quinta-feira, 30 de abril de 2009

Esta noite que se foi, estive reunido com um grupo de diletos amigos. Conversamos sobre tudo e, como não podia deixar de ser, fizeram-me a pergunta que não se cala: então, que diferença há entre uma análise e uma psicoterapia?

Este tema é árduo. Mas eu diria que a medicina e a psicoterapia partem de um padrão de saúde dito como normal e se utiliza de uma terapêutica a fim de curar o paciente.

A psicanálise, no entanto, parte de outra postura. Uma psicanálise inclui um posicionamento ativo do analisando em seu processo e, principalmente em seu sofrimento. Uma psicanálise não conduz a um destino pré-estabelecido. Pelo contrário, numa psicanálise, alguém só descobre seu destino no caminho. Um analista no máximo caminha ao lado ou um passo atrás. Uma psicoterapia pretende eliminar um sintoma, uma queixa trazida. Uma análise não possui a eliminação do sintoma como principal meta. A meta de uma análise é, antes de tudo , que alguém se dê conta de sua participação em seus sofrimentos; que alguém se dê conta de sua responsabilidade e , acima de tudo, de seu desejo. O percurso de alguém que faz análise é uma verdadeira “ reinvenção” de sua história de vida. Aquele que faz uma análise é alguém que tem a possibilidade de construir sua própria ética; é alguém que planta sua própria árvore do conhecimento do bem e do mal e dela come, sem culpa. E por comer deste fruto percebe, inexoravelmente, que está nu. Mas, o desamparo produzido por uma experiência analítica não paralisa, antes lança o sujeito no mundo que, se é espinhoso e cheio de abrolhos possibilita também o trabalho e a criatividade.
O vídeo que segue continua no mesmo assunto.

sábado, 25 de abril de 2009

Borges e minha vida.

Borges fica na minha estante de vidro. Sentado a observar meu sono. De vez em quando ele me chama; eu recuso. Sou teimoso; ouço e denego seu chamado em troca da preguiça tão amada. Mas, mal sei eu que Borges me chama porque me ama. Porque sua língua quer passar na minha e me ensinar um sofrimento mais leve; tênue e até doce.
Ontem tomei coragem e resolvi beijá-lo. Passamos horas juntos na cama. Ele me ensinou uma língua que ás vezes esqueço que é minha também; e quando ele escreve ele, sem saber me lê.

Eis um dos poemas para mim ele leu.

DE QUE NADA SE SABE ( Jorges Luís Borges)

A lua ignora que é traquila e clara
E nem ao menos sabe que é lua;
A areia, que é areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
Tão alheias são as peças de marfim
Ao abstrato xadrez como a mão
Que as rege. Talvez o fado humano
De breves sortes e apenas sem fim
Seja instrumento de Outro. Nós o ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não traz defesa.
Vãos também são o temor, a incerteza
E a truncada orãção que iniciamos.
Que arco terá lançado esta seta
Que sou? Que cume pode ser meta?

belo não?

sexta-feira, 24 de abril de 2009

um conto.

Era madrugada. Ele sentado no velho sofá pensava se sua vida seria essa repetição infernal de vícios e derrocadas diárias. Na volta dentro do carro pensava que o sexo não adiantou de nada. Permanecia amortecido, febril; sangue ao chão de sua alma. Sem mistura de líquidos a coisa não rende....Não funciona. Mas nesse mundo de hoje quem há se misturar? Ninguém pode misturar mais nada. É doença...é o pecado que bate à porta. São as vozes que cobram utilidade. “ que fizeste hoje?”. Fiz nada não. Fiquei a ver navios. Fiquei com a língua entre os dentes arfando prazeres escuros. Fui presa de uma mágoa que se transubstancia em carne e sangue. Minha carne trêmula sobre a tábua. E qualquer um pode comer, pode abusar. E não adianta mesmo. São as dores de parideira arreganhada sobre o chão...O neném desce “ gritando, enrolado no cordão. “ corre que esse menino morre se não acudir a mãe logo!”. “ Pega pela perna! Pega pela perna”.
Socorre-me. Afasta de mim este cálice penoso. Esta dádiva maldita de sentir desejo. De viver imprensado num vai-e-vem sem fim; com palavras cortadas ao meio, falando peças para me abraçar. Fico parado sem dar sentido a meu texto, deixando passar pelos meus dedos toda volúpia que não posso controlar nos meus órgãos. Este texto só serve para os iniciados. Para aqueles que foram marcados por essa morte que não tem medo de nada. Não tem medo de , na calada da noite, buscar o romance funesto; a mão desconhecida, o hálito não tratado. Tudo ao mesmo tempo...No meio da madrugada se escuta os chamados mais tentadores. Da boca seca sai os gritos mais roucos...As precisões mais protuberantes que nos tomam pelo vento e nos fazem beijaos solitários...Bocas sujas e improváveis.
Atiro minhas preces ao alto sem esperança de socorro. Sou tomados pelas chamas mais perversas do profundo abismo. O mais profundo medo toma conta de mim agora, como se a única chance fosse me dada. Diga não o quanto antes. Ainda é tempo. Mas tempo pra quê? Permaneço no abandono. Alma sem dono, cão sem dono. Língua furada e amparada por mãos nada hábeis.
Fujo para fora de mim.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

