domingo, 31 de dezembro de 2006

Conto de ano novo - Para Guilherme

Era o início de verão. “ Como as coisas ficam espaçosas no verão”- pensou em voz alta. Talvez fosse a luz que deixava tudo tão amplo. A sensação de amplidão lhe dava náuseas, sempre ao acordar. E hoje não fora diferente. Sentia uma tontura selvagem que lhe roubava a vontade de levantar da cama. Pegou o telefone e discou o primeiro número que lhe veio à cabeça. Do outro lado um estranho atende do outro lado.
-- alô? Falou com voz rouca de sono.
--sim? Quem é?
-- você não me conhece. Mas estava pensando se você quer conversar. Acordei sonso. Acordei tonto e tontura me deixa susceptível a todo tipo de aventuras. E você, como acordou?
-- Eu não acordei. Como você tem meu número?
--Eu não tenho. Liguei ao léu...
-- eu não dormi ainda...Passei a noite em claro , Á procura de eu não sei o que. Mas a procura me cansou demais. Estou cansado. É como se esperasse por aquele motivo que me dessa vida outra vez; uma aventura que desse sentido a dor que sinto. Sem sentido é duro suportar dor, sabias disso?
-- É... Dizem por aí pela rua. Dizem que a vida dói. Eu não sei. Passo metade de minha vida dormindo e não sinto nada. Já estou começando a perder a capacidade de sentir asa coisas. Tem dias que acordo todo dolorido, outros que a vida passa por mim incólume, não sinto nada. Só uma pontada de ressentimento por ter a carne tão viva. Se, porque me sinto em carne viva. Sei que parece paradoxal que eu não sinta nada estando em carne viva, mas é que sinto outro nível se sentir.
-- Eu não entendi nada do que você disse. Mas também não me importo. Amanhã eu vou estar morto mesmo.
_morto mesmo? Ou morto só de pensamento?
--morto mesmo. Morto de morte que me vou conceder. Eu me concedo o dom da morte. Se a vida me foi dada como dom imerecido e não requisitado, em revolta, concedo-me a morte. É minha maneira de tomar o controle da minha vida: acabando com ela. Não suporto mais viver na precipitação do destino. Não me rendo, não me entregarei à morte acidental ou a alguma doença. Quero morrer porque decidi que preciso morrer, que a vida já não precisa mais ser vivida. Que as razões acabaram para viver. Eu mesmo quero decidir que já basta. Não tenho e nunca tive missão nesta vida. Morrerei quando assim o quiser. E quero que seja amanhã. Você é contra?
--- Se tem uma coisa que eu não sou é do contra. Já faz muito tempo que eu não luto mais com essas picuinhas do dia-a-dia. Discordar das coisas. Eu não discordo mais de nada. Guardo comigo minhas opiniões. Nada pior que uma pessoa cheia de opiniões. Eu já fui assim. Hoje em dia guardo comigo minhas palavras, a cada dia que passa sinto que falo menos. Não gostei da sua idéia de acabar com a própria vida, mas não quero e não vou explicar meus porquês.
- concordo. Você está certo. Mas morro amanhã mesmo. Vou desligar. Um bom dia. Qual seu nome mesmo?
--Cardoso. Meu nome é Cardoso. E o seu?
- Meu nome é Cardoso também.

Assustado sentou-se e desligou o telefone. Sentiu um ímpeto de ligar novamente, mas não conseguiu. Ficou sentado imóvel sorvendo aquele momento. Ele sabia agora que a sensação de familiaridade que sentia ao falar com o estranho era peculiar-dava-lhe uma sensação de eco. Passaram-se horas até que ele conseguisse sair da cama, mas saiu. E saiu para um amanhecer mais robusto, mais vivo, mais cheio de bossa. Era um novo dia, sua vida era uma bossa nova – densa, dramática, triste, porém com uma tenra esperança forçosa que se impõe sobre um coração melancólico. Decidia viver. “ Viver apesar de”.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Ler

preciso ler mais. estou ficando burro. quando eu for burro alguem ainda vai me escutar? melhor não.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

O menino Nasceu


Eu não costumo copiar as coisas, mas o post de natal do meu caro amigo Rafael Brito no http://nownada.blogspot.com/index.html me tocou tanto que preciso publicá-lo também.


Pronto. O menino nasceu. Me preocupa é o futuro dele. O que farão dele daqui a 33 anos.
(Pintura: Federico Barocci The Nativity

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Arte


Achei incrível esta exposição de arte na Antártica. Arte realmente é uma superação da realidade. Belíssimo.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Sobre minha fé em Deus

Alguns de vocês sabem que sou cristão. assim, resolvi, de tempos em tempos colocar algo que explique um pouco que tipo de cristão eu sou. Eis um texto do Ricardo Gondim , um importante pensador cristão.

