sábado, 26 de janeiro de 2008

O lobo da estepe

Para as almas elevadas ofereço um trecho do Lobo da Estepe. Quem tem ouvidos ouça...

"Aquelas imagens—eram centenas, com e sem nome—estavam ali de novo, surgiam novas e jovens do poço daquela noite de amor, e tornei a ter consciência do que havia esquecido na miséria , que elas eram o tesouro e dos bens da minha vida e que continuavam existindo inalteráveis, acontecimentos culminantes que poderia esquecer, mas não destruir, mas não destruir, cuja série formava a lenda de minha vida, cujo brilho era o indestrutível valor de minha existência. Minha vida fora penosa, transtornada e infeliz, conduzindo à destruição e ao niilismo, fora amargurada pelo sal de todo destino humano, mas havia sido rica, orgulhosa e senhorial; uma vida soberba até mesmo inteiramente desfigurado, o cerne desta vida fora nobre, tinha feição e estirpe, não girara em torno das moedas, mas torno das estrelas.”

sábado, 19 de janeiro de 2008

Wilde lê Jesus


De tempos em tempos gosto que meus amigos e leitores saibam um pouco acerca da minha posição espiritual diante da vida. Reafirmo que é um posicionamento espiritual porque nunca tive parte com a religião tal qual a conhecemos, mesmo quando eu não passava de um menino conduzido à escola dominical. Desenvolvi muito cedo uma grande paixão pelo mundo espiritual e pelo exemplo de Cristo. Com o tempo, meu amor só aumentou e aumenta a cada dia das formas mais inusitadas possíveis. Nestes últimos dias a leitura de Oscar Wilde foi o que mais me inspirou a seguir a Cristo e sua vida. O melhor de tudo isto, e acho que este paradoxo deixa Jesus mais que satisfeito –sua vida foi cheia de paradoxos—é que Wilde foi mantido preso por dois anos sob acusação de pederastia. "De Profundis" é uma verdadeira epistola que ele escreve no cárcere para o seu amante, Sir Alfred Douglas. Recomendo fortemente a leitura. Sei que ela há de inspirar fé, amor e esperança nos corações mais endurecidos. Para deixá-los com vontade de ler transcrevo alguns trechos que me tocaram profundamente.

“ Vejo uma conexão bem mais íntima e imediata entre a verdadeira vida de Cristo e a verdadeira vida do artista...E não é apenas porque podemos perceber em Cristo aquela união da personalidade com a perfeição, que constitui a verdadeira diferença entre os movimentos clássicos e românticos na vida, mas a própria base da sua natureza era igual à natureza do artista—uma imaginação intensa, semelhante a uma chama. Ele percebeu, em todos os níveis das relações humanas, aquela afinidade imaginável que , ao nível da arte, é o único segredo da criação. Era capaz de entender a lepra do leproso, a escuridão do cego, a angústia dos que vivem apenas para o prazer, a estranha pobreza dos ricos....
...e não há dúvida de que , se o seu lugar está entre os poetas, ele é o maior dos amantes. Ele percebeu que o amor era o primeiro segredo do mundo, o segredo que os homens sábios procuravam e que só através do amor era possível chegar ao coração dos leprosos ou aos pés de Deus. E, acima de tudo, Cristo é o supremo individualista. A humildade como a aceitação artística de todas as formas de experiência é apenas um tipo de manifestação. O que Cristo procura sempre é a alma do homem. Ele a chama de o “Reino de Deus” e a encontra em todos nós. Ele a compara à pequenas coisas, a uma sementinha, um punhado de levedo, uma pérola. Isto porque só podemos perceber nossa alma se nos libertarmos de todas as paixões estranhas, toda a cultura adquirida, todas as possessões externas, quer sejam elas boas ou más....quando conhecemos nossa alma tornamo-nos simples como crianças, tal qual Cristo ensinou que deveríamos ser...para Ele não havia regras, mas apenas exceções...”

Como Cristo adorava dizer , e ainda diz: “ quem tem ouvidos para ouvir ouça...”

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Wilde e o ano da intolerância.