e por quem sonhamos?



Parece que o post sobre sonhos causou. Algo nos causa quando encontra em nós ressonância suficiente para ecoar. Freud escreveu um texto chamado “ O Estranho” no qual ela aborda exatamente a questão de que há sempre uma parte de nosso “ ser” que nos é constantemente estranha; parte esta não visitada pela palavra, pela linguagem.

Dito de outra forma, o estranho em nós, é sempre aquela parte da natureza humana que escapa ao poder do sentido, da fala e da linguagem. É aquilo que nos deixa siderados; desnorteados, estupefatos. E justamente por nos deixar “ sem palavras”, assombrados, é que ela nos causa. “ O estranho” nos causa. Nos põe para frente. Para a Psicanálise, então, nossos sonhos e desejos de superação nada mais são do que nossa tentativa de fazer um tapume para este “ Estranho no ninho”. Assim, nossos sonhos e desejos nos estruturam; nos dão chão, digamos assim. A questão é que aquilo que nos estrutura também nos aliena de nosso verdadeiro Desejo. É por isso que nossos sonhos e fantasias, às quais nos agarramos com tudo que temos, muitas vezes, nos distanciam cada vez mais de nosso Desejo mais essencial; nos afastam daquilo que nos daria uma verdadeira satisfação e sentido de vida. Abandonar os sonhos seria então, um processo doloroso de des- alienação.

Coloco uma questão a lhes causar, mais ainda:
Os sonhos que temos, de quem são realmente? Até que ponto nossos sonhos são nossos ou são projeções obscurecidas da turba falante que nos precede? Nossos pais, família e imperativos culturais?
De quem são os sonhos que sonhamos?

sábado, 18 de abril de 2009

I dreamed a dream




Um luto para nossos sonhos. Um sonho é sempre um ilusão que, mais cedo ou mais tarde, será destruido pela realidade dura da vida. Diz a música que sonhar não custa nada, não se paga pra sonhar. è uma grande mentira. sonhar custa muito e o preço é altíssimo.

domingo, 12 de abril de 2009

Do medo.

Há um medo o qual ainda não sei e ainda não posso nomear.
Mas,sei que envolve o amor: uma resposta definitiva para toda uma história que só faz sentido no fim, e com muito amor.
e quando se tem medo de amar aí o caldo entorna.
Permaneço no inefável mistério da óstia-- onde digo tudo sem dizer absolutamente nada, e assim fazendo torno-me o impossível.

Desculpem, mas fiquei suspenso em brumas que sempre me assombram. Sempre.
Mas eu ei de insisitir no sentido; no duplo sentido do amor.
que assim seja.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

gravidade.

As segundas-feiras nunca são pacíficas. Há uma luta que permanece velada durante o fim de semana e a procrastinação morre lentamente logo nos primeiros raios de início de semana. Foi assim comigo hoje. Um leve torpor de tarde assumiu as rédeas do meu acordar. De qualquer forma forçou-me a ver aquilo que é sério e necessário. Rilke dizia que devemos nos aferrar ao difícil, porque tudo que é importante é grave e tudo é grave. A gravidade puxa para baixo não é? Para o centro.Então, é bom ser grave e é bom que a vida seja grave.