domingo, 27 de junho de 2010

Viver no mundo.

Estou sem tempo para escrever, viver tem me ocupado por demais. Além disso tem a copa do mundo que tem despertado em mim mais sentimentos de vida autêntica: aquele tipo de vida pré-reflexiva. Assim, dispensando sonhos transcendentais resolvi, por enquanto talvez, viver no mundo- finquei os pés no chão e vamos ver no que vai dar.

 

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A parábola do homem comum


Resolvi  fazer um pronunciamento sobre a copa. Depois de ouvir várias pessoas esbravejarem sua revolta contra a copa, contra o futebol e, agora, depois de ler o blog do Nazarian acho digno que eu diga algo. Quase tudo que ouvi das pessoas que manifestam um desprezo excêntrico em relação à copa do mundo tinha um tom de rancor e mágoa mal sarados. O texto do Nazariam é absolutamente infantil e representa uma tentativa ressentida de se vingar de velhos fantasmas da infância. Garotos como eu, que foram humilhados no colégio por não se interessarem tanto por futebol ou por falta de talento para os esportes, em tempos de copa, dão vazão ao seu velho ressentimento.  Lembro bem de que ,quando criança, eu gostava sim de esporte; eu tentei vários e nunca fui muito bem sucedido. Talvez por falta de talento natural ou porque de fato as crianças podem ser muito malvadas umas com as outras. 

Analisando mais friamente não era falta de talento natural, pois eu nuca me esforcei muito para aprender a jogar bola ou qualquer outro esporte. A verdade é que o principal componente era o medo e minha baixa auto-estima. O esporte tem uma função importante no processo de socialização na infância e adolescência e ficar fora dele pra uma criança não é sem conseqüências. Eu, por exemplo, compensei com leituras na biblioteca. Passava todo o recreio lendo isolado dos que eu considerava bárbaros. Entretanto, uma grande parte de mim ficava espiando lá de cima da janela os meninos e meninas brincando livremente no pátio da escola. A melhor defesa era me sentir superior, diferente, excêntrico. O nome já diz tudo né? Ex-cêntrico, fora do centro, descentrado.  Passei a adolescência me sentindo superior a esse mundo “ bárbaro” que eu tanto temia. 

O texto do Nazarian está recheado desse ar sombrio de superioridade não confessada e permeado de muito medo. Apesar de ele ser um escritor corajoso, ao fim de seu texto, pode-se sentir nitidamente uma criança amedrontada e magoada que pega a bola dos coleguinhas e não devolve. Ou aquela outra que ganha uma bola de presente, mas não tem talento e pára o jogo com o dizer: “ a bola é minha” !

Que alegria hoje é poder deslizar sobre tudo isso, sem ressentimentos ou mágoas defensivas e poder me entregar completamente ao frenesi de uma copa do mundo. O futebol também nos identifica como brasileiros, como um povo e eu gosto de me sentir parte de tudo isso. Eu quero me sentir parte como sempre quis. Mas no passado eu tinha medo. Hoje não tenho mais nada a temer e os velhos fantasmas jocosos hoje me olham em pânico: sou eu que meto medo neles. O futebol, que no passado era para mim uma afronta, hoje é diversão, empolgação e alegria.  Com isso não estou dizendo que todos são obrigados a gostar de futebol ou dar valor à Copa do mundo. Meu ponto é outro.

 As atitudes ressentidas não podem passar sem serem analisadas; elas revelam nossos fantasmas e desejos nunca satisfeitos.  Que não gostem de futebol, mas que seja tudo sem rancores ou tentativas infantis de se diferenciarem de suas raízes. Hoje não quero mais ser diferente. Eu já sou e sempre fui diferente, e não preciso impor isso... Muito menos preciso desprezar meus compatriotas pela empolgação com a Copa. Desprezar o esporte gratuitamente é demonstrar um completo desconhecimento do processo civilizatório. As turbas ensandecidas somos todos nós, imersos em nossas confusas pulsões; inventando sentidos e abraçando verdades que nos dão uma sensação de amparo.

