Era o início de verão. “ Como as coisas ficam espaçosas no verão”- pensou em voz alta. Talvez fosse a luz que deixava tudo tão amplo. A sensação de amplidão lhe dava náuseas, sempre ao acordar. E hoje não fora diferente. Sentia uma tontura selvagem que lhe roubava a vontade de levantar da cama. Pegou o telefone e discou o primeiro número que lhe veio à cabeça. Do outro lado um estranho atende do outro lado.
-- alô? Falou com voz rouca de sono.
--sim? Quem é?
-- você não me conhece. Mas estava pensando se você quer conversar. Acordei sonso. Acordei tonto e tontura me deixa susceptível a todo tipo de aventuras. E você, como acordou?
-- Eu não acordei. Como você tem meu número?
--Eu não tenho. Liguei ao léu...
-- eu não dormi ainda...Passei a noite em claro , Á procura de eu não sei o que. Mas a procura me cansou demais. Estou cansado. É como se esperasse por aquele motivo que me dessa vida outra vez; uma aventura que desse sentido a dor que sinto. Sem sentido é duro suportar dor, sabias disso?
-- É... Dizem por aí pela rua. Dizem que a vida dói. Eu não sei. Passo metade de minha vida dormindo e não sinto nada. Já estou começando a perder a capacidade de sentir asa coisas. Tem dias que acordo todo dolorido, outros que a vida passa por mim incólume, não sinto nada. Só uma pontada de ressentimento por ter a carne tão viva. Se, porque me sinto em carne viva. Sei que parece paradoxal que eu não sinta nada estando em carne viva, mas é que sinto outro nível se sentir.
-- Eu não entendi nada do que você disse. Mas também não me importo. Amanhã eu vou estar morto mesmo.
_morto mesmo? Ou morto só de pensamento?
--morto mesmo. Morto de morte que me vou conceder. Eu me concedo o dom da morte. Se a vida me foi dada como dom imerecido e não requisitado, em revolta, concedo-me a morte. É minha maneira de tomar o controle da minha vida: acabando com ela. Não suporto mais viver na precipitação do destino. Não me rendo, não me entregarei à morte acidental ou a alguma doença. Quero morrer porque decidi que preciso morrer, que a vida já não precisa mais ser vivida. Que as razões acabaram para viver. Eu mesmo quero decidir que já basta. Não tenho e nunca tive missão nesta vida. Morrerei quando assim o quiser. E quero que seja amanhã. Você é contra?
--- Se tem uma coisa que eu não sou é do contra. Já faz muito tempo que eu não luto mais com essas picuinhas do dia-a-dia. Discordar das coisas. Eu não discordo mais de nada. Guardo comigo minhas opiniões. Nada pior que uma pessoa cheia de opiniões. Eu já fui assim. Hoje em dia guardo comigo minhas palavras, a cada dia que passa sinto que falo menos. Não gostei da sua idéia de acabar com a própria vida, mas não quero e não vou explicar meus porquês.
- concordo. Você está certo. Mas morro amanhã mesmo. Vou desligar. Um bom dia. Qual seu nome mesmo?
--Cardoso. Meu nome é Cardoso. E o seu?
- Meu nome é Cardoso também.
Assustado sentou-se e desligou o telefone. Sentiu um ímpeto de ligar novamente, mas não conseguiu. Ficou sentado imóvel sorvendo aquele momento. Ele sabia agora que a sensação de familiaridade que sentia ao falar com o estranho era peculiar-dava-lhe uma sensação de eco. Passaram-se horas até que ele conseguisse sair da cama, mas saiu. E saiu para um amanhecer mais robusto, mais vivo, mais cheio de bossa. Era um novo dia, sua vida era uma bossa nova – densa, dramática, triste, porém com uma tenra esperança forçosa que se impõe sobre um coração melancólico. Decidia viver. “ Viver apesar de”.
-- alô? Falou com voz rouca de sono.
--sim? Quem é?
-- você não me conhece. Mas estava pensando se você quer conversar. Acordei sonso. Acordei tonto e tontura me deixa susceptível a todo tipo de aventuras. E você, como acordou?
-- Eu não acordei. Como você tem meu número?
--Eu não tenho. Liguei ao léu...
-- eu não dormi ainda...Passei a noite em claro , Á procura de eu não sei o que. Mas a procura me cansou demais. Estou cansado. É como se esperasse por aquele motivo que me dessa vida outra vez; uma aventura que desse sentido a dor que sinto. Sem sentido é duro suportar dor, sabias disso?
-- É... Dizem por aí pela rua. Dizem que a vida dói. Eu não sei. Passo metade de minha vida dormindo e não sinto nada. Já estou começando a perder a capacidade de sentir asa coisas. Tem dias que acordo todo dolorido, outros que a vida passa por mim incólume, não sinto nada. Só uma pontada de ressentimento por ter a carne tão viva. Se, porque me sinto em carne viva. Sei que parece paradoxal que eu não sinta nada estando em carne viva, mas é que sinto outro nível se sentir.
-- Eu não entendi nada do que você disse. Mas também não me importo. Amanhã eu vou estar morto mesmo.
_morto mesmo? Ou morto só de pensamento?
--morto mesmo. Morto de morte que me vou conceder. Eu me concedo o dom da morte. Se a vida me foi dada como dom imerecido e não requisitado, em revolta, concedo-me a morte. É minha maneira de tomar o controle da minha vida: acabando com ela. Não suporto mais viver na precipitação do destino. Não me rendo, não me entregarei à morte acidental ou a alguma doença. Quero morrer porque decidi que preciso morrer, que a vida já não precisa mais ser vivida. Que as razões acabaram para viver. Eu mesmo quero decidir que já basta. Não tenho e nunca tive missão nesta vida. Morrerei quando assim o quiser. E quero que seja amanhã. Você é contra?
--- Se tem uma coisa que eu não sou é do contra. Já faz muito tempo que eu não luto mais com essas picuinhas do dia-a-dia. Discordar das coisas. Eu não discordo mais de nada. Guardo comigo minhas opiniões. Nada pior que uma pessoa cheia de opiniões. Eu já fui assim. Hoje em dia guardo comigo minhas palavras, a cada dia que passa sinto que falo menos. Não gostei da sua idéia de acabar com a própria vida, mas não quero e não vou explicar meus porquês.
- concordo. Você está certo. Mas morro amanhã mesmo. Vou desligar. Um bom dia. Qual seu nome mesmo?
--Cardoso. Meu nome é Cardoso. E o seu?
- Meu nome é Cardoso também.
Assustado sentou-se e desligou o telefone. Sentiu um ímpeto de ligar novamente, mas não conseguiu. Ficou sentado imóvel sorvendo aquele momento. Ele sabia agora que a sensação de familiaridade que sentia ao falar com o estranho era peculiar-dava-lhe uma sensação de eco. Passaram-se horas até que ele conseguisse sair da cama, mas saiu. E saiu para um amanhecer mais robusto, mais vivo, mais cheio de bossa. Era um novo dia, sua vida era uma bossa nova – densa, dramática, triste, porém com uma tenra esperança forçosa que se impõe sobre um coração melancólico. Decidia viver. “ Viver apesar de”.
Noto que Lispector inspirou a dor, a vivencia e não é somente pela lembrança na frase... mas o conto tem uma marca inconfudivel... a sua intensidade e sutil ironia com a vida... Um grande beijo
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