A demissão da psicanalista Maria Rita Kehl abre uma polêmica suculenta: devem os psicanalistas se envolverem com a política? Tirando o psicanalista pop-star Slavov Zizek, que foi candidato à presidência da Eslovênia, conheço poucos que ousam expor sua posição política. As explicações variam entre uma posição melancólica diante de uma pretensa lucidez e uma má vontade política fantasiada de rigor teórico. De minha parte vejo a coisa por outro ângulo baseado em meu convívio entre psicanalistas e aspirantes. Grande parte dos psicanalistas são o que o jornalista David Brooks no livro Bobos in Paradise chama de Bobos-- Borgeois Bohemians. O berço do nascimento da psicanálise contamina até hoje as fantasias dos jovens recém formados que saem das universidades com o sonho de um belo consultório neoclássico. Muitos deles não abrem mão do sonhado divã e de seus mestrados e doutorados na capital francesa e se sentirem dignos e mais burgueses ainda. Já vivi esse momento e sei o quanto é tentador. Entretanto, a ética do desejo na psicanálise não escapa à tomada de uma posição política dentro dos discursos que tecem o ethos de uma sociedade. Não esqueçamos jamais que foi Marie Bonaparte, neta de Napoleão I que, com suas conexões políticas livrou Freud e sua mulher de perecerem sob o regime nazista. Em seu exílio na Inglaterra Freud continuou ativo e forte na causa psicanalítica.
A força da psicanálise nasceu no centro do Iluminismo e aos olhos de seus fundadores, desde muito cedo, pretendeu ser uma instituição capaz de traduzir numa política sua concepção de mundo ( Roudinesco,2000). Infelizmente, a norma sobrepujou a originalidade e a psicanálise não soube suportar os desafios da ciência e muito menos as mudanças na sociedade. Um verdadeiro recalque político! Os psicanalistas julgaram-se intocáveis, e ainda se julgam, pela realidade social como a miséria, o desemprego, os abusos e as novas reivindicações provenientes das transformações no seio da família. Sobretudo as que referem-se aos direitos dos homossexuais e da mulher. Em suma, os psicanalistas se desinteressaram do mundo real e voltaram-se para suas fantasias narcísicas.
Temos hoje o grande desafio de lutarmos contra uma crescente devastação causada pelo niilismo contemporâneo tão cultivado no meio Psi. Estar do lado do sujeito desejante é antes de mais nada olhar para fora de si e de nossas masturbações institucionais, marca das associações psicanalíticas. Nunca houve momento mais propício para que psicanalistas marginais se posicionem e assumam seu dever ético para com um projeto de nação brasileira. Maria Rita Kehl é um exemplo a ser seguido de coragem e força de uma verdadeira intelligentsia comprometida com a justiça. Não se deve dar lugar ao marasmo borgeois; parafraseando Roudinesco: no lugar da calmaria queremos a paixão, em lugar da desimplicação subjetiva, o desejo, em lugar do nada, o sujeito e em lugar do fim da história, a história.
Roudinesco. E.( 2000). Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Roudinesco. E.( 2000). Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Uma pena o que aconteceu com a Maria Rita Kehl, ela é alguém que muito tem contribuído para nossa sociedade com suas reflexões. Quanto aos Bobos, creio que há uma identificação com a figura de Lacan, mas que em nada tinha de "acomodado", sua causa era a psicanálise. Acho que já está de bom tamanho! Aos analistas de hoje, não é nos doutorados ou divãs clássicos que se mede seu compromisso, e tão pouco, os desqualificam.
ResponderExcluirOlha, muito boa essa discussão, porque na faculdade é muito perceptível que os psicanalistas se fecharam num mundo que parou no tempo, e sinceramente, se o sujeito se constitui e se transforma a partir de como ele se relaciona com o mundo, não dá pra se fechar numa teoria do inicio do século sem pensar as transformações que ocorreram e como isso muda a percepção do sujeito e de sujeito. Fiquei extremamente chateada com o caso da Maria Rita Kehl, por achar que a psicanalise tem que estar a par de tudo isso, com tudo o que movimenta a sociedade, e digo mais, no meu achismo, a psicologia ela tem um compromisso com o social, já que tem um compromisso com o sujeito. As mazelas vão existir sempre, independente de uma sociedade "perfeita" ou não, e devemos estar nos ocupando do que seria fundamental para a saúde mental, e política interfere em vários fatores que contribuem para isso. Quando entrei na psicologia e me apaixonei pela psicanalise, no meu processo de análise eu questionava muito se o meu desejo também não se resumia ao desejo de consumo burguês, e até hoje me preocupo com isso, em não me fechar nessa bolha que distancia a psicanálise do mundo. Não sei porque se criou essa cultura de distanciamento, se a própria psicanalise surgiu por conta da cultura que adoecia os sujeitos... Bom, acho que já falei demais. Só queria dizer mesmo que gostei muito do post, e que fico muito feliz ao ler esse tipo de argumento. ;)
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