
Era insólita a noite sem luar. Fria e de uma espessura disforme que percorria as nuvens avermelhadas pela luz da cidade. Sentiu-se impotente perante àquela visão. Foi pro quarto aturdido pela falta de opções. Estar nas mãos de um outro é dor aguda, mas fugir disso seria desleal. Ele escolheu não fugir. Mas que não gostava nada disso era certeza lacerante. Sentou-se à mesa para escrever algo. Os papéis pareciam folhas frias que lhe desferiam golpes humilhados – escrever era mais uma fuga. Fuga de se estar nas mãos de um outro. Esta noite queria poder rasgar o outro – mandar tudo às favas e morar numa cabana solitária nos Andes. Fantasiou como as montanhas seriam graves e majestosas: escritor e cenário – juntos em companhia silenciosa. Pensou que só veria animais silvestres perdidos por entre as árvores, nada amistosos, só olhando de longe. Cansou também da fantasia. Queria o real do Real mais ardiloso. Ouvia um fado triste-apreciava uma tristeza ressentida das noites de domingo. Um sentimento fino de que algo poderia nunca acontecer. Nunca. Nunca acontecer. “Eu só conheço esse caminho do paraíso”. Cantou a voz chorosa de Portugal. O CD de fado era um presente de uma amiga sua – uma que ele acha que é bruxa-bruxa do bem. Paraíso ele não sabia se existia. Já dizem que o Inferno é aqui. Mas que Inferno bom—pensava ele. O Inferno na cabeça dele será sofrimento sem fim, a vida pra ele era dura, mas com intervalos de alegria. Porque felicidade pra ele é adjetivo. Não conhecia felicidade por nome, só por adjetivo. Sempre que ia à praia pensava : - que mar mais felicidade! A areia está uma felicidade! Gostava de mudar as coisas assim.
Começou a escrever--------------------
“....chama alguém pra falar comigo. Chama o corpo de bombeiros se for preciso. Mas não me deixe ficar só nesse vácuo. Rola solta minha indignação com os patos..para onde vãos os patos no inverno? Não sei . só sei que roubo essa dúvida de um Outro. mas que mania mas revolta de assumir um compromisso que não é meu? Doce é a vida...amargo sou eu”.
Deixou cair o lápis e deitou o rosto sobre o papel... Sentiu o cheiro do grafite. Queria poder ser citado um dia. Era um orgulho que não acabava. Pensou naquele momento que só ele podia dizer-se. Ninguém mais. Nunca. Nunca iria acontecer. Ele sentia que sua sina era essa mesmo—correr do impossível, mas só a ele amar. Uma fuga enigmática à procura de um fado explicável, todos eles lhe eram insensatos. Adormeceu sozinho. Ao redor a sala parecia falar-lhe, melhor, sussurrar. Os móveis segredavam confissões copiosas de um poeta esquecido. “Nunca... Nunca... Nunca poderá acontecer”. Com o tempo toda sala gritava de cálido desespero—“ nunca..Nunca...Nunca...nunca...o sentimento nunca pode ser escrito”. Na neutralidade da madeira havia mais sabedoria que em sua filosofia.
Louco, levantou-se e foi dormir. Conversou um pouco com a cama, deu boa noite ao travesseiro e dormiu ouvindo estórias de ninar contadas pelo abajur. Dormiu tranqüilo. Sem sanidade parecia sentir novamente.
Platão já disse que Cada um de nós é como um homem que vê as coisas em um sonho e acredita conhecê-las perfeitamente, e então desperta para descobrir que não sabe nada. Então o que resta além do que uma cabana solitário no Andes?// Se bem q acho q em dois dias lá, um outro outro seria criado... o q resta é a insanidade. assim é mais fácil ser SER. Conto fantastico. Na minha opinião um dos seus melhores, por ser profundo, sensivel e muito REAL.
ResponderExcluirJanaina
"Um sentimento fino de que algo poderia nunca acontecer..."
ResponderExcluirSerá q existe alguém q não sente assim?? Tá certo q o sentimento nunca pode ser escrito, mas às vezes chega-se perto...
tá cada dia melhor!! ;)
amanda