No século passado, Karl Marx e Sigmund Freud representavam duas grandes ameaças contra a religião. Marx afirmava que a igreja serve a interesses ideológicos de controle político e de subjugação econômica. Freud, por sua vez, percebia os mecanismos infantilizantes da religião quando sacerdotes projetam em Deus nosso desejo por um pai perfeito. Para ele, a prática religiosa condena homens e mulheres a viverem como eternas crianças, sempre precisando de intervenções sobrenaturais para enfrentar as agruras da vida.
É preciso dar a mão à palmatória. Os dois leram as instituições religiosas dos seus dias corretamente, principalmente a cristandade. Desde Constantino, o apelo do poder mostrou-se arrasador e irresistível nas igrejas. Infelizmente, os ensinos do Nazareno foram usados para autenticar o expansionismo imperialista e colonialista dos grandes impérios que se auto-proclamaram cristãos. Padres, pastores e bispos se vestiram como a grande prostituta do Apocalipse e se entregaram por qualquer preço. Monarcas beijaram anéis episcopais enquanto obrigavam seus donos a lamberem suas botas. Assim, os mercadejadores do templo precisaram distribuir ópio religioso para poderem fazer vista grossa e abençoar inúmeras carnificinas – dos Tsares russos ao Batista cubano; das aventuras ensandecidas de Isabel espanhola às dos Bush, pai e filho.
A adoração do “Deus provedor” ocidental deu razão a Freud, que denunciava os recintos religiosos como incubadoras de oligofrênicos. O proselitismo missionário foi feito, em grande parte, precisando de uma espiritualidade funcional. Na tentativa de mostrar a superioridade de Jeová sobre as demais divindades, criou-se um fascínio por milagres. “Nosso Deus funciona”, clamaram os evangelistas por séculos. Desse modo, o sobrenatural passou a ser compreendido como uma intervenção legitimadora daquele que é o verdadeiro “dono do pedaço”. Assim, os crentes viciados em milagres se condenaram à freudiana dependência infantil.
Em minha opinião, só seria possível resgatar a mensagem de Jesus Cristo, caso a religião abrisse mão de suas hierarquias institucionais, demitisse elites, democratizasse o acesso a Deus, e esvaziasse os rituais da função de serem técnicas para se obter bênçãos. É importante que repensemos a fé, seguindo o exemplo de Jesus que viveu sem precisar de milagres e morreu sem apelar para os anjos. Iguais a ele, precisamos viver sem os cabrestos da religião e sem as intervenções de Deus.
Concordo com John Hick em “Evil and the God of Love” (New York, Harper & Row; London, Mcmillan, 1966, p. 317)
“Ao criar pessoas finitas para amar e serem amadas por ele, Deus precisa dotá-las com certa autonomia relativa quanto a si mesmo”. Mas como pode uma criatura finita, dependente do Criador infinito quanto à sua própria existência e a cada poder e qualidade do seu ser, possuir qualquer autonomia significativa em relação a esse Criador? A única maneira que podemos imaginar é aquela sugerida pela nossa situação efetiva. Deus precisa colocar o homem à distância de si mesmo, de onde ele então pode vir voluntariamente a Deus. Mas como algo pode ser colocado à distância de alguém que é infinito e onipresente? É óbvio que a distância espacial não significa nada nesse caso. O tipo de distância entre Deus e o homem que criaria certo espaço para certo grau de autonomia humana é a distância epistêmica. Em outras palavras, a realidade e a presença de Deus não devem se impor ao homem de forma coercitiva como o ambiente natural se impõe à atenção deles. O mundo deve ser para os homens, pelo menos até certo ponto, etsi deus non daretur, “como se Deus não existisse”. Ele precisa ser cognoscível, mas apenas por um modo de conhecimento que implique uma resposta livre da parte do homem, consistindo essa resposta em uma atividade interpretativa não-compelida através da qual experimentamos o mundo como realidade que media a presença divina”.
Uma nova igreja precisa se desvincular de seu fascínio pelo poder, qualquer um: político, econômico, militar ou espiritual. Repito, urge que homens e mulheres construam sua humanidade, sendo sal da terra e luz do mundo, sem necessitar de repetidos socorros celestiais.
Ricardo Gondim

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Invasões Bárbaras ( Sem número)


Sempre achei que as invasões bárbaras estavam restritas ao cinema- pelo menos quando elas me atacavam. Mas fui ingênuo. Os bárbaros estão tomando de assalto todo o planta. A derrocada da civilização é rápida e os bárbaros nos consomem de todos os lados. Para todos as lados que eu olho lá estão as marcas dos bárbaros. Então, pra não perder o costume trago mais um relato de invasões no cinema – depois conto a invasão de hoje.

Ontem fui tirado do meu conforto domingueiro para ver “o Céu de Suely”- um filme brasileiro recém lançado. Eu não gostei. Os dois amigos que foram comigo disseram que gostaram, mas eu não sei ao certo. A mim o filme não disse nada. Não passa de um roteiro mal feito contando uma história que eu já ouvi milhões de vezes: moça pobre- abandonada pelo marido- retirante do nordeste- pobreza- prostituição-final infeliz. O normal. Receita normal para se tentar fazer um filme cult. Não foram bem sucedidos. Pelo menos não para mim. Realismo no cinema é coisa difícil de fazer sem parecer um apelo à boa vontade dos cinéfilos. Mas sim, não estou aqui pra falar disso.

Imaginem vocês que os pipoqueiros estão atacando também nos cinemas ditos “ cult”. É claro que eles me cercaram, literalmente, ao meu redor só tinha pipoqueiro. E olha que eu me sentei longe de todo mundo, só que eles vieram até mim. Parece que advinham. Além da ruminação de milho duro, dessa vez, um velho antipático resolver amassar o saco de pipoca a cada grão que ele tirava do saco. Um barulho ensurdecedor. Algo inenarrável – perco até o ar de pensar. Eu dei várias olhadelas pra cara do velho, mas ele parecida tirar um gozo sarcástico daquela tarefa mefistofélica de ficar me aporrinhando. Pelo santo graal! No fim de tudo, além do barulho infernal, deixaram o chão do cinema um nojo- pipoca pra todo lado, sim porque a boca do povo é furada. Olha, vou te contar. eu enforquei Judas, só pode. Fora isso, é claro, uma gorda enorme não parava de ri ( se o filme era comédia até agora eu estou no limbo, porque não achei a menor graça-).

Mas voltemos à barbárie de hoje. Um dos meus divertimentos é ler as portas de banheiros quando sou pego desprevenido na rua. Sim, porque eu faço de tudo para não ter que usar banheiros fora de casa, mas ás vezes, como hoje, é inevitável – tive que me render ao trono público – uma indignidade. Então, já que estava preso no cubículo de tortura passei a ler os escritos de banheiro. São ótimo! Tem de tudo. Mas algo me chamou a atenção hoje. Um dos escritos dizia: “ viado+ Gays= AIDS. Eu fiquei alguns instantes estupefato com a frase. Pensamentos como : “ que preconceito! Quanta ignorância!”, passaram pela minha cabeça. Mas depois uma tristeza aguda me bateu. Tristeza quando penso que ainda vivemos numa sociedade tão violenta e tão bárbara. São pouquíssimas as pessoas que conseguem ver além dos muros invisíveis. Foi incrível como esta frase me lançou naquilo que os lacanianos vão chamar do “ Real”- o insignificável. Não pude dar sentido o que senti. Fui ao Caio (* Caio Fernando Abreu, ele tem sido um refúgio sombrio nestas madrugadas insólitas que busco uma alma boa) e gostaria de finalizar com ele:

“....Aquele menino trazia na testa a marca inconfundível: pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifra-la ou se apenas pelo prazer de mergulhar. Essas são as escolhidas- as que vão ao fundo, ainda que fiquem por lá. Como aquele menino. Ele não voltou”. ( extraído do conto Eles).

domingo, 10 de dezembro de 2006

ùnica realidade

Da vida nada sei. Não sei mesmo. Só sei que minha coluna está doendo. Será a dor a única realidade?

Chico Buarque - Me deixe muda.
Não diga nada,
Saiba de tudo,
Fique calada,
Me deixe mudo.

Seja no canto,
Seja no centro,
Fique por fora,
Fique por dentro.

Seja o avesso,
Seja a metade,
Se for começo
Fique a vontade.

