse a minha. Sim! Porque de alma grudada com a dela reconheço que também me formei. Claro que ainda não me formei psicólogo, mas me formei junto com Socorro aquilo que hoje sou.

Minha querida amiga, receba meus mais sinceros votos de felicidade e sorte. A caminhada que você trilhou mal começou. Obrigado por me apresentar à vida. Obrigado por me fazer ver que é possível recomeçar. Obrigado por me apresentar à Psicanálise ( você é meu Fliess) , serei sempre grato. Obrigado, acima de tudo, por abrir as portas da sua casa para mim. Agora é hora de continuar o seu recomeço. Você sabe o quanto acredito em você, ás vezes mais do que acredito em mim mesmo. Você sempre foi uma excelente psicóloga—pelo menos o foi para mim. Sua carreira como analista será brilhante, disso eu não tenho dúvida. Para ser um bom analista basta uma coisa: ter uma alma que reconhece a outra alma. Isso você tem de sobra. Seja muito feliz. Nossa caminhada não termina. O que aconteceu conosco foi exatamente o que Cristo quis dizer quando disse: “eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”.
Parabéns querida amiga.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Dias como esse

Tem dias que ficamos completamente sedentos; de uma sede inexplicável, seca e muito, muito torta. Algo dentro de nós aponta para lugares que nunca estivemos; todos eles muito nostálgicos que nos remetem a um tempo quando parecia que “ nunca sentiríamos fome outra vez”. É o que eu chamaria do sentimento Scarlett O´Hara. É quando fazemos promessas impossíveis e das quais não nos lembramos no dia seguinte. É exatamente nestes dias que estamos mais suscetíveis a paixões relâmpago; carinhos maltrapilhos e orgias do Desejo. É claro que as orgias do Desejo não se restringem ao sexo, mas justamente aos seus derivados: os excessos, os vícios—-as paixões que só servem, momentaneamente, para aplacar a saudade da gente mesmo .
Acho que encontrei as palavras. É saudade da gente mesmo.Em dias como hoje, várias lembranças surgem: um parente querido que se foi, e que você nem se dava conta que sentia falta dele; uma música que trás de volta bons momentos do passado; um choro que foi chorado com tudo que tínhamos e que deu a impressão que nunca mais choraríamos novamente. É um choro repleto. Talvez seja essa a questão—faz muito tempo eu não choro um choro pleno. Daqueles que deixam a alma mais limpa. As orgias do Desejo não resistem a um choro nostálgico... Daqueles que nos trazem de volta ao centro de nós mesmos. Aquele lugar onde sabemos exatamente o que precisamos e jamais nos submetemos a nada menos satisfatório. É o lugar onde as orgias do Desejo não nos alcançam, porque já sabemos do que sentimos falta.
Sentimos falta de um cheiro familiar; de um abraço despretensioso. De alguém que nos acolhe com satisfação. Sentimos falta de um lugar seguro onde não se precisa fingir o tempo todo que não temos necessidades que só um outro pode suprir. Sim, estou falando de um lugar onde realmente afirmamos aquilo que nos faz seres humanos: precisamos do afeto que só se encontra no outro.
Em dias como este...Sentimos tanta falta do toque e do olhar de um outro que faríamos tudo para tê-lo, e , ao mesmo tempo, sentimos tanto medo de pedirmos e não recebermos nada. E pedir e nada receber é uma das piores coisas do mundo. Talvez seja por isso que Cristo certa vez disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrarei, batei, e abrir-se-vos-á. Porque todo que pede recebe; e o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á. E qual de vós é o homem que, pedindo-lhe pão seu filho, lhe dará ma pedra? E pedindo-lhes peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas”.
Acho que Jesus já sabia em que tipo de sociedade estaríamos vivendo hoje, onde pedir é algo indigno e querer ser amado é demonstração de fraqueza. É por isso que gosto de Jesus: ele nunca tinha medo de que fossemos sempre humanos, mesmo que isso implique fraqueza, ou aparente derrota. Ele, acima de todos, sabia como ser grandioso, parecendo ser tão pequeno.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Pobre sofre

21:33 . Temperatura: 30 graus.

