
Hoje um amigo trouxe uma questão à baila para mim:
Rafael você acha que há futuro para a psicologia clínica hoje em dia, já que o sujeito pós-moderno encontra várias outras formas de resolver suas questões e não quer mais procura um psicólogo?
Primeiramente, o sujeito chamado “ pós moderno” nem é tão pós assim. Não estou certo de que os sofrimentos de hoje sejam realmente diferentes de outrora. O homem continua sofrendo das mesmas dores: sofre por amor, sofre por falta de amor, sofre por suas perdas, sofre porque a natureza sempre se impõe, seja por sua força descomunal quando resolve nos aniquilar como um terremoto ou com uma nova pestilência ou pela força dos genes contra a qual não há salvação. O homem sofre porque continua a desejar e o mundo continuamente lhe priva a satisfação completa de seus desejos. É como Freud postulou no Mal-estar na Cultura, sofremos porque somos uma espécie frágil e desamparada em um mundo que nos é hostil. O que mudou então?
Mudou sim as formas que o homem encontrar para aplacar o seu sofrimento. Enquanto o homem moderno ( século XVIII. XIX) era o homem angustiado; o homem das letras, dos estudos, das indagações, aquele que se questionava sobre o sentido da vida e buscava nos idéias humanistas tal solução, o homem pós-moderno não encontra mais em sua cultura ferramentas que lhe coloquem em causa. O que ele encontra são tapumes prontos para lhe fechar as questões: psicotrópicos, muito entretenimento e pouca cultura. Basicamente é isso. Entretenimento é diferente de cultura. A cultura nos põe em causa: um livro, uma peça de teatro, a música, as artes plásticas...Tudo isso nos causa desejo; coloca em questão o que nos falta e produz a boa angustia, como o bom colesterol. Já o entretenimento meramente produz fixidez na promessa de que aquele momento de alegria, de gozo e felicidade pode durar para sempre. São os vídeos games, a internet, os bate papos ( que carregam na virtualidade a promessa e intimidade), o sexo fácil e fugaz ( até porque mesmo o sexo fácil nunca é fácil, já que nos sexo nada é fácil!), a proliferação das religiões ( especialmente evangélicas e exotéricas ) que prometem resolver todos os problemas. Ou seja, o mundo de hoje assumiu para si o slogan da IURD : PARE DE SOFRER!
A pergunta do meu caro colega se traduz para mim da seguinte forma:
Como podemos sustentar ainda o sujeito? Ou melhor: como podemos sustentar aquilo que é humano em nós? Como salvar a humanidade de si mesma?
Se há algum poder nas mãos de um analista ( e pouco há, mas há um pouco e pouco em psicanálise já é muito) é o poder de dizer: não pare de sofrer!,Ainda. Parar de sofrer antes do tempo é o que pode haver de mais sabotador na vida de alguém. O sofrimento tem a função de nos colocar em xeque: ele abala nossas certezas. E um homem é feito de certezas , não é? Nossa identidade é nossa certeza, e é exatamente nossa certeza de que quem nós somos que nos faz sofrer. Estamos certos de quem somos e portanto rígidos frente a vida, e a vida nunca respeita nossas certezas.
Assim, eu acho que a clínica continua viva e operante, contanto que o analista continue a se oferecer como aquele que se coloca na contra-mão do discurso do entretenimento. Aquele que vem até um analista deve perceber que naquele lugar é permitido sofrer, e além disso, que lá seu sofrimento pode tomar uma nova forma; que lá seu sofrimento pode produzir uma novidade: pode produzir um ser humano...em tudo aquilo que essa palavra quer realmente dizer...
Seja na contemporaneidade, no pós modernismo, etc. O ser humano continuará faltante, continuará desejante e nem semre a religião e estes "meios" (sussega leão) darão conta, ou até darã mas por um tempo.
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