Não me pergunte,
Não me responda,
Não me procure,
E não se esconda.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Meu mundo é a santaninha


Acabo de ouvir – para ser mais preciso ler, porque foi no infame MSN-um dos pensamentos que eu mais detesto, ei-lo: “Rafael você até que é um cara legal, mas seu problema é que você complica muito a vida”. Como hoje não estou para “muitos amores”, mandei-o passar bem e me resignei à minha condição de louco complicado, porém legal. Eu deveria me dar por satisfeito né? Um sujeito desses, neo-capitalista, neo-bobo me faz um elogio desses, reafirmando meu lugar de “legal” no mundo e eu fico exasperado? Coisa de gente histérica né? Eu sei que devo me dar por satisfeito.

Mas não consigo parar de pensar que essa é uma das frases mais idiotas que eu escuto o tempo todo. Simplesmente porque a vida é A C_O_I_S_A mais complicada que eu conheço. Complicada como a vida é como posso não complica-la? Não tem como. Eu suspeito que meu amiguinho do MSN deva estar freqüentando algum grupo religioso, porque essa gana por simplificar o que não pode ser simples é coisa da Religião. Sei disso.

Bem, quanto à histeria, eu sou histérico mesmo. O histérico sempre quer “o mais do Desejo”. Esse sou eu. O eterno insatisfeito. Mas acho isso bom, porque no mundo que vivemos a Falta está sendo roubada dos corações e não resta mais espaço pra ninguém desejar nada. A oferta de satisfação é enorme, o Capitalismo não se beneficia do verdadeiro Desejo. Pelo contrário, quer deixar todos presos e fixados no primeiro objeto oferecido: é o marketing do consumismo. Ah! Creio que fiquei muito hermético, considerando os pobres mortais anti-Freudianos que passeiam nas amargas águas do Dito e Dizer. Voltemos à conversa no MSN.

Quando ouço que sou complicado sinto-me contente. Eu fujo da simplificação da vida. Alias, não fujo não. Para mim é tão natural achar tudo tão complicado que não faço o menor esforço para não simplificar. Naturalmente me complico todo. Sei que minha complicação às vezes incomoda e põe em cheque as fábulas de vida harmônica nas quais vive metade dos meus conhecidos, mas mesmo assim me nego a cair no baile. Bailo sozinho mesmo. Esta será, diga-se de passagem, minha resolução de ano novo: bailar sozinho. Foi assim que acabou minha “ converseta” com tal amigo. Passar bem simplicidade...

Ainda no tópico “bailar sozinho” fui ontem ao cinema sozinho. Ai que baile dos desacompanhados! Não vou dizer que foi de todo maravilhoso. Até porque no cinema, todos vocês sabem, eu sempre sofro retaliações. Claro que sempre tem aqueles que levam pipoca e ficam ruminando milho bem pertinho de mim. Mas ontem teve novidade! Eis que estou lá curtindo meu filme ( Little Miss Sushine, recomendado por Socorro que por sua vez recebeu a recomendação do seu analista. Psicanálise aí de novo minha gente!), quando subindo as escadas vem um gordo enorme. O gordo se senta onde? Do meu lado é claro. Esbaforido e aos peidos, vira-se pra mim e pergunta: “ Ei brother que filme é esse?”. Minha gente, o sangue ferveu. Mas “estanquei o sangue quando fervia”, respirei fundo e respondi placidamente: “ é a Pequena Miss Sunshine”. Lá se vai o gordo ladeira a baixo. Tinha entrado no filme errado e por azar, procurou quem para tirar a dúvida? Eu! Eu, o senhor simpatia. Até pra bailar sozinho temos que pedir permissão para gordos e pipoqueiros. Acho que vou apelar para o deputado Clodovil. Desocupado que só ele vai gostar do meu projeto de lei que proíbe pipoca nos cinemas.

Mas “ como não existe pecado do lado debaixo do Equador” eu perdôo o gordinho. Mas pedir que eu libere a pipoca é pedir demais! Pedir que eu tenha paciência com os neo-bobos também é pedir mais que minha pobre e rancorosa alma consegue elaborar! Como diz o Chico, para mim esse tipo de coisa é a “ gota d’água”e , como todos sabem, meu coração é um “ pote até aqui de mágoas”. Só Chico me tira no niilismo. Ta aí, o Chico pode bailar comigo, porque agora, para bailar comigo tem que estar “ à flor da pele”. Socorro tem razão, eu quero colocar a Sé na santaninha. Eu morro tentando...Eu sou a Sé, o mundo a santaninha.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Deus é realista.


Penso que vou ao cinema. Quem sabe surje algo que me imprima mais alegria que dúvidas. Sim, porque a dúvida é a eterna companheira da tristeza- se é em que dúvida conhecemos o Bem e o Mal, só sabemos tristeza desde o Éden. A felicidade é coisa dos humanistas. Não creio que Deus seja humanista , devo admitir- por mais que eu odeie a realidade- que Deus é realista. Depois que descobri a modestia de Deus e minha arrogância, decidi que deveria mudar minhas orações. Assim, faz muito tempo que não oro. Ainda estou tentando entender como conciliar a onisciência divina e a necessidade de orar.

Tenho dito.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Te vi



ONtem tive uma noite maravilhosa com minhas queridas Rebeca e Marta. Foi o nosso natal. Dedico esta música para vocês queridas.

Caetano Veloso

Un Vestido Y Un Amor (Te Vi)


Te vi... juntabas margaritas del mantel
Ya se que te trate bastante mal,
no se si eras un angel o un rubi
O simplemente te vi.

Te vi, saliste entre la gente a saludar
Los astros se rieron otra vez, la llave de mandala se quebro
O simplemente te vi.

Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad, vos ya sabes comprender
Es solo un rato no mas, tendria que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi... yo no buscaba nadie y te vi.

Te vi... fumabas unos chinos en Madrid
Hay cosas que te ayudan a vivir
no hacias otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.
Me fui... me voy, de vez en cuando a algun lugar
Ya se, no te hace gracia este pais...
Tenias un vestido y un amor...y yo simplemente te vi.

Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad,
vosya sabes comprender... es solo un rato no mas,
tendria que llorar o salir a matar...
Te vi, te vi, te vi... Yo no buscaba nadie y te vi.

Não entendo nada.

Ai que pataquada.

