Tenho recebido reclamações de que ando distante. É mentira e verdade. Ando distante porque repentinamente me aproximei de mim , do meu desejo e do trabalho que dá abraça-lo. Não se pode deixar pra depois e ao mesmo tempo não se pode apressar o trabalho psíquico que é não ceder do seu desejo. Envolve aniquilações, ponderações e abandonos. Deixamos um tempo para abraçar o outro.
Nesse movimento, as pessoas ao nosso redor ficam um pouco sem compreender exatamente o que se passa. Alguém nesse processo é como o texto bíblico diz tão precisamente: “ O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. Tornar-se sujeito é uma luta que não tem fim, segue ao fim da vida... É nessa luta que estou sempre. Se em algum ponto eu fico difícil de ser apreendido é porque, nesse ponto, estou etéreo. Nem eu mesmo me alcanço. Nesse percurso vou pra frente, pra trás, estico-me, vou até o limite. Volto incertamente; não sei quando e nem aonde. Mas, uma coisa já sei: não posso parar, se meu corpo se movimenta o tempo todo ( algumas vezes involuntariamente) é que há algo na natureza do meu desejo mesmo que exige movimento, busca, vocação. É o que tenho dito nos últimos dias- um ser humano precisa de vocação pra viver; sem ela a melancolia é um refúgio muito tentador...O não sentido, o olhar medusante do abismo. A vocação é a futilidade prática do viver. Se tudo é vão, é na vocação que a vaidade de um momento pode mostrar-se belo e vivo.
A grande angústia da existência.
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