segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O que faz um psicanalista? (I)


( ...) Escapa-lhe, entretanto, sem demora, o que alcança,de sorte que Eros jamais empobrece nem enriquece.Ocupa o lugar situado entre o saber e a ignorância.
O Banquete.

 O que faz um psicanalista em uma análise é justamente apontar, com elegância, o lugar do sujeito, esse espaço entre o saber a ignorância. E que lugar pode ser esse senão o do Desejo? Sim, o sujeito do Desejo, sujeito do inconsciente por excelência na Psicanálise. Nos dois extremos encontramos dois lugares impossíveis: um da sabedoria plena e no outro da completa ignorância.  Nenhum neurótico pode ocupá-lo. No saber absoluto paira o olhar medusante da psicose e quem quer que tenha tido uma infância não está na completa ignorância - há sempre um saber, inconsciente, todavia.  Assim, resta ao que não é nem sábio ( não conhece a Verdade) e ao que não é completamente ignorante ( posto que porta um saber que não sabe que sabe) habitar nas intermitências do desejo de saber.  Em Psicanálise este desejo é de saber algo sobre sua própria origem como sujeito: de onde venho? Quem é Outro pra mim? O que fiz da Palavra que me deu o Outro? 

O psicanalista  é alguém que, manejando bem a transferência, isto é,ocupando o lugar daquele que na fantasia do analisando sabe algo que este não sabe por si só, irá opinar corretamente. Explico-me.

“- Não-sábio é, por ventura, ignorante? Não percebes que entre o saber e ignorar existe algo?
-O quê?
-Opinar corretamente. Não sabes desvendar o fundamento ( de que forma ignorar o fundamento poderia ser conhecer?) nem apresentar a ignorância. Não pode ser ignorância apontar a coisa sob teu olhar. A opinião correta ocupa um lugar intermediário entre o entendimento e a ignorância”
O Banquete.

Se o analisando pensa estar ignorante de seu próprio Saber não é porque não o tem, mas porque não sabe  que sabe. O analista, entretanto, porque já passou por uma psicanálise, sabe que sabe que não sabe. Para que haja análise então, o analista mesmo precisa ocupar este lugar de uma escuta que está sempre no intermediário entre o entendimento e a ignorância ( escuta flutuante); só assim pode surgir uma interpretação ou pontuação precisa que atinja o sujeito justamente em seus pontos cegos. A interpretação é, portanto, uma opinião correta, pois mesmo sem tudo saber o analista pode interpretar.

O caminho de uma boa análise é levar o analisando a construir uma Verdade singular que dará sentido a sua existência, já que um sentido último não podemos achar frente às restrições impostas pela linguagem.  Cabe ao analista sustentar sempre no analisando o sujeito do Desejo, aquele tem por mãe Penúria e por pai Caminho ( filho da Sabedoria); inclusa está no desejo como constituinte invariável a  falta. Ao analisando cabe o esforço de tentar formular e bem-dizer sua penúria levando suas escolhas até as últimas conseqüências éticas- custe o que custar. Aquele que passa por uma análise deve, ao fim, saber o preço que se paga por escolher querer ser o que se é.  Um pouco enigmático talvez.





sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Posição política.



Neste momento de luta e guerra de poderes que vivemos até dia 3 de Outubro tudo vale. No desespero de conquistar votos os ataques morais são constantes, causando um estranho efeito sobre a acomodada classe média brasileira que, mesmo vivendo suas pequenas corrupções do dia –seu orgulhoso jeito brasileiro- prefere  escolher seus candidatos com base em sua candura moral.  A mudança que o Brasil precisa não será sem luta e sem perdas.  A questão que assusta é que lutar pelo poder de mudar tornou-se sinônimo de autoritarismo, quando na realidade, o verdadeiro autoritarismo não está interessado em mudar nada; principalmente se forem mudanças para o menos favorecidos.  Desde a campanha do medo levada a diante por antipáticos globais que o argumento “ficha limpa” tem sido usado contra projetos de governo diferentes e mais radicais na mudança social. Entretanto, o consenso heróico que pode fazer do Brasil uma democracia viva necessita radicalizar-se. O trecho abaixo do livro “ The Fountainhead”, de Ayn Rand fala melhor do que eu sobre o verdadeiro espírito heróico-político.