Ontem fiquei sem internet e caí nas desgraças da televisão. Desde a Diarista, Jornal da Globo ao Programa do Jô. Destes três ,o Jô se salva fedendo, mas até ele tem me irritado com sua incapacidade de fazer uma entrevista- não é um talk show- é o talk Jô!.
Sim, mas estou aqui é pra falar mal do nosso presidentizinho de merda.
Eu sempre detestei notícias, adoro ser desinformado. Até porque eu acho que jornal é que nem novela: toda vez que assistimos são as mesmas notícias e pautas, um saco. Uma droga.
Só sei que ontem já estorou mais um escândalo com o nome do Lula- umas contas não aprovadas pelo TSE. O ministro foi enfático: sem contas aprovadas , sem novo presidente. Eu ri à beça. Quando perguntado sobre o caso Lula deu uma resposta inovadora: " Eu não sei de nada, isso que você tá me perguntando eu não sei ...". Que legal né?
Ele nem muda...sempre a mesma lenga-lenga.....e ainda me dizem que o Alckmin seria pior? Pior pra quem?

Depois a notícias do caos nos aeroportos causado pelos controladores de Vôo...gente, tem coisa que eu não entendo. Antes da queda do avião da Gol tudo corria bem. Essa crise começou do nada? Como foi isso? Os controladores aproveitaram a situação pra sabotar a aviação brasileira? Ou isso é complô dos americanos? eheheheheh só podia ser..eu ia me esbaldar com essa. Sim, porque há pouco tempo nada disso existia, mas de repente, a aviação brasileira entrou em colapso! Essas coisas não acontecem da noite pro dia...

Entendeu por que eu não vejo noticiário? É por isso...eu fico angustiado...e não entendo nada.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Sentir novamente


Era insólita a noite sem luar. Fria e de uma espessura disforme que percorria as nuvens avermelhadas pela luz da cidade. Sentiu-se impotente perante àquela visão. Foi pro quarto aturdido pela falta de opções. Estar nas mãos de um outro é dor aguda, mas fugir disso seria desleal. Ele escolheu não fugir. Mas que não gostava nada disso era certeza lacerante. Sentou-se à mesa para escrever algo. Os papéis pareciam folhas frias que lhe desferiam golpes humilhados – escrever era mais uma fuga. Fuga de se estar nas mãos de um outro. Esta noite queria poder rasgar o outro – mandar tudo às favas e morar numa cabana solitária nos Andes. Fantasiou como as montanhas seriam graves e majestosas: escritor e cenário – juntos em companhia silenciosa. Pensou que só veria animais silvestres perdidos por entre as árvores, nada amistosos, só olhando de longe. Cansou também da fantasia. Queria o real do Real mais ardiloso. Ouvia um fado triste-apreciava uma tristeza ressentida das noites de domingo. Um sentimento fino de que algo poderia nunca acontecer. Nunca. Nunca acontecer. “Eu só conheço esse caminho do paraíso”. Cantou a voz chorosa de Portugal. O CD de fado era um presente de uma amiga sua – uma que ele acha que é bruxa-bruxa do bem. Paraíso ele não sabia se existia. Já dizem que o Inferno é aqui. Mas que Inferno bom—pensava ele. O Inferno na cabeça dele será sofrimento sem fim, a vida pra ele era dura, mas com intervalos de alegria. Porque felicidade pra ele é adjetivo. Não conhecia felicidade por nome, só por adjetivo. Sempre que ia à praia pensava : - que mar mais felicidade! A areia está uma felicidade! Gostava de mudar as coisas assim.

Começou a escrever--------------------

“....chama alguém pra falar comigo. Chama o corpo de bombeiros se for preciso. Mas não me deixe ficar só nesse vácuo. Rola solta minha indignação com os patos..para onde vãos os patos no inverno? Não sei . só sei que roubo essa dúvida de um Outro. mas que mania mas revolta de assumir um compromisso que não é meu? Doce é a vida...amargo sou eu”.

Deixou cair o lápis e deitou o rosto sobre o papel... Sentiu o cheiro do grafite. Queria poder ser citado um dia. Era um orgulho que não acabava. Pensou naquele momento que só ele podia dizer-se. Ninguém mais. Nunca. Nunca iria acontecer. Ele sentia que sua sina era essa mesmo—correr do impossível, mas só a ele amar. Uma fuga enigmática à procura de um fado explicável, todos eles lhe eram insensatos. Adormeceu sozinho. Ao redor a sala parecia falar-lhe, melhor, sussurrar. Os móveis segredavam confissões copiosas de um poeta esquecido. “Nunca... Nunca... Nunca poderá acontecer”. Com o tempo toda sala gritava de cálido desespero—“ nunca..Nunca...Nunca...nunca...o sentimento nunca pode ser escrito”. Na neutralidade da madeira havia mais sabedoria que em sua filosofia.

Louco, levantou-se e foi dormir. Conversou um pouco com a cama, deu boa noite ao travesseiro e dormiu ouvindo estórias de ninar contadas pelo abajur. Dormiu tranqüilo. Sem sanidade parecia sentir novamente.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Olha que letra bela

Weeping lyrics

(feat. Ladysmith Black Mambazo)

I knew a man who lived in fear
It was huge, it was angry,
It was drawing near.
Behind his house a secret place
Was the shadow of the demon
He could never face.

He built a wall of steel and flame
And men with guns to keep it tame
Then standing back he made it plain
That the nightmare would never ever rise again
But the fear and the fire and the guns remain.

It doesn't matter now it's over anyhow
He tells the world that it's sleeping
But as the night came round I heard
It slowly sound
It wasn't roaring, it was weeping
It wasn't roaring, it was weeping.

And then one day the neighbours came
They were curious to know about the smoke and flame
They stood around outside the wall
But of course there was nothing to be heard at all
"My friends," he said, "We've reached our goal
The threat is under firm control
As long as peace and order reign
I'll be damned if I can see a reason to explain
Why the fear and the fire and the guns remain."

It doesn't matter now it's over anyhow
He tells the world that it's sleeping
But as the night came round I heard
It slowly sound
It wasn't roaring, it was weeping
It wasn't roaring, it was weeping.

Say ah, say ah, say ah
Say ah, say ah, say ah

[Ladysmith's solo]

It doesn't matter now it's over anyhow
It doesn't matter now it's over anyhow

It doesn't matter now it's over anyhow
He tells the world that it's sleeping
But as the night came round I heard
It slowly sound
It wasn't roaring, it was weeping
It wasn't roaring, it was weeping.

Say ah, say ah, say ah
Say ah, say ah, say ah [to end]

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Hoje reinicio a leitura de "Um aprendizado ou o livro dos Prazeres". È uma obra de Clarice que me tocou muito este ano...Sinto que estou num momento que preciso re-aprender algumas coisas.

