Eu nunca tinha reparado em como o mar é solene. Sentei pra vê-lo hoje à noite. Sozinho. Um carro passou perto e uma moça gritou vitoriosa: “ sozinho aí né? Coitado!”. Pensei comigo que ficar sozinho hoje em dia é cumprir pena, é um acinte e uma transgressão. Depois pensei que talvez minha solitude tenha agredido esta moça. Quase ninguém tolera ficar só , principalmente frente ao vazio que é o oceano. Um vazio preenchido por si só; por suas ondas e sua amplitude fazendo borda no infinito. Fui embevecido pelo espaço do mar. O barulho de suas ondas quebrando com tanta ostentação, sem timidez de estar ali soberbamente plácido. Então pensei em ligar para alguém, mas antes mesmo que minhas mãos fossem ao celular fui arrebatado pela sensação de que naquele momento eu não precisava de ninguém. Caímos tão rápido nos braços do outro, mesmo quando o outro não tem como compartilhar da vida interior que é somente nossa em determinados momentos. E ali era somente eu e o velho mar. O ancestral mar consigo mesmo e seus quebrantos. Olhei por ele meus olhos e vi meu vazio. Sempre lá no meu olhar; olhando-me por dentro esse vazio esteve sempre ali causando toda minha vida. E eu lutando contra ele enquanto toda poesia do mundo estava dentro dele. O vazio é minha melhor parte, mas preciso fazer as pazes com ele. Com o vazio do oceano em mim. Aí foi que me senti todo solene também. Grande, inchando, crescendo de dentro pra fora e por todos os lados. Senti meus pés fincarem na areia e tudo ao redor perder força...Fui me agigantando, despedaçando sobre a areia meus sonhos caricatos. Eu vi minha caricatura sobre a areia e vi o mar levá-la consigo. Fui invadido pelo oco do mundo. Era meu oco. Abracei o oco porque ninguém mais pode abraçá-lo por mim...Por isso não quis ligar pra ninguém. Pra quem eu ia entregar meu oco, meu vazio, minha platitude? Quem poderia beijar minha monotonia tão viva? Ser é monótono. A vida não é uma grande aventura. A aventura foi a vida de alguém que se apostou em si. A vida em si é oca e branca. Tudo é branco como a espuma do mar... E não há nada triste nisso. Porque o branco não é triste. O branco é. O oco é o negativo de pegar o telefone e ligar pra alguém. Sentei em cima do vazio e o oco-branco do meu olhar e deixei acontecer. Então a poesia aconteceu e eu tive um lapso de glória. Só então senti que eu também matei Deus porque Ele quer ser morto. Deus é branco quando ele diz que É. E é tudo tão inassimilável, a gente só inventa e conta...A gente diz e diz...Diz do branco, do oco e do vazio. Eu nunca tinha visto como o mar é solene quando contemplado por alguém que começa a perder o medo do vazio. Porque o medo do vazio e tapá-lo cria monstros, pesadelos e vida em paranóia. Comecei hoje a abrir os portais eternos. Como a bíblia, esse livro branco, diz: “ um abismo chama outro abismo”. Não é coisa ruim não gente. Não é bom e nem ruim. É branco.

Por volta dos vinte e cinco anos, casada com um marido apaixonado, no começo da vida profissional, "vitoriosa" portanto, como a moça que passou na noite, eu morava em Fortaleza, uma cidade de sol e mar, e às voltas com meu vazio, e meus ocos, que ser mulher tem sempre mais um oco, escrevi um poema em que tripudiava do Sol e do Mar. Mas não pude deixar, no contrapelo, de vaticinar, lá pelas tantas do poema: "Quem olha o mar investiga-se". Essa é a única frase que me ficou do extenso poema como se alguém do fundo do vazio a tivesse pronunciado para mim. Tempos depois, outro marido apaixonado me fez ver o mar. Descobri então, completamente encantada, que sempre tive medo da volúpia do mar que me fascina. Hoje outro homem apaixonado escreve de dentro do meu abismo, olhando o mar e investigando-se. Não liga, mas envia uma mensagem poética lida apenas no calor do sol da outra manhã. Um abismo chama outro. Podemos tentar estender a corda sobre esses abismos, para ir além...
ResponderExcluir"O oco é o negativo de pegar o telefone e ligar pra alguém..."
ResponderExcluirA falta!
To me pegando nisso o tempo inteiro, e muitas outras coisas que envolvem o outro da relação. Pois a solidão nos remete a falta? a falta do outro? e eñtão nos deparamos com nós mesmos? será isso?
Você diz também "Porque o medo do vazio e tapá-lo cria monstros, pesadelos e vida em paranóia"
Poxa! isso diz muito para mim!
No entanto nunca tive medo da solidão, é o contrário! desejo a solidão sempre...