“Para alcançar a virtude no seu sentido absoluto, disse Ellsworth Toohey, um  homem precisa estar disposto  a cometer contra sua alma os crimes mais insensatos- pelo bem dos seus irmãos. Mortificar a carne não significa nada. Mortificar a alma é o único ato de virtude. Então você acha que ama a grande massa da humanidade?  Você não sabe ainda nada sobre o amor. Doar dinheiro para uma greve e achar que você fez a sua parte, seu dever? Pobre ingênuos! Nenhuma dádiva vale de nada, a não ser que seja a coisa mais preciosa que você tem.  Doe a sua alma. Para uma mentira? Sim, se os outros acreditam nela.  Para o engano? Sim, se os outros precisam dele. Traição e desonestidade, crime? Sim!  Qualquer coisa que parece baixa e vil aos seus olhos. Somente quando você é capaz de sentir desprezo em relação ao próprio e caro ego, somente assim você pode atingir a verdadeira e extensa paz do desprendimento, a junção do seu espírito com o vasto espírito coletivo da humanidade. Não há lugar para o amor ao próximo dentro  do apertado e congestionado buraco miserável de um Eu individual. Seja vazio para que possa ser cheio (....) Abnegação?  Sim meus amigos. Mas não se pode abnegar-se mantendo-se puro e orgulhoso de sua própria pureza. O sacrifício  que inclui a destruição de uma alma- ah, mas por que estou falando sobre isso?  Isto é somente pra heróis entender e alcançar”.

Vete de mi



Tú, que llenas todo de alegría y juventud
Que ves fantasmas en la noche de trasluz
Y oyes el canto perfumado del azul
Vete de mí
No te detengas a mirar
Las ramas muertas del rosal
Que se marchitan sin dar folr
Mira el paisaje del amor
Que és la razón para soñar y amar
Yo, que ya he luchado contra toda la maldad
Tengo las manos tan desechas de apretar
Que ni te puedo sujetar
Vete de mí
Seré en tú vida lo mejor
De la neblina del ayer
Cuándo me llegues a olvidar
Como és mejor el verso aquél
Que no podemos recordar

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Dignidade já.

“ Ela ouvia o vazio, só palavras vazias proferidas como se seu interlocutor fosse insultado por qualquer sinal de entusiasmo por parte dela, como se o tédio fosse o único laço possível entre as pessoas, o único preservativo de suas precárias dignidades”.The Fountainhead- tradução livre.

Dentre tantas pautas para o blog não pude deixar de lado minha leitura da Ayn Rand.  The Foutainhead tem sido um soco preciso que eu tanto precisava. O livro é uma aula constante permeado de discurso inteligentíssimos e descrições precisas da condição humana. Um olhar agudo como poucos que já vi. Na fase que estou agora o livro tem sido uma fonte de força para manter alto meus ideai, ainda que seja para mais tarde rechaçá-los.Todavia, precisa-se deles.  O livro tem me mantido firme à minha integridade e ao que gosto de chamar dignidade. 

Viver a vida como o defunto vaidoso que vai pra cova todo elegante. Inútil? Talvez, mas faz da morte um estilo também. Se a morte pode ter dignidade, por que não a vida?
Pra terminar, como diria Millôr Fernandes: Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos.
Acho digníssimo.

sábado, 18 de setembro de 2010

Barricadas


Dentre tantas opções sobre o que fazer com o sábado a noite parece que a clausura e o confinamento serão as melhores opções.  Dentre os pedintes da noite e as barricadas do entretenimento com suas injunções de alegria talvez um livro seja a melhor saída, e menos desgastante. 

domingo, 12 de setembro de 2010

Leitura obrigatória

Lendo " The Foutainhead", de Ayn Rand. Um dos livros mais marcantes até hoje. Parece exagero,mas não há de ser. O livro me pegou como fazia tempo que uma literatura me agarrava de jeito. Pegou no meu projeto de vida; pegou na minha sina de existir e me fez sentir como eu me sentia quando ainda era um adolescente--forte e certo de que meu ser estava correto. Conseguem entender? 