 O futebol foi uma das grandes saídas do brasileiro, como o samba e a feijoada.  Uma das boas coisas da vida é perder o medo de se perder na multidão. Minha frustração hoje é não estar em um daqueles estádios de futebol me sentindo um com a massa e, ao mesmo tempo, experimentando uma alegria só minha extravasada num possante grito de gol.  Sinto informar: quem não gosta de futebol, samba e feijoada ainda não soube o que é ser brasileiro. Futebol é, como diria Chico Buraque, a “parábola do homem comum”. Faça uma confissão de alcova: quem não gosta de um homem comum?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Utilidade

Preciso me recompor urgentemente. Não tenho escrito nada de útil. Eu sei que o Dito não tem a pretensão de ser útil, mas o trabalho acaba nos elevando sobre nossas circunstâncias. Olhar pra cima e pros lados. Que difícil é viver bem.

domingo, 6 de junho de 2010

Entre amigos.


Já falei aqui sobre as noites de sexta e de como é sempre um impasse: o que fazer? com quem fazer e até que horas fazer? Noitada, namoro, sexo, bebida, estudos....Todo mundo na verdade sente o frisson da obrigação de entreter-se porque o fim de semana é curto. Ontem a noite foi uma dessas sextas da qual não me arrependo. A dama que vocês podem ver na foto acima é Karina, amiga e leitora do Dito. Enquanto os maridos ( ao fundo) jogavam poker, as mulheres e solteiros jogavam conversa fora regados pelo cuidado maravilhoso de nossa hostess impecável. Não éramos hot spots ou jet setters ( é assim Juliana?) mas demos boas risadas.


Da esquerda pra direita : Paty, Karina e Carol. Note bem que que o diálogo foi nossa principal preocupação ontem! Mas é como diz a música popular -- " cada um no seu quadrado". Até agosto preciso de mais momentos como esses. Providencia Karina!

E Já que os maridos estavam entretidos em seu divertido Poker sobrou pra mim o trabalho sujo de abrir todas as garrafas! Para o meu orgulho não passei vergonha, fui um verdadeiro varão!

Quem disse que não convidamos hot spots? Dear Juky com seu inconfundível charme. Always a pleasure.

Mas o importante mesmo é que cada um teve o direito de se expressar!
Legenda: Diogo- Ai gente! No Japão todo mundo fala mais baixo! Carol: Isso, me filme..Pega meu melhor ângulo. Eu-- Ah Patrícia...TMP tá fora de moda!!

Saldo da noite: Vou sentir imensas saudades de vocês todos muito em breve. Beijo a todos e obrigado pela agradável noite.Karina você arrasou.

Enquanto a festa rolava ,Paty, não se contendo, lia o Dito.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Exemplo




Que maravilha não?

Segue um ótimo texto do Santiago Nazarian a respeito da Parada Gay:

A Parada do Orgulho GLBT de São Paulo é o maior evento do gênero no mundo. Estima-se que mais de 3 milhões de pessoas passaram pela última e a tendência é que o número aumente este ano. Mais de 3 milhões de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, incluindo uma parcela significativa de simpatizantes. Um evento que nasceu da busca pela cidadania, respeito e direitos iguais, mas que hoje assemelha-se a um carnaval fora de época, com sexo livre pelas ruas, consumo desenfreado de drogas e bebidas, assaltos e uma programação intensa de festas paralelas nos clubes da cidade.
E daí?
Pesquisas apontam como 10% a parcela de gays entre a população. Infelizmente ainda é esperar muito que 10% da população brasileira (ou paulistana), seja educadinha, politizada, limpinha e com a libido sob controle. Mais do que um retrato de uma classe, a parada é um retrato do povo brasileiro – e é importante que seja assim. É desejável e seria louvável se a parada fosse mais organizada, politizada, limpa e segura – mas não é esse ainda o país em que vivemos. E os gays não vivem num mundo à parte. Mais do que dar um bom exemplo, a parada está aí para dar exemplos. Ser homossexual não é prova de caráter.
Questiona-se por que a parada paulistana se tornou tão grande. Não é fácil entender? São Paulo é das maiores cidades do mundo. O brasileiro é “um povo carnavalesco”. O povo tem poucas opções de cultura e divertimento. Pronto. Já entendemos. A importância da parada hoje se dá principalmente pelo seu volume. E talvez o volume seja mais importante do que o foco . São esses milhões que podem parar a Avenida Paulista e emporcalhar as ruas. Milhões - não é um personagem coadjuvante a cada quatro novelas ou um rapazinho no fundo da classe. É importante que as pessoas vejam. É importante que os vizinhos ouçam. E se os clubes resolvem fazer festas, as empresas resolvem distribuir publicidade, qual é o mal?
Estamos no mês dos namorados. Propagandas com casaizinhos apaixonados rodam a torto na TV. Os gays não estão lá. Os gays não se reconhecem. O homossexual ainda está longe de ter sua representatividade na mídia, nas artes. Entre os artistas, só assumem os que não conseguem disfarçar. Galã não pode se assumir gay porque - diz-se - vai afastar o público feminino (ainda que a dona de casa tenha tanta chance com ele quanto com o falecido Clodovil). O adolescente que começa a se perceber diferente não se reconhece – não tem exemplos - “eu não sou afeminado,” “eu não gosto de homens musculosos.” É difícil se assumir diferente quando exemplos são só esteriótipos.
Diz-se que a Parada reforça esteriótipos. Bem, são 3 milhões de pessoas, a imensa maioria tão neutra fisicamente quanto qualquer imensa maioria. Natural que, entre 100 manos de bermuda e boné, uma drag queen se destaque. Natural que a imprensa prefira fotografar alguns milhares de drags e transexuais do que alguns milhões de manos. Mas quem está na parada vê o que qualquer homossexual com alguma estrada pode ver diariamente – que os gays são seus colegas, dentistas, açougueiros, professores, cobradores de ônibus e pais de família.
Pode-se alegar que hoje já não há tanto preconceito – os gays não estão sempre no Big Brother? (Já chegaram até a ganhar!) Mas a homossexualidade ainda é vista como uma coisa distante – “não na minha família!” O que é visto com simpatia na televisão ou na Avenida Paulista tem outros olhos dentro de casa – e tem olhares de ódio em outras cidades, outro contexto.
Frases de senso comum proferidas em programas de TV por pretensas simpatizantes bem-intencionadas: “Adoro os gays, mas não gostaria que meu filho fosse, porque sei que ele sofreria muito com o preconceito.” Porque não ouvimos “adoro os gordos, mas não gostaria que meu filho fosse?” Provavelmente, no meio artístico, alguém acima do peso é fruto de tanto preconceito quanto um homossexual. Mas sempre se pode emagrecer...
Os diversos exemplos servem para vencer o preconceito. Para quê? Para que não tenha tanta gente apanhando, para que não tenha tanto gay se matando; para que não tenha tanto marido fugindo de noite de casa para pegar garoto de programa na rua; enfim, para que as mães possam aceitar e educar seus filhos para serem mais limpinhos, educadinhos, saudáveis e politizados.
A palavra de ordem é “diversidade” e a Parada GLBT - com orgulho ou não - está aí para mostrar isso.

My Life.



Recentemente meu blog assumiu um tom expressamente confessional. Não fiz propositadamente, entretanto também não foi mero acaso. Meu processo de enfrentamento acirrou-se nos últimos meses e o Dito precisou dar-me o amparo que preciso. Às vésperas de mais uma grande mudança em minha vida sinto-me, mais uma vez,como um adolescente precisando reafirmar-se. Só que desta vez me reafirmo sabendo o que estou fazendo. Estou sendo, e sendo de propósito.
Os mais observadores irão notar que minhas postagens estão ficando mais curtas. Quero o poder da síntese – pôr em palavras o máximo do que só se transmite de corpo a corpo; aquilo que só eu sinto e que as muitas letras não conseguem alcançar. Mas na síntese sim! Comprimir sensações e futuros numa escrita rápida, porém, viva e pesada. Minha escrita a metáfora de minha vida. Para terminar uma pitada do velho e bom Freud:

“É que os juízos de valor do homem acompanham diretamente os seus desejos de felicidade, e que, por conseguinte, constituem uma tentativa de apoiar com argumentos as suas ilusões”.               ( O mal-estar na civilização, 1930).