Já faz algum tempo que eu não falo do meu mal-estar de viver em comunidade. Quem sabe depois do relato da minha segunda-feira todos entendam, finalmente, a grande máxima da humanidade: no Brasil, pobre sofre.
Minha saga hoje começou cedinho. Levantei cambaleando da cama como se não tivesse dormido a noite toda. Já acordei cansado. Tomei um banho frio e comecei a me preparar para ir até a UNIFOR só para atender um paciente. Andei até a parada sob um sol escaldante. Agora vejam só: ainda são 8 :00 da manhã, e aqui na tal da terra do sol, já temos calor e luminosidade suficiente pra dar câncer de pele em um zulu. Pronto. Peguei meu famigerado Cidade 2000/Papicu e fiz minha primeira visita ao fétido Terminal do Papicu. Bem, o terminal é um epicentro de calor no meio do cu ( explico- o Papicu, bairro onde moro, é dividido entre o papi e cu: o papi é a parte melhor, o Cu, a parte mais periférica), povoado de ambulantes e pessoas, quase todas, desclassificadas. Esperar um por favor ou um mero obrigado aqui no Ceará já é coisa rara, imaginem dentro deste anti-sala do inferno. Mas é assim que começo meu dia, quase todo santo dia.
Bem, como se não bastante toda essa saga para chegar até a UNIFOR, quando adentro os portais do SPA ( serviço de psicologia aplicada) descubro que meu paciente não veio porque uma das super-hiper competentes secretárias da recepção cancelaram a consulta. Motivo? Um outro estagiário, também chamado Rafael , estava doente e pediu que todos os seus pacientes fossem cancelados. Agora, os erros aqui são muitos. Primeiro que a louca da secretária não se deu ao trabalho de checar de qual Rafael se tratava, colocando em cheque o tratamento do meu paciente. Depois que o outro estagiário sonhaaaaa que ele tem secretária. Não podemos pedir que as secretárias cancelem nossos compromissos dessa forma. Mas ele sonha que já é um psicólogo famoso. Assim é que dois incompetentes tornaram meu dia mais infernal.
Saindo da UNIFOR, lá vou eu para o Iguatemi tentar comprar um chip da OI. Sim, vou mudar meu número. A OI está com uma promoção bem legal. Mas isso é periférico. O importante é dizer que agora, às 10:30 da manhã o sol já me causa queimaduras superficiais na pele ( perdi meu filtro solar). Já no Iguatemi tento comprar o tal do chip. Primeiro problema: “ senhor, pré-pago só com dinheiro”. Já fico puto porque queria pagar com cartão de crédito. Tento com o débito automático ( que é pagamento à vista). A idiota vira pra mim e diz “ – Não senhor. É só com dinheiro mesmo”. Meu deus! Em que planeta eu estou? Eu ás vezes me pergunto minha gente! Aí , com toda placidez que é me é peculiar, vou até o caixa do Banco do Brasil. Aqui começa realmente a parte difícil.
Primeiro vamos combinar uma coisa: se os velhos têm mais direitos do que nós jovens, então que façam um caixa exclusivo para velhos, grávidas e outras minorias. Simplesmente eu passei mais de 40 minutos na fila porque não parava de chegar velho. Minha gente, um horror. Acreditem, eu respeito a velharia, mas tudo tem limites. Eu também sou cliente do banco, e como vocês podem ver, sou quase deficiente mental. Eu não suporto ficar muito tempo na fila observando seres energúmenos ( agora já não me refiro aos velhinhos, mas a todos que tentam usar as máquinas), que não sabem mexer com máquinas simplórias como um caixa eletrônico. Gente, uma anta lá, uma mulher mal vestida, passou tanto tempo digitando a senha errada que o cartão foi bloqueado. Enquanto isso, eu, pacientemente, vejo passar todos os caquéticos na minha frente. E eu, morto de dor nas pernas, suando em bicas (o ar-condicionado da agência é inútil), espero pela minha sagrada hora de sacar míseros 20 reais para o chip.
Finalmente chego ao caixa e o que acontece? Nenhuma caixa naquela agência leu meu cartão. Então, 40 minutos de tortura só serviram para fazer de mim um mestre da paciência. O que eu podia fazer a não ser andar até a outra extremidade do Xoping ( sim, é assim que o Aurélio escreve Shopping, chocante não?) e tentar sacar em outro caixa. Chegando lá o que eu encontro? Mais velhos. Realmente o Brasil deve estar melhorando. Antigamente não se via tantos velhos. Acontece que os velhos europeus são mais ativos e, portanto, não atrapalham a vida alheia como aqui. Nesta altura do meu post já sei de vários leitores meus que estão ávidos por me apedrejar. Eu não recomendo. Mas sim. Continuemos.
Lá estou eu com minha nota de 20 reais na mão; corro desesperado para comprar meu chip. O tempo passa e já estou faminto. No meio do caminho, como de costume, uma estúpida, gorda e , novamente, mal vestida, esbarra em mim. O que acontece? Ela consegue me dá um soco no saco! Genteeeeeeeeeeeeeeeeeee, a louca me deu um murro nos ovos! Eu quase morro. Agora, imagem vocês... Ela pediu desculpas? ÒBVIO que não. Aqui ninguém pede desculpas ou diz obrigado. São palavras proibidas em Fortaleza, por motivos que eu jamais descobrirei. Acho que remonta à seca..não sei.
Finalmente consegui comprar a merda do chip. Pronto. De volta à UNIFOR, isso já às 16:00, sol a pino, minha pele nórdica se derretendo procurei minha orientadora de estágio. Nada. Sumida. Mas descobri que tirei mais um 10. pá!
Da UNIFOR fui pra minha rotineira análise. Meu analista , como sempre, me deixou maluco. Na volta , de novo terminal do PapiCU. Às 20:00 um calor de 30 graus. Suor, gente feia, mais suor; esperando meu querido Papicu/ Praia do futuro. Lotado. Uma coisa gozada acontece aqui: as pessoas se aglomeram bem na porta do ônibus. Eu tive que me espremer até a saída e ainda desci na parada errada.
Chegando aos finalmentes....cheguei em casa quase às 21:00, torrado de calor, vermelho, pele queimada—já posso vislumbrar os câncer ou as lesões de pele que quem mora numa terra de sol 365 dias no ano.
A única coisa que restou a fazer foi preparar um escalda pé, passar litros de hidrantes no rosto e cuidar da minha cabeça, porque sabe como é: pobre sofre!!!