Desejo-me boa sorte.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Entre quatro paredes

Não adianta dizer que eu sou fatalista porque só vai me dar mais ódio.
Tem certas coisas que só acontecem comigo. Acho que já é do conhecimento de todos que na parede do meu quarto tem duas aberturas pra fora. Sim, caiu bem na cabeça da minha Land Lady de abrir dois furos na parede. Obviamente - qualquer ser humano imaginaria isso- quando chove, molha. Não restam comentários aqui.
Mas sim, eis que estou andando pelo meu quarto, à vontade como sempre, quando de repente, surge uma mão em uma das aberturas - ditas pra ventilação. Sim, uma mão. Um pedreiro, daqueles da reforma que não acaba nunca. Decidiram tapar os buracos. O infame está agora colando uns azuleijos para fechar as aberturas de fora pra dentro. Uma cena dantesca da qual jamais esquecerei.
Bem, depois que ele consegue tapar tudo, os azuleijos caem. Uma visão do inferno posso garantir.Enquanto eu escrevo ele está praticamente derrubando a parede do meu quarto.
Se tem uma coisa no mundo que eu tenho raiva é de construção. Minha casa em São Luís passou pelo menos metade da minha vida em reforma e no provisório para sempre.
De tanto ódio acendi um incenso. Veremos qual efeito tem sobre mim hoje.

Com tudo isso, ainda estou feliz ...é..a noite de ontem foi deveras agradável. Não tenho nada do reclamar.

É isso aí..no foolish games.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

A Pessoa Errada

A Pessoa Errada

Pensando bem, em tudo que a gente vê, e vivencia, e ouve e pensa,
não existe a pessoa certa pra gente

Existe uma pessoa que, se você for parar pra pensar é, na verdade a pessoa errada

Porque a pessoa certa faz tudo certinho

Chega na hora certa,

Fala as coisas certas,

Faz as coisas certas,

Mas nem sempre a gente tá precisando das coisas certas

Aí é hora de procurar a pessoa errada

A pessoa errada te faz perder a cabeça

Fazer loucuras

Perder a hora

Morrer de amor

A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar

Que é prá na hora que vocês se encontrarem

A entrega ser muito mais verdadeira

A pessoa errada, é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa

Essa pessoa vai te fazer chorar

Mas uma hora depois vai enxugar suas lágrimas

Essa pessoa vai te tirar o sono

Mas vai te dar em troca uma noite de amor inesquecível

Essa pessoa talvez te magoe

E depois te enche de mimos pedindo seu perdão

Essa pessoa pode não estar 100% do tempo ao seu lado

Mas vai estar 100% da vida dela esperando você

Vai estar o tempo todo pensando em você

A pessoa errada tem que aparecer pra todo mundo

Porque a vida não é certa, nada aqui é certo

O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, cada segundo,

Amando, sorrindo, chorando, emocionando, agindo, querendo, conseguindo

E só assim é possível chegar àquele momento do dia

Em que a gente diz: "Graças a Deus deu tudo certo"

Quando na verdade, tudo o que ele quer

É que a gente encontre a pessoa errada

Para que as coisas comecem realmente funcionar direito pra gente

Nossa missão:

Compreender o universo de cada ser humano, respeitar as diferenças, brindar as descobertas, buscar a evolução.

Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas...

Luis Fernando Veríssimo

domingo, 19 de novembro de 2006

Para o Norte

E ele corria. Corria...corria...corria para o Norte. Observava as formigas; inquieto, pensava que talvez não fosse dar conta de levar aquilo até o fim. Continuou correndo—não queria pensar em nada—correr sempre o ajudou a manter a mente sã, atenta e alerta. Esta noite teve um sono enquanto corria, sim, porque nunca parava de correr. No sonho era como se estive em um templo, uma igreja. Eram tantas pessoas, parecia que ele já conhecia o lugar: bem iluminado com centenas de velas. Uma senhora gorda olhava para ele alegremente. Um sacerdote vinha em sua direção e lhe falava que conduzisse a reunião. Ele, sem saber o que fazer, tomou um livro na mão. o livro era o microfone. Tinha o lugar certinho de ser falar, logo perto do código de barras. Agora que fazia força pra se lembrar do sonho, bem que lhe parecia que o livro que segurava era essa coletânea de artigos do Pasquim. Achou que fosse. De qualquer forma falava à congregação através livro. Achou tudo aquilo muito desconfortável e pediu um microfone. A moça que cantava ao seu lado disse-vou pedir pra mudar pra 180, porque a freqüência ficar melhor e você não precisa ficar fingindo nada né? Ele não gostou nada do tom da menina. Começou a cantar uma música que não conhecia, algo como –“enche está casa com tua glória, enche...enche”.

Esse foi o sonho. Nenhum significado aparente. Mas, ele não tinha tempo para ficar pensando e decifrando sonhos. Ele tinha que correr. Correr e correr. Sempre para o Norte. Sim! As formigas. Ficava observando como elas paravam umas em frente das outras; sussurravam , pareciam dizer algo e a outra continuava. Alguém lhe disse que é assim que elas se comunicam—trocam substâncias, algo como comunicação química. ----Ah! À merda essas explicações! Que coisa! Falou com raiva mesmo. –Esse povo não se conforma de inventar explicação pra tudo. Eu acho que as formigas conversam mesmo. por que não? Se é química ou voz, qual a diferença. Eles só inventam isso pra dizer que as formigas são as formigas e os humanos são humanos. É um medo danado que a humanidade tem de se confundir com o Tudo.

É por isso que ele corria. Corria pra o norte. Já estava suado e suas roupas já gastas. Corria descalços, porque seu tênis não agüentou, deve ter ficado lá pra bandas do México. Não parava de correr. O clima já estava mais frio que o seu corpo descoberto pudesse suportar. Mas, ainda assim, não parou de correr. Correu até que suas pernas pediram arrego e lhe deixaram cai no chão frio. Ao cair, lembrou-se do sonho...Lembrou-se das formigas. Olhou para o Norte e neste momento, somente neste momento achou que não chegaria lá. Mas foi um pensamento rápido, desses que a gente tem ao acordar e logo se esquece. Deitado, não pensou mais que não conseguiria. Não tinha forças nem para andar. Olhou uma carreira de formigas que passeava ao seu lado. Elas conversavam entre si. Ele estava tão resoluto ao olhar para as formigas que não piscava. Estava tão cansado e queria tanto chegar ao Norte. Era tudo para ele. Foi por isso que correr tanto tempo. Seu coração já não batia tão forte, devia ser o frio. Mas não desistiu. Seu pensamento voou longe...volto ao sonho. Estava em frente à congregação novamente. A velha gorda já não lhe olhava com tanta alegria. O olhar agora era de uma comiseração venerada. Deixou-se cair em profundo sono, mas antes, olhou para as formigas, e , com esperança segredou: “ eu vou para o Norte..sim eu vou..nem que seja carregado pelas formigas”.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

visão do INferno.

