
Sentado sobre sua mesa preferida ele pensava. Nada refletia, nada pedia, nada esperava. Sentia simplesmente uma leve expectativa de acontecimento. Algo que , ao acontecer, causasse uma ruptura tal em sua tão prezada homeostase que lhe fosse impossível voltar atrás. O telefone tinha tocado várias vezes; em todas mandou dizer que dormia. Hoje não-- pensou enfadado—hoje eu não falo com ninguém. Alguem o convidara para tomar um café e colocar os assuntos em dia. Convite ao qual recusou peremptoriamente. Estava farto de pequenas conversas nas quais destilamos amenidades estúpidas com o fim de nos mantermos mais e mais afastados. Chegara, ainda que tardiamente, à conclusão que todos têm suas agendas secretas e que o altruísmo é mais raro do que se imagina. Cada ser humano tem seus próprios propósitos e, assim que outro pobre mortal se coloca em seu caminho, o bicho pega, e pega todas as vezes.
Ficar em casa era sempre a decisão mais sábia; em todo caso podia sempre ler um livro ou comer, comer e comer. Tudo bem que a companhia humana pode ser o que há de mais alegre que se pode conhecer, mas ninguém há de negar que “alegria é mãe de choro”, e que, antes só que mal acompanhado—diz o batido ditado. Companhia em excesso só nos faz esquecer o quanto é bom ter alguém por perto. O excesso do outro sufoca nossa plena liberdade de ser; e ser, em última instância , independe do outro. É fato que o outro nos dá a primeira chance de ser, mas ser com o outro pra sempre é o mesmo que nunca ter sido nada.
Depois de tudo isso, olhou para o canto. Lá, apertada contra a parede, havia uma tímida aranha. Era preciso enfrentar seu medo. O pequeno inseto sempre lhe causou os mais terríveis pesadelos. Sonhava que a aranha se entranhava em sua barriga; que lhe picava o cérebro; que comia seu sexo e que lhe revirava de cabeça pra baixo numa teia...Sugava seu sangue. Hoje seria o dia em que ele ia enfrentar esse bicho. Agarrou o jornal para matá-la. Depois de aproximar-se viu que de nada adiantaria matar o inimigo. Melhor era deixá-la viva a lhe assombrar a vida todos os dias; só assim seria provado todo dia pelo medo de um iminente ataque. Enquanto abaixava o jornal, olhou a aranha. Seus milhares de olhos lhe penetravam profundamente. Assombrado, ele retrucou:
-- então você acha impossível ficar só? Não é possível ser feliz sem usar alguma muleta? Olha...Te digo logo uma coisa, e não me lance esse olhar maldito; animalesco e terrível que me penetra desafiando minha solidão. Ficar sozinho é um aprendizado que a vida ensina a poucos. Aos poucos que estão dispostos a ficar sozinhos tempo suficiente até que a companhia de outro ser humano faça tanto sentido que eles entendem que é melhor mantê-lo o mais longe o possível, até que sua companhia se torne completamente preciosa. Qualquer um que não se agüente sozinho está sempre surdo em relação a si mesmo, e surdez quanto a si é também surdez para o próximo.
Então, que ousadia da sua parte afrontar minha solidão! É pretensão sua achar que alguém consegue realmente romper as barricadas de nossa solidão. Isso é coisa dura de roer, o vazio de ser! Cercados de tanta gente cá está ela por trás de tudo; impulsionando tudo e , acima de tudo, sempre pedindo por mais e mais. É a solidão dentro de nós; esse impostor que nos habita com altas pretensões de saciedade. E queremos amigos, e mais amigos; amor e mais amor; mais amor e sempre amor. Depois alegam que os solitários são infeliz porque não têm nada disso. Mal sabem eles que o impostor está sempre à espreita—como você a me olhar, com seus múltiplos olhares, todos eles malditos.
Desistindo da aranha foi para cama. Resoluto, tenso, nada zen. Não meditou. Dormiu teso e duro sobre o colchão king size. Dormiu sozinho na diagonal, usando toda cama para si mesmo. Puxou o lençol que lhe ficou um pouco curto...Dormiu com frio mesmo; sem alento e sem vontade de alento. Dormiu neutro e teimoso, entrando num sono profundo rumo ao mundo dos sonhos onde nunca estamos a sós, mas no qual inventamos tudo sozinhos.
e assim nos sentimos e assim seremos todos nós, com a única diferença que alguns não tem cama king size...
ResponderExcluirEu já comi a aranha!!
ResponderExcluiro peso da palavra, estou me sentindo sufocado com o texto, tuas palavras me retiram o ar, tá forte, denso. O texto consegue impor mal-estar no leitor! adoro
ResponderExcluirJá leu Ensaios sobre o amor e a solidão do Gikovate? É um excelente livro sobre a solidão e os amores. Vale a pena.
ResponderExcluirLembranças!
S.