Feliz Navidad!

Mal o natal se aproxima já começo a ouvir as velhas ladainhas de sempre—pessoas que dizem não gostar do natal por motivos diversos: “ como posso comemorar com tantas pessoas passando fome? Por que vou ser conivente com uma festa que não passa de uma fétida ode ao consumo?” . Blá, blá, blá. Todo ano é a mesma coisa. E todo ano eu manifesto o quanto gosto do Natal, ou como gostam de chamar os gringos “ The Holidays”. O Holiday envolve não só o natal, mas as festas de ano novo também. Bem, eu raramente acredito nessas desculpas que alguns amigos me dão do por que detestam tanto o natal. Até porque estes mesmo “filantropos natalinos” se esbaldam ou se esbaldariam no Reveillon se pudessem--muita cerveja e festa pela chegada de um ano novo. Algo que acho interessante é que o natal estimula um consumismo ao contrário. Vou explicar. O consumismo ao contrário é esta consciência-social-natalina, que só se manifesta nesta época do ano como uma espécie do retorno do recalcado social.

Normalmente algumas pessoas passam o ano todo com a sua consciência crítica um pouco pacificada, mas quando chega o natal cada um faz o que pode: sopão, doação de brinquedos, Natal sem fome, Natal feliz, etc e etc. Fora outras tantas intervenções sociais natalinas.
Entendam bem, não estou recriminando. Eu mesmo sou engajado em uma campanha de cestas básicas para o natal, no entanto, não o faço por culpa ou pela dita consciência crítica. Participo destas campanhas pelo mesmo motivo que não deixo de festejar o natal: aproveito a oportunidade para fazer laço. O natal não deixa de ser uma época do ano com um forte apelo simbólico, principalmente para o mundo ocidental-cristão. É a única oportunidade institucionalizada na qual todo o mundo pode parar e pensar um pouco em temas como solidariedade, família e comunhão com o próximo e com Deus ( para quem acredita, para os que não acreditam não é só o natal que não faz sentido, a vida toda fica um saco). Ainda que a sociedade do consumo tenha pervertido as festas e rituais de nossa sociedade, é preciso oferecer resistência.

