Resolvi fazer um pronunciamento sobre a copa. Depois de ouvir várias pessoas esbravejarem sua revolta contra a copa, contra o futebol e, agora, depois de ler o blog do Nazarian acho digno que eu diga algo. Quase tudo que ouvi das pessoas que manifestam um desprezo excêntrico em relação à copa do mundo tinha um tom de rancor e mágoa mal sarados. O texto do Nazariam é absolutamente infantil e representa uma tentativa ressentida de se vingar de velhos fantasmas da infância. Garotos como eu, que foram humilhados no colégio por não se interessarem tanto por futebol ou por falta de talento para os esportes, em tempos de copa, dão vazão ao seu velho ressentimento. Lembro bem de que ,quando criança, eu gostava sim de esporte; eu tentei vários e nunca fui muito bem sucedido. Talvez por falta de talento natural ou porque de fato as crianças podem ser muito malvadas umas com as outras.
Analisando mais friamente não era falta de talento natural, pois eu nuca me esforcei muito para aprender a jogar bola ou qualquer outro esporte. A verdade é que o principal componente era o medo e minha baixa auto-estima. O esporte tem uma função importante no processo de socialização na infância e adolescência e ficar fora dele pra uma criança não é sem conseqüências. Eu, por exemplo, compensei com leituras na biblioteca. Passava todo o recreio lendo isolado dos que eu considerava bárbaros. Entretanto, uma grande parte de mim ficava espiando lá de cima da janela os meninos e meninas brincando livremente no pátio da escola. A melhor defesa era me sentir superior, diferente, excêntrico. O nome já diz tudo né? Ex-cêntrico, fora do centro, descentrado. Passei a adolescência me sentindo superior a esse mundo “ bárbaro” que eu tanto temia.
O texto do Nazarian está recheado desse ar sombrio de superioridade não confessada e permeado de muito medo. Apesar de ele ser um escritor corajoso, ao fim de seu texto, pode-se sentir nitidamente uma criança amedrontada e magoada que pega a bola dos coleguinhas e não devolve. Ou aquela outra que ganha uma bola de presente, mas não tem talento e pára o jogo com o dizer: “ a bola é minha” !
Que alegria hoje é poder deslizar sobre tudo isso, sem ressentimentos ou mágoas defensivas e poder me entregar completamente ao frenesi de uma copa do mundo. O futebol também nos identifica como brasileiros, como um povo e eu gosto de me sentir parte de tudo isso. Eu quero me sentir parte como sempre quis. Mas no passado eu tinha medo. Hoje não tenho mais nada a temer e os velhos fantasmas jocosos hoje me olham em pânico: sou eu que meto medo neles. O futebol, que no passado era para mim uma afronta, hoje é diversão, empolgação e alegria. Com isso não estou dizendo que todos são obrigados a gostar de futebol ou dar valor à Copa do mundo. Meu ponto é outro.
As atitudes ressentidas não podem passar sem serem analisadas; elas revelam nossos fantasmas e desejos nunca satisfeitos. Que não gostem de futebol, mas que seja tudo sem rancores ou tentativas infantis de se diferenciarem de suas raízes. Hoje não quero mais ser diferente. Eu já sou e sempre fui diferente, e não preciso impor isso... Muito menos preciso desprezar meus compatriotas pela empolgação com a Copa. Desprezar o esporte gratuitamente é demonstrar um completo desconhecimento do processo civilizatório. As turbas ensandecidas somos todos nós, imersos em nossas confusas pulsões; inventando sentidos e abraçando verdades que nos dão uma sensação de amparo.
O futebol foi uma das grandes saídas do brasileiro, como o samba e a feijoada. Uma das boas coisas da vida é perder o medo de se perder na multidão. Minha frustração hoje é não estar em um daqueles estádios de futebol me sentindo um com a massa e, ao mesmo tempo, experimentando uma alegria só minha extravasada num possante grito de gol. Sinto informar: quem não gosta de futebol, samba e feijoada ainda não soube o que é ser brasileiro. Futebol é, como diria Chico Buraque, a “parábola do homem comum”. Faça uma confissão de alcova: quem não gosta de um homem comum?

Eu me identifiquei com a parte em que você diz que não tem um talento natural para o futebol. Sou assim também. Porém, sou louco por futebol. Fanático pelo meu time. Porém sem esse tal do talento para praticar.
ResponderExcluirParabéns pelo Blog.
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Great blog :)
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Bah, até te perdoo por estar mais ausente. Quando vens, vens com tudo. Excelente reflexão! No alvo.
ResponderExcluirComo não gostar de Copa do Mundo se é um dos únicos momentos que nos sentimos brasileiros mesmos?
ResponderExcluirÉ fantástico sentirmos como uma nação inteira unida em torno de 11 jogadores e através deles expressarmos toda nossa alegria de ser brasileiros. "Sou brasileiro com muito orgulho com muito amor".
Tomaz
Nossa! Tenho lido alguns textos do Dito, mas esse me pegou de jeito rs Algumas palavras ditas me fizeram a voltar no tempo e me recordar de momentos semelhante que passei...assim...lá no cantinho...no meu mundinho...contudo espiando de longe a euforia daqueles que conseguiam extravasar...muito bom Rafael, tenho certeza, pode não ser seu propósito maior neste blog, mas certamente suas palavras ajudam a muitos!!!
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