Quem já leu meu post de ano novo " Feliz alma nova" sabe muito que estou vivendo o ano da intolerância. Neste mesmo espírito, minha querida amiga Sandra Helena emprestou-me uma obra prima que não podia ter chegado em hora mais oportuna para selar a nova era: De Profundis, de Oscar Wilde. Quero deixar tão somente um trecho que explica, muito melhor do que eu , o que é o ano da intolerância:

" as pessoas costumavam dizer que eu era demasiado individualista--e devo sê-lo agora mais do que jamais fui.É preciso que eu exija de mim muito mais do que exijia antes e espere do mundo bem menos do que jamais esperei. Na verdade, a minha ruína não foi provocada por eu ter sido demasiado individualista mas por sê-lo demasiado pouco. A única ação vergonhosa, imperdoável e desprezível que cometi em toda a minha vida foi permitir a mim mesmo apelar à sociedade em busca de ajuda e proteção. Invocar tal ajuda já teria sido erro suficiênte, se considerado sob o ponto de vista do individualismo, mas que desculpa poderei ofercer por ter chegado a fazê-lo?"
( De Profundis, Wilde)

Sem comentários prossigo no meu ócio reparador da solidão .....

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Blá

Bom soir tout ! neste domingo fui ao Show da Elza Soares aqui em Fortaleza. Banda: nota 10; Elza: nota 8. Apesar dos aplausos frouxos do público cearense, não acho que a mulher com a lata d´água na cabeça mereceu tanto. Gosto da música e da voz da Elza, mas não acho digno como ela está envelhecendo, ao famigerado estilo Dercy Gonçalves. Aqueles estilo deselegante de fazer piada com o sexo e com a velhice, achei patético. Quando ela fez o trocadilho com sua doença DivertiCulite eu vi que a mulher perdeu a elegância. Usar a cartada da negra sofrida, pobre e agora velha doente para conseguir aplausos é um jogo baixo que eu acho deprimente. Uma mulher com a voz e o talento da Elza não precisa lançar mão de uma jogatina pérfida como essa. Fiquei enojado de ver uma senhora nos seus setenta anos tentando se vestir como uma moça de 20 anos, no seu tubinho justo e pelancas à mostra—simplesmente degradante. Nada como Piaf que simplesmente deixa tudo em sua mais santa dignidade; nada mais elegante que dizer:

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien,
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.

Muito diferente do discurso amedrontado de uma negra sofrida, exilada, que sofreu discriminação, foi rejeitada, saiu com a lata d´água na cabeça rumo à carreira de cantora... Acho tudo isso muito decrépito e não afirma seu talento. O show em si tem momentos cafonas; como quando ela improvisa jazzisticamente a nona sinfonia, fica meio lugar comum fazer isso; sem falar quando ela fala do seu encontro com grandes nomes do Jazz americano, completamente desnecessário. Seria muito mais digno e sensato cantar sua música, dançar e rebolar, como ela fez o show todo, e deixar todo mundo perceber que ela está saudável, livre, bela e famosa: é mais afirmativo e, sendo repetitivo, DIGNO.
Contudo, achei o show bom pra um divertimento light de fim de tarde de domingo...Mesmo assim, nada fantástico nem digno de que eu me coloque de pé com efusivos aplausos, isso só uma Bethânia, Madona ou Jorge Drexler me arranca.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Das pequenas alegrias


GABO tem me trazido as maiores alegrias. Uma vez Diogo ( recomendo seu blog- O Peregrino, está em meus links) me disse que quem tem um livro nunca está só. Essa lição eu e ele sempre soubemos; desde os dias insólitos na biblioteca do Colégio Batista quando nos escondíamos da barbárie lendo desde Júlio Verne passando por mitologia grega e egípcia. Os livros foram nossos companheiros desde sempre, logo na infância, junto com intermináveis partidas de xadrez—nos preparávamos para o confinamento de um mundo que jamais nos compreenderia. A incompreensão já me incomodou muito, hoje em dia ela me deixa perplexo que haja tantas pessoas burras no mundo: de certo sempre fomos incompreendidos devido à burrice alheia.