Vou te contar....

A bosta da reforma aqui na casa ao lado não vai acabar nunca. E se a casa estivesse pelo menos ficando bonita eu até agüentava, mas não. Eu vejo aqui pela janela um tumor hediondo nascer bem perto de mim. O cara derrubou a casa toda—que alias era até simpática—pra construir um muquifo, aquilo que meu caro Diogo chamaria de o “ Arc bocó”. Um torre de observação de uns 6 metros de altura toda revestida de azulejo. Sim, porque desde que inventaram o azulejo o povo esqueceu os outros tipos de revestimentos. É azulejo verde minha gente, daquelas pastilhas! Um acinte è arquitetura...E olha que eu não tenho o mínio talento pra ser decorador, só bom gosto mesmo. Ricardo Bogéia teria um troço. Infarto no miocárdio na certa. Eu me esbaldo com esses imbecis que de uma hora pra outra acham que reformar a casa vai transformar o burucutu com quem eles casaram em uma linda mulher. O pior de tudo é a poeira. Eu acho que eu deveria ser indenizado. Eu não sei como ainda não morri de rinite com a quantidade de poeira que esses infelizes mandam pra dentro da minha casa.

Ah sim..e nem contei como a poeira entra. Minha casa tem dois buracos—diz que para ventilação— por eles passa de tudo. Ontem eu lutei com um grilo gigante que tentou me atacar. Antes de ontem foi o ataque dos besouros. Logo eu que morro de medo da doença de Chagas. Hoje vou falar com a inquilina pra mandar tapar essas merdas de buracos. Onde já se viu? Me esbaldo com essas idéias arquitetônicas cocô-de piriquito.

Eu to pensando em dá uma passadinha na praia. Mas ainda não fiz minha cabeça. Sabe lá Deus o que vou encontra lá. No último dia que fui, fiquei numa barraca de qualidade muito duvidosa recheada de mulheres untadas de blondô. Uma visão do inferno. Eu sei como vai ser o inferno:

Você vai acordar todo dia com pedreiros quebrando bem no seu ouvido e com milhões de mulheres estiradas na laje banhadas de blondô. O inferno é isso.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Everlasting God.

From The Inside Out
by Hillsong United
album: United We Stand (2006)

A thousand times I've failed
Still Your mercy remains And should I stumble again
I'm caught in Your grace
Everlasting
Your light will shine when all else fades
Never ending
Your glory goes beyond all fame

Your will above all else
My purpose remains
The art of losing myself
In bringing You praise
Everlasting
Your light will shine when all else fades
Never ending
Your glory goes beyond all fame

In my heart and my soul
Lord I give You control
Consume me from the inside out
Lord let justice and praise
Become my embrace
To love you from the inside out

Everlasting
Your light will shine when all else fades
Never ending
Your glory goes beyond all fame
And the cry of my heart
Is to bring You praise
From the inside out
Lord my soul cries out

sábado, 11 de novembro de 2006

vou de MAdre Tereza!!!

Um pausa nos contos e de voltas aos velhos tempos de destemperança e rancor.


Os bárbaros vêm de tudo o que é canto. Mas o lugar que eles mais gostam de invadir é o cinema. minha gente , eu não sei nem como contar o que esses ineptos fazem dentro de uma sala de cinema. Primeiro que escolhi sentar ( repare no movimento masoquítico) bem na frente de quatro adolescentes. O filme era Volver, de Almodóvar. Sinceramente eu não sei o que essas infelizes faziam vendo um filme desses. Em cinco segundos desvendei o grande mistério: as infames pensavam que o filme era uma comédia. Bem no meio do filme uma das infiéis pergunta pra outra: _ valha! Isso não era pra ser uma comédia—e pensar que eu tinha saído de casa pra ver um Almodóvar e dou de cara com essas traquinas!

Pelo menos não tinha nenhum gordo abrindo saco de plástico ou comendo pipoca—eu acho que pipoca era uma coisa que devia ser terminantemente proibida em cinema, mas isso é só eu. Muita gente acha que cinema é lugar de comida, eu acho desnecessário e perturbador as pessoas rasgando embalagens e mastigando pipoca no meio de um drama ou suspense—imagina como atrapalha? Demais. É uma merda.

Sabe qual é a verdade? Que quase não há pessoas interessantes no mundo. Essa baboseira de olhar o potencial de cara um ... e cada um tem um tesouro escondido dentro de si é conversa pra boi corno dormir. Isso não existe. Tem gente feia, chata, desinteressante, stressante, insuportável e demente no mundo. Tem gente boa e gente má. Gente superior e gente inferior. É fato minha gente.

Coisa intolerável, aliás, é este Iguatemi no sábado à tarde. É uma invasão de adolescentes infelizes e exalando hormônio pra todo lado. O cheiro é muito característico; é algo que só quem já foi professor reconhece: aquele cheiro de espinha com perfume importado é de matar. Eu pessoalmente detesto. Ainda mais eu que nunca fui adolescente, já nasci estragado; não precisei da adolescência pra estragar minha saúde mental: nasci entojado de tudo.

Fico imaginando os antipáticos que vão ler isso aqui e começar a tecer críticas e comentários cheio da mais repugnante compaixão: tadinho dele, é um infeliz. Pobre do Rafael..como ele foi ficar assim?

Aff, dá vontade até de morrer de imaginar esses miseráveis...nem tenho paciência pra imaginar a cena dantesca.

Invasões bárbaras é o sábado à noite e você sozinho em casa coçando ...isso sim é invasão. E ainda por cima saber que amanha de manhã uma trupe barulhenta de pobres pedreiros estarão quebrando a casa ao lado. Eu nunca vi uma reforma que não se constrói nada. há meses que os bestas quebram..hoje resolveram quebrar telhas...pensam que são gregos..não têm prato pra quebrar e quebram telha. É um inferno. Ir pro inferno é uma impossibilidade pra quem acorda todo dia ouvindo um quebra- quebra infernal desses...olha ..vou te contar...eu vou me fantasiar de Madre Tereza de Calcutá neste Carnaval!

terça-feira, 7 de novembro de 2006

sem alma ninguém te recrimina.

Esperança. Alguem muito especial sugeriu que eu escrevesse sobre esperança. Talvez hoje seja um bom dia para falar sobre o Esperar. Sobre a esperança que me dá paz. Deixarei de lado um pouco os contos por hoje ou será que não...acho que não.