Leitura obrigatória para quem sonha em se tornar no self-made- man existencial!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Os Famosos e os Duendes da morte





Desde que vi o trailler fiquei excitado para ver o filme. Um empuxo, uma curiosidade incontrolável. Talvez o campo, o Rio Grande do Sul, a internet e a vida de um adolescente no atravessamento desta fase tão linda e incontornável. Como incontornável é a travessia daquilo que você deve ser e o que você pode e escolhe ser. O cinema brasileiro fica de parabéns com uma obra de arte de sensibilidade rara nas telinhas; não é a toa que na sala havia somente umas 8 pessoas vidradas  e embaladas pela sutil trilha sonora de Bob Dylan.  O diretor consegue plasmar muito bem a lentidão do interior gaúcho- o frio, a paisagem lúgrube, a imigração, o branco fosco que dá tristeza.

Fomos ver o filme, eu e mais duas mulheres. A boa obra de arte é a que consegue arrancar de cada um sua memória e acendê-la habilmente. Uma viu sua adolescência nem tão hipermoderna, mas em sua essência doce e desafiadora; a outra viu seu tempo vivido em uma cultura fria e dura enquanto ela destoava como um bicho híbrido. Eu vi minha figura lânguida e vulnerável a buscar meu esconderijo na íngreme escada que levava à biblioteca do Colégio Batista em meus idos 15 anos... Eu vi os contornos tortos e finos de minha adolescência e a presença sempre forte e confiante da mãe.

“  naquele cidade cada um sonhava em segredo:, menino sem nome conheceu a garota sem pernas, mas mesmo assim, não precisava de ninguém pra ir embora”.  Assim começa e termina o filme numa metáfora brilhante de um garoto que precisa deixar sua vida e enfrentar o canto sedutor de morte que nos espreitar de soslaio. O enlace familiar é tratado com a delicadeza que o tema merece, tanto que, para os desavisados, o âmago do filme pode passar completamente despercebido. O direto, entretanto, deixa claro nas postagens do menino protagonista.  Uma em especial traduz o que atravessa o filme todo: “ ...nossas bocas sonhando até o fim, como o que ficou pra trás, como o que nunca será descoberto, como o que nunca mais voltará a ser três”. Atravessar a ponte fica marcado como a metáfora mais forte daquele que precisa cruzar seu destino e abandonar o apego nostálgico ao “três” e, finalmente, fundir-se ao seu desejo. Palmas para o diretor. 

domingo, 5 de setembro de 2010

Atento e forte.



Olá caros amigos em São Luís. Faz tempo que não dou notícias sobre minha vida em Fortaleza. Faz um mês que estou aqui novamente. Não há muito o que contar, principalmente agora que entrei numa fase que estou tendo muita dificuldade em comunicar. Perdi um pouco da fé, por assim dizer, na compreensão. Ou talvez eu esteja precisando virar ostra por uns tempos. Voltar-me violentamente para dentro e ver o que resta de mim sem os outros.
O mestrado está indo bem. Fora alguns energúmenos com os quais eu sou obrigado a conviver, tudo vai normalmente, como eu já esperava. Um fato é inexorável: existem pessoas boas, más, burras e inteligentes. Não há razão para insistirmos com os desfavorecidos intelectualmente, é como jogar pérolas aos porcos. Que outros façam a caridade da razão pura; eu fico às margens. Um pouco de amargura não fará mal se eu não perder as estribeiras. Como disse Jesus: não se deve ser demasiadamente justo ou puro. Assim, hoje, pendo para o fel. De todo modo isto me dá certa descrença nos humanos que eu considero muito salutar. Vejam vocês que no momento gozo de minha própria vida interior até que, como num raio, venha galopante uma figura que causa um desejo de abertura. Por enquanto, as paredes estão altas. É um fato e contra fatos...ah vocês o sabem bem.

Minha nova experiência de morar com outra pessoa tem sido agradável e desafiadora ao mesmo tempo. Explico. Esta pessoa com quem moro me desafia todos os dia a não ser eu com tanta tenacidade. Ela me aperta, me estimula e acima de tudo, me contém. Desta forma ela realiza dois milagres: me impede de fugir da luta e me mostra que eu estou dentro de alguém. Lição aprendida neste mês: ignorar a tentação de transformar pedra em pão.
De resto não há nada a dizer a não ser que é preciso estar atento e forte.

Beijos a todos