segunda-feira, 20 de abril de 2009

e por quem sonhamos?



Parece que o post sobre sonhos causou. Algo nos causa quando encontra em nós ressonância suficiente para ecoar. Freud escreveu um texto chamado “ O Estranho” no qual ela aborda exatamente a questão de que há sempre uma parte de nosso “ ser” que nos é constantemente estranha; parte esta não visitada pela palavra, pela linguagem.

Dito de outra forma, o estranho em nós, é sempre aquela parte da natureza humana que escapa ao poder do sentido, da fala e da linguagem. É aquilo que nos deixa siderados; desnorteados, estupefatos. E justamente por nos deixar “ sem palavras”, assombrados, é que ela nos causa. “ O estranho” nos causa. Nos põe para frente. Para a Psicanálise, então, nossos sonhos e desejos de superação nada mais são do que nossa tentativa de fazer um tapume para este “ Estranho no ninho”. Assim, nossos sonhos e desejos nos estruturam; nos dão chão, digamos assim. A questão é que aquilo que nos estrutura também nos aliena de nosso verdadeiro Desejo. É por isso que nossos sonhos e fantasias, às quais nos agarramos com tudo que temos, muitas vezes, nos distanciam cada vez mais de nosso Desejo mais essencial; nos afastam daquilo que nos daria uma verdadeira satisfação e sentido de vida. Abandonar os sonhos seria então, um processo doloroso de des- alienação.

Coloco uma questão a lhes causar, mais ainda:
Os sonhos que temos, de quem são realmente? Até que ponto nossos sonhos são nossos ou são projeções obscurecidas da turba falante que nos precede? Nossos pais, família e imperativos culturais?
De quem são os sonhos que sonhamos?

9 comentários:

  1. Preciso de um tempo...

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  2. A minha visão sobre o sonho é bem diferente da que vocês têm. O meu 'sonho' não é caro nem dolorido. Sonhamos diferente e isso de certa forma me instiga e me atrai.Gosto da discursão, de debater sobre pontos de vistas variados. De fazer conceitos e desfazê-lo no instante seguinte.Precisei de um tempo porque quando li o texto me veio a mente uma enxurrada de coisas que não conseguia verbalizar. Não tenho o dom da palavra, confesso. Sou de uma área tecnica.Na minha formação muitos cálculos, números e equações difenciais. Então perdoem-me se escrever aqui alguma asneira. Então vamos 'causar'?
    Não podemos desconsiderar que vivemos dentro de um contexto e sofremos influencia deste. Somos nada mais do que o fruto da aldeia que pertecemos. E lógico, os sonhos que temos é invariavelmente frurto de um coletivo e dos valores que o rege. E o que falar de um ermitão? A mesma coisa. Só que neste o sonho se adequa a relidade dele. Concordo, então, que nossos sonhos são projeções do meio que pertecemos, sendo nós parte deste meio. Não se pode simplesmente separar desejo (sonhos) dos valores que nos cercam. Impossível ter um homem 'des-alienado' a meu ver.

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  3. Olá Rafael! Pelo site do André Feitosa cheguei ao seu site e tive vontade de postar algo aqui. Ok. Pessoalmente, os sonhos estão para mim em uma outra via de possibilidade que aquela estabelecida por Freud. Na verdade, enquanto texto, eles podem sempre apontar algo mais do que a modernidade reconheceu como campo simbólico do desejo. O que falo não é de verdades mais próximas ou mais distantes da realidade onírica. O que falo é de que essa própria noção de realidade onírica é também uma relação, um invenção, uma via. Numa tribo indígena um sonho poderá ser muito bem inscrito dentro de um ritual profético e não será menos válido ou mais fiel à realidade do que ser interpretado a partir de uma noção desejante. Muitos pontos, e é claro que sempre quando algo da ordem do estranho em nós, material comum a todo ser humano e sempre aberto de definição é causado como laço, virtual então aqui, gera uma polêmica...!!! Obrigado, Helton Thyers

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  4. Obrigado Helton pelo seu comentário.
    Então, para vc, quais as vias de possibilidades de um sonho?
    em uma análise, os sonhos são sempre vias de possibilidade.
    um abraço.
    rafael.

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  5. Obrigado Helton pelo seu comentário.
    Então, para vc, quais as vias de possibilidades de um sonho?
    em uma análise, os sonhos são sempre vias de possibilidade.
    um abraço.
    rafael.

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  6. não sei te dizer de quem, originalmente, são os sonhos que ando sonhando, mas enquanto fizer sentido sonhá-los, os adotarei como sendo meus... não são do meu ventre, mas serão cuidados como se fossem...

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  7. Bom Rafael, eu não saberia definir "a via" porque elas são várias. Mas não acho que os sonhos têm uma relação tão direta com o desejo, eles podem ser de uma outra ordem, mais próxima ao real do que a via simbólica ou imaginária, embora não as exclua. Com certeza, e você me esclareceu melhor, numa análise os sonhos terão uma função bem definida, por mais complexa que seja sua tecitura. Estou mais localizando em mim algo em relação aos sonhos que não encontrei dentro da psicologia. Para mim a possibilidade seria sempre a do fascínio, mas ainda assim eu talvez estivesse dentro de um campo do psicológico, portanto, da causação, do mecanismo, da ordem ou finalidade. A psicanálise dá um estatuto mais literário e poético aos sonhos, psicológico também, mas fico matutando aqui uma relação mais estranha, mais impossível, menos moderna. Não exclusão do desejo, mas algo além de uma causação desejante. Algo mais orgânico e ainda assim perdido entre o instinto e a cultura. Talvez a minha via, sendo mais direto, seja de uma ordem mais espiritual, enfim, talvez um sonho não seja apenas de um, um singular. Complicado porque não sei dar resposta. hehe. Sonhos, sexo, deja vu, dentre outros 'acontecimentos', para mim falam sempre algo mais, dentro de um resto que é mais cósmico, holístico- me faltam as palavras- que defini-lo como Real. Antes de tudo se trata de uma experiência, e não sei se apenas humana. Bom, sei que não respondi, mas concordo que quando transaformado em discurso muito do desejo se diz através dos sonhos, mas algo gira em torno da experiência de sonhar, das imagens e composições, dos sentimentos, que particularmente acredito que estejam aquém dos mecanismos de elaboração onírico postulados por Freud. Resumindo, não sei, mas acho que não se trata só de desejo, elaboração, permutação, troca, esquiva, declaração, inconsciente. Acho que sonhei aqui um pouco, psicanaliticamente falando... Girei, girei e girei e não sai do lugar. Um abraço, Helton

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  8. Agora que reparei o "por quem sonhamos"! Achei maravilha! Lembrei de ter aberto alguma coisa em mim acerca dos sonhos lendo Laurence Bataille, a filha do George Bataille. O livro dela é "O Umbigo do Sonho. Por uma prática da Psicanálise". Não sei se você já o leu , Rafael. Hoje eu não suportaria ler, mas na época do meu lacanês eu me vi fisgado por ela. Dá um Nó e tira Outros. Um abraço, Helton

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  9. E é tão clara assim essa diferença de ordens? Pra mim elas funcionam paralelamente, num mesmo esquema. Então não cabe nem diferenciar os sentidos, eles são de uma só ordem (Möebius):

    http://aline.thechip.net/wp-content/uploads/2008/06/moebp.jpg

    Bom, vamos lá. Meu sonho de Vida: o Amor. A vida que eu sonho: o presente. De quem é meu sonho: ele é de vários!! Se eu desejo, idealizo, tenho vontade, crio esparanças, forjo realidades? Sim, obiviamente eu sonho tb!! hehe

    abração

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