Os rituais sempre foram algo importante para manter a civilização humana no que diz respeito aos laços sociais que a sustenta. É por causa disso que ainda me alegro quando chega o natal. A melancolia natalina, aquela tristezazinha que sentimos, para mim, é um leve bocejo de nossa alma que gostaria que os laços fossem mais estreitos; que as pessoas fossem mais tolerantes, que houvesse paz no mundo e oportunidades iguais para todos; e principalmente que os pais se voltassem para os filhos e os filhos para os pais. Então, por que calar esta data que nos faz bocejar? Não estou de acordo, ainda que respeite profundamente aqueles que acham o bocejo tão doloroso – cada um tem sua própria estória natalina--, mas para mim, o natal ainda é uma data especial. É no natal que revejo algumas pessoas que passo o ano todo distante; exatamente porque estou tão inserido num sistema que distancia as pessoas, mas que, como que por um efeito de tiro pela culatra, este mesmo sistema acaba nos reunindo, pelo menos uma vez no ano. Sei que para alguns, pareço soar reacionário, mas esta não é a idéia. Pelo contrário, estou falando de resistência. Os festejos de fim de ano não são uma invenção recente. A celebração das festas de fim de ano antecede o Cristianismo em cerca de 2000 anos. Tudo começou com um antigo festival mesopotânico que simbolizava a passagem de um ano para outro, o Zagmuk.
Para os mesopotânios, o Ano Novo representava uma grande crise. Devido à chegada do inverno, eles acreditavam que os monstros do caos enfureciam-se e Marduk, o seu principal deus precisava derrotá-los para a continuidade da vida na Terra. O festival de Ano Novo, que durava 12 dias, era realizado para ajudar Marduk em sua batalha. A tradição dizia que o rei devia morrer no fim do ano para, ao lado de Marduk, ajudá-lo em sua luta. Para poupar o rei, um criminoso era vestido com as suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto levava todos os pecados do povo consigo. Assim, a ordem era restabelecida. Um ritual semelhante era realizado pelos persas e babilônios. Chamado de Sacae, a versão também contava com escravos que tomavam o lugar dos seus mestres. A Mesopotâmia, conhecida como mãe da civilização, inspirou a cultura de muitos povos, como os gregos, que englobaram as raízes do festival, celebrando a luta de Zeus contra o titã Cronos.
Assim, repito cada cultura possui seus rituais que lhe dão certa estrutura de sustentação dos laços sociais que nos unem. Acabar com os poucos rituais que ainda existem em nossa civilização seria como minar aquilo que oferece, mesmo que de forma capenga, uma oportunidade de revitalizarmos a comunhão que faz de nós seres humanos.
Um feliz natal a todos!
Rafael Pinheiro.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Amar se aprende amando

Já era tempo de voltar a escrever. Ontem li uma reportagem sobre Clarice. É o lançamento de mais uma coletânea de cartas, desta vez, cartas que ela escrevia para suas irmãs- “Minhas queridas—é o nome do novo lançamento. Num dos trechos ela diz que necessita escrever; precisa escrever mais do que precisa amar. Gozado não? Parei por um tempo para pensar se isso ocorre comigo. Prefiro escrever a amar? Não sei ainda responder. Ainda acho que prefiro amar. Se escrever for um substituto para o amor, prefiro amar. Mas não acho que Clarice disse isso. Prefiro pensar que ela só escrevia porque muito amava. As cartas que escrevia para seus amigos quando morava fora do país, eram carregadas de amor, saudade, nostalgia. Ela escrevia porque a necessidade de amar era tamanha que, mesmo à distância ela encontrava uma forma de amar e estar em contato- as cartas. Conta a reportagem que um dia Clarice chegou ao ponto de ir ao cinema carregando uma das cartas que recebera de de suas irmãs no sutiã. Junto ao peito ela achou que teria sua irmã mais perto de si.
Penso que Clarice cometeu um pequeno equívoco ao dizer que escrever é melhor que amar. Na verdade, escrever é simplesmente mais uma forma de amar. Talvez seja por isso que minha inspiração tenha desaparecido por algum tempo- porque havia dado férias ao meu coração. Estão lembrados? Pois bem, achei que já era tempo de tirar o coração da gaveta, afinal de contas, a única coisa que amadurece nas gavetas é maracujá; e não existe a expressão “ coração de gaveta”. Para amadurecer, o coração precisa estar sempre fora- para fora- em direção a algo ou alguém. É preciso aprender a amar. Drummond tem um poema que se chama “ Amar se aprende amando”. Selecionei um poema que talvez seja emblemático deste novo momento.

Consolo na Praia

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

De "Amar se Aprende Amando"