...era como se sua alma estivesse pacata, santa e sem lutas. A luta tinha acabado . Tanta luta por nada- pensou em voz alta. Tanta luta e sacrifício de sua alma por alarmes inacabados e difusos. Sempre fora alarmada; vivia e ainda vive a vida feita de alarmes. Vive no assombro de cada momento- na iminência do catastrófico sobrevir ; destemida sempre vivera, insistia em viver. De sua insistência vampiresca tirava forças para acordar a cada manhã esperando pelo encontro com a Espera.

Espera inacabada também...tudo em sua vida era inacabado e gostava disso. Viver o inacabado era a única forma que encontrara para ter paz. Sentia que no fim tudo seria terrível. Hoje, por motivos que sabe, mas não quer contar, estava em paz. Como que renascida de uma longa hibernação. Hibernou para a morte e acordou feliz.

Sentiu que tinha a vida em suas mãos; como se de uma súbita tomada de consciência relembrasse o útero – paz divina de quem sabe que não pode morrer. De repente uma potência tomou seu ser: seria a vida a insistir novamente?

Não soube. Só sentia um renascimento espontâneo de uma nova chance para viver. Do inacabado fez o infinito- tomou o eterno pelo rabo e viajou sem limites...Fronteira do espaço entre si mesma e o fim de tudo. Deixou o tédio de lado...Sim, pelo menos hoje tentaria não gozar de sua melancolia..Haveria de ter novas formas de alegria. Sim, alegria pura, porque ser alegre é o máximo que se pode esperar da vida. Ser feliz é pretensão de ingênuos. Pretensiosa ela não era. Estar alegre era um brando alento para uma alma tão inquieta e volátil.

Sentiu sua alma fugir sem pressa...Correu como o vento corre..pra frente, para todos os lados...com força e sem rumo. Correu por cabelos por aí...Gente dispersa e errante...ventilou bocas e casamentos...sua alma foi e nunca voltou. Ela nem queria mesmo ter alma. Isso é coisa para atribulados- pensava com desassossego, pois não tinha certeza disso.

Sem alma e morta para a espera entregou-se ao Ser mais límpido que conhecia: seu corpo e sua conexão com o Eterno. Entrego-se sem reserva àquilo que não compreendia. Sentiu-se contente...um passo para se sentir alegre. Deitou-se mansa sobre a cama mal arrumada...acendeu um cigarro e fumou de uma vez.

_ sem alma ninguém te recrimina. Falou bem baixinho..sussurrando quase. Sossegada deixou o sono leva-la. Foi pra bem longe, para os sonhos aonde não era perseguida. Segui sozinha...foi um gozo sem tristeza. Fechou a boca e dormiu.

domingo, 29 de outubro de 2006

Dito

...E tenho dito. Do pronfundo clama um saber que ainda não sei que posso saber e não aplicá-lo.
é preciso assim, calar e calar profundamente. Eu não tenho forma e nem sou obrigado a ser nada.
tenho dito e nada deve ser lido.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

A continuar

Ela acordou, olhou-se no espelho e percebeu que já não esperava mais nada de si. Chegara ao fim de sua espera. Acendeu um cigarro e quebrou o espelho.
_ chega de reflexão.

...Atendeu o telefone e falou normalmente com o namorado. A mão direito sangrava...não ligou.....deixa pra lá- pensou em voz alta. Deixa pra lá porque o mundo é o que é , há pouco a ser feito e não tenhó pretensões revolucionárias. Nunca quis mudar nada- mas uma plástica bem que ajudaria. Ah merda! Mas já quebrei o espelho. Está quebrado e está consumado- acordarei feliz todo dia e toda hora porque não preciso mais ver nada ...já não resta necessidade de conferir carne com carne , sangue com sangue. Um mundo sem espelhos. Como seria perfeito. Mergulhar no grande energúmeno.

( a continuar)

domingo, 22 de outubro de 2006

Cada um para sua casa

Não se deve esperar nada da vida. Não se deve querer tanto.
não se deve amar demais, e nem mesmo querer amar alguém.
não se deve ter tanta esperança. o desespero precisa sempre andar ao lado , nos lembrando que nada na vida é esperável. que tanto o melhor como o pior podem acontecer.

não se deve abrir o coração pra nada. é melhor mantê-lo fechado enquanto ninguem o arromba.

Meu coração eu vou fechar..vou mantê-lo fechado até que alguem tenha coragem de arrombá-lo, eu mesmo , de bom grado prefiro fechar minha alma. Mantê-la aberta tem me custado muito.
Muito- custado tanto- demais meu Deus! Como me custa deixar a alma exposta! E como fechá-la se respiro pela alma? Há aqueles que respiram pelo pulmão - eu respiro pela alma. Sufocá-la seria mortal . Então , encontro -me diante de um dilema - sufocar a alma ou sofrer a cada respiração?
Não há solução para meu dilema.

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Então ela olhou pra ele e simplesmente disse numa voz cinza e leviana:
_ não te quero mais. Você é perfeito...mas não é perfeito pra mim. Obrigada. Desculpe e obrigada.

Ele parou sabendo que não havia nada a ser dito - estavam dominados pelo Desejo- nem ele , nem ela eram alguma coisa diante deste déspota. Era só o Desejo.

Se foram...se deixaram ir: cada um para sua casa.

sábado, 21 de outubro de 2006

come cru?

Ele caiu de podre . Xingou até dizer há chega. Só quebrou pratos e com os cacos cortava lentamente os pulsos com erotismo e fuleragem. Olhava ao redor só pra ver se tinha platéia; sonhava em trabalhar num circo. Achava a mulher barbada a coisa mais sexy. Uma vez aí sonhou que estavam os dois na cama- acordou antes do gozo. rapaz de azar esse. Mas hoje só queria morrer, e morrer bem lentalmente. Até porque já tinha morrido rápido outras vezes e não aprendeu nada com isso.
Definitivamente queria o patético e o bizonho. Foi cortando ..cortando e xingando . Só xingava sua mãe- aquele vagabunda dizia ele. Questões edipianas às parte , ele cortou de uma vez, nunca tinha paciência pra morrer devagar...por isso não aprendia nada.
Puta merda- foi tudo que disse ao morrer.
apressado come cru?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

você também é louca

...e tinha uma sala de aula que eu sempre ia lá ver as coisas. Não me perguntem por que, mas eu sempre ia lá... Sempre que posso ainda vou. A sala é pequena e fria, parece cercada por um muro alto e cheio de musgo. Os alunos... Ah, os alunos permanecem tão frios quanto a sala; estátuas de enfeite. O professor parece gostar da cena. Cada aluno canta uma canção maçante e paralisante. Algo como um meditar. As estátuas meditam. Estão paradas,mas ainda emitem luz.