Os livros são maravilhosos porque oferecem um mundo com o qual podemos dialogar sem escrúpulos ( é claro que quando me refiro a livros não coloco nesta categoria artigos de lixo como Paulo Coelho ou O Segredo); meus livros são um mundo à parte onde estou sempre em boa companhia. De forma alguma é uma companhia impessoal, porque alguém o escreveu e, meu companheiro no momento, Gabo, é a companhia perfeita. “ O amor nos tempos do cólera” é puro gozo. As frases que ele lança do nada, inesperadamente me fazem parar por horas a refletir num só pensamento. Ontem a noite uma delas saltou sobre mim e me envolveu completamente, como se tudo que estou vivendo fizesse mais sentido para o autor do que para mim mesmo. Ele devolve para mim aquilo que ainda não é tão claro . Percepções que ainda são meras especulações entre eu e minha alminha. “ ...o ócio reparador da solidão”. Uma frase tão pequena falou melhor do que três posts que escrevi para tentar tratar do assunto, é a grande diferença entre um grande escritor e um escritor amador como eu. Devo dizer que estar na companhia dele tem sido melhor que uma multidão de mentecaptos; não me julguem por intolerante –apesar de estar no ano da intolerância--,mas observem bem como o mundo e as pessoas está cada dia mais estúpido. Por onde se anda se vê uma ode absurda à mediocridade. Em um mundo onde tudo é massificado a burrice não podia ficar de fora. Os livros acabam se tornando um bom refúgio quando tudo mais ao redor não me apetece muito. Mas, não se enganem, não é melancolia: é simplesmente o ócio reparador da solidão em ação. Mesmo sozinho, no ócio reparador nunca estamos realmente a sós. No momento, tenho Gabo na literatura e Amy Winehouse na música; cada um à sua maneira me oferecem muito mais que companhia: me presenteiam com pequenas alegrias que posso jogar pra cima e brincar quantas vezes eu quiser, além de alimentar a alma dá comida também ao corpo... É que alegria também é comida!!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Anseios da alma- Para Henrique

Da arte de ser fiel a si mesmo.
Pensando em como andei longe de mim mesmo; longe dos meus próprios caminhos, chega a ser ridículo o que se faz por migalhas. Mas chega uma hora que algo surge, inesperadamente, sem aviso ou nota prévia. Este algo simplesmente nos arrasa; rompe com tudo que antes acreditávamos como sendo nossa torre de refúgio.

O tempo chega para todos nós, alguns, é claro, levam mais tempo para entender o óbvio: somente nós mesmos sabemos o que é bom para nossa própria alma. E a alma por sua vez não se alimenta de restos ou migalhas quaisquer. Ela é exigente, não come restos, muito menos o que sobeja de sonhos remodelados e pratos requentados. Não. A alma não come comida de um dia pro outro. Ela gosta de comida fresca, fruto de um árduo trabalho de decantação. Com paciência e perseverança a alma sabe esperar. Ela é capaz de esperar anos e anos até que acordemos do torpor da necessidade e entremos em um outro registro—algo da ordem do mais além do que pensamos que necessitamos, sim, é um anseio. A necessidade pede urgência, mas o anseio pede por sentimentos verdadeiros; não se satisfaz com os pingos de dignidade. Alguém que anseia só descansa depois de sentir que cada sentimento encontrou seu lugar, seguro e fiel.

Alguém que anseia não tolera frivolidades, e como nosso mundo está frívolo...Dependente, apressado, venenoso, malicioso, repentino, assustado, ansioso, pernicioso....Ninguém escuta, ninguém vê....E o principal: quase ninguém tem coragem de amar. Ainda assim, aquele que anseia sabe amar, e acima de tudo, acredita no amor. Que o amor cura todas as feridas. Frivolidade não é amor; vaidade não é amor...Não.
Então, é responsabilidade de todo homem se proteger de um sistema que produz amor fútil e descartável a cada momento. Amar-se a todo preço, dignité a toda prova; sempre firme no propósito de ser fiel a si mesmo, sempre e antes de todo e qualquer amor.