Um quadro da sagrada família paira todos os dias sobre o grupo de alunos. O Espírito Santo, terceira pessoa santa, a iluminar toda a sala. O menino Jesus pergunta à sua mãe: - e estes alunos, que fazem eles aqui? O que quer dizer ser um aluno mamãe?

Ao que Maria docemente responde: - Eu não sei meu filho. Parecem estátuas. São belos. Emitem uma luz tão tênue, para mim, parece que querem dizer algo. Mas não sei se podem falar. Aluno. Filho, aluno é aquele desprovido de luz.

_ mas, mãe...Não entendo. Eles têm luz. Dá pra ver. Escuto uma música que sobe e vai além do que chamamos de infinito. Há vida e vida abundante em casa um dele. Não sei porque estão estátuas. Gostaria muito de saber, mas eu também não posso saber porque sou um quadro. Fiquei preso aqui e não gosto nada disso. Gostaria de sair, mas ninguém também me ouve...Parece ser algo recorrente nos humanos , não? Transformar aquilo que eles não entendem em estátuas e imagens? Acho que ninguém entende o grito rouco destes alunos. Ninguém entende o meu grito rouco. Acho que sou um louco, um louco devassado. Um louco do qual ninguém pode ter pena porque simplesmente não sabem que é louco. Só eu sei que sou louco, sabe mãe. Quando só você sabe de sua loucura fica difícil a convivência porque não há parâmetros para nada. os parâmetros são louco e bom. Quando essa linha não fica claro tudo fica sem muito sentido para os humanos. Você sabe muito bem disso – eles gostam das dicotomias. Eu que sou louco sei disso muito bem .

Você também é louca mãe. Você é louca quando acredita na luz desses alunos. Como poderemos chamá-los agora? Acho que irei chamá-los de " lumnos"- gostei do nome, soa bem, parece tão certo. o que acha mãe?

A virgem Maria agora olhava para o grupo de crianças logo abaixo deles...Lindas estátuas...Bem que poderiam ser leves e coloridos, mas eram pesadas e opacas. Ela não sabia mais o que via: estátuas e um professor no meio delas. Seu filho estava certa...Ela só podia ser louca.



quarta-feira, 18 de outubro de 2006

ESTAMIRA

"O imaginário é, existe"
"EU SOU LÚCIDA, CIENTE E CONSCIENTE... SENTIMENTALMENTE!"
Eu nunca tive aquilo que eu sou, Sorte boa."
(...) os inocente... Não tem mais inocente, tem esperto ao contrário. Esperto ao contrário tem.. mas inocente não."

"Tem o eterno, tem o infinito, tem o além, tem o além do além.. O além dos além vocês ainda não viram.. cientista nenhum ainda viu o além dos além."


"Vocês pensam que aprendem alguma coisa ne escola? Pensa que aprende alguma coisa na escola? Na escola vc não aprende nada não, VC COPIAAA!"



A culpa é do tracadilo...

Feio é o que fez e é o que faz...
Bonito é o que fez e é o que faz"

Eu sou ruim mas não sou perversa. Ruim. Não perversa!"


Estas são algumas fraes de " Estamira", uma mulher de 63 anos que morava num lixão no Rio de Janeiro. O documentário é algo que está além de qualquer coisa que eu possa dizer sobre ele. Estamira é um novo olhar; não há como sair do filme sem sentir que ser louco, na verdade, é ser louco ao contrário. Estamira prova que loucura é também sanidade. Ela prova que não há nada a ser consertado nesta vida. O filme me lançou de cabeça em algo que ainda não sei o que é; acho que terei que assistir novamente. Estamira me deu tantos significantes, psicanalíticamente falando, que mal sei o que fazer com todos eles. Acho que ela enlouqueceu por excesso de significantes- é uma grande verdade- Estamira é o sujeito suposto saber meu pai...

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Meu melhor lado

Hoje é o aniversário de Filipe meu irmão.

Como todos sabem o Filipe nasceu com micro-cefalia. Isso quer dizer que o cérebro dele é menor que o normal. Isso também quer dizer que ele é menos inteligente que a maioria.
Acho que é verdade tudo isso. Ele de fato é burro em comparação com nossa inteligência.
Filipe não conhece a esperteza humana; a falsidade pra ele é recuso dispensável. Filipe não conhece limites para o prazer- costuma declarar o seu amor quando quer e sente vontade. É livre e deixa isso bem claro. Não se priva de nada e detesta que os outros o contenham. Nasceu pra ser livre e com sua força faz questão de deixar isso bem claro. Sim, Filipe é burro.
Ele é burro porque detesta os jogos da vida. Odeia a mediocridade na qual todos concordam em viver...Às vezes ele decide andar nu e jogar tudo às favas! ah! Quem me dera andar nu um dia que fosse e não ter vergonha do meu corpo, da minha barriga , de tudo. Ser livre. Ser burro como Filipe.

É incrível como Filipe não pensa. Para ele não tem nada disso de falar o desnecessário: ele sempre vai ao ponto da maneira mais direta possível. E a raiva? Aquele murro que a gente morre de vontade de dá na cara de certas pessoas? Filipe não pensa, vai em frente. Garanto uma coisa: de cancer por causas emocionais ele não morre.

A inteligência de Filipe impede que a minha escreva algo sobre ele. Do ponto de vista da inteligência não há nada de especial nele. Agora ,para nós que vivemos com ele, Filipe é o que dá significado para a palavra especial. Amá-lo é saber que só é possível realmente amar alguem quando se ama Filipe. Amá-lo é experimentar o amor. Amar Filipe é amar alguem que talvez não compreenda o quanto o amamos e ao mesmo tempo continuamos amando. Amá-lo é amar alguem que não vai nos amar da mesma forma. Filipe ensina a amar de verdade.

Filipe é tão burro que ele não nos envolve no pobre jogo do amor: ele não troca amor por amor; não troca carinho por carinho. Para amá-lo é preciso amar sem esperar nada. Ele me ensina a amar. Amar ágapemente.

É por essas e outras que eu não posso deixar de agradecer a Deus pela vida dele. Filipe tinha que nascer. Eu não imagino minha vida sem ele nela. Eu não me arrependo do nascimento dele; e é por isso que posso dizer, sem mágoa e tristeza: feliz aniversário meu irmão querido. Você é meu lado burro - você é o meu melhor lado.

Amo você.

Do dito

Do dito