terça-feira, 27 de março de 2007

Lá donna è mobile




....Ela sempre encontrava forças pra superar sua irresistível vontade de implorar. Ela olhava ao redor e buscava um suporte. Suas lágrimas vinham inevitavelmente, até em filme de faroeste. Nada mais a surpreendia—a disposição dos móveis podia ser desarrumada; os papéis poderiam estar jogados sobre a mesa, como de costume. Mas mesmo assim ela decidiu que hoje o melhor era arrumar: colocar em ordem o cosmos através de pequenas mudanças, que senão imprescindíveis eram completamente terapêuticas. Como se suas mãos pudesses mandar um sinal diferente para o cérebro. A desordem interior era bem pior, difícil de ser arrumada; talvez impossível. “A necessidade lacerante de ser algo, ou mais precisamente, de receber algo—” um muito mais do que isso”, do que ela sempre recebeu. Sua insatisfação hoje era visceral. A fim de colocar pra fora tantos objetos, cujo apego já não fazia mais sentido, resolutamente começou a arrumar.

Começaria pela escrivaninha. Os papéis se acumulavam há mais ou menos umas duas semanas. Contas, guardanapos velhos, papel de presente, maços de cigarros não fumados e um cinzeiro amarelado. Antes de arrumar lançou um olhar perturbado sobre os objetos na mesa e não pôde deixar de sentir desânimo ao pensar que seria melhor deixar tudo do jeito que está- que sempre esteve.

Passou para a sala. Ligou o cd player e deixou tocar “ la donna è móbile”. Ao som da La Traviata recolheu livros, pratos jogados ao pé do sofá, roupas por sobre o sofá e restos mortais de fotografias rasgadas- tentativas suicidas mal sucedidas.

Enquanto passava para cozinha repetia pra si: “amo tranqüilo... amar tranqüila... ame tranqüila”. Lembrou-se de suas lições de catequese nas quais aprendera que não se deve orar com vãs repetições....haveria alguma lógica espiritual em repetir para entender? Não saberia dizer. Melhor seria ficar com a arrumação.

Passou para o guarda-roupas. Separou roupas pelas cores e usos. No fim de tudo o guarda-roupas era uma visão clara, organizada e colorida de seu cotidiano. Gostou do resultado. Sentou-se na cama, acendeu um cigarro e fumou tranqüila até sentir sono. Sua mente agora, menos tensa e mais conformada, podia perceber as nuances de suas exigências para com a vida. Sempre quisera muito; tudo sempre fora pouco ou menor do que ela mesma. Em sua fantasia ela parecia estar assentada em um trono alto e soberbo; seus súditos estenderiam suas roupas a seu bel prazer para que desfilasse. E mesmo que sua experiência não confirmase essa doce ilusão, ela permanecia exigindo da vida serviço.

Levantou-se da cama e trocou a música. Colocou “ O que é o que é” de Gonzaguinha. Mirou-se no espelho e viu seu rosto esboçar felicidade—abraçou o primeiro rompante e dançou descompassada, sem vergonha ou exigência. Gozou por um minuto de uma alegria não dissimulada, não durou muito, mas durou o suficiente pra fazer com quem sua fome esvaísse por entre os dedos dos pés. Dançou por todo o quarto. Dançou tanto que derrubou o espelho que se quebrou em dois pedaços, derrubou roupas no chão, bagunçou a cama e derrubou uns dois quadros. Dançou e dançou até a música alagar toda sua alma. Dançou na lama e em uma bagunça interior que jamais experimentara. Dançou Gonzaguinha como se ouvisse sua voz:

---“...a vida devia ser bem melhor e será... eu só sei que confio na moça ,E na moça eu ponho a força da fé Somos nós que fazemos a vida, Como der ou puder ou quiser”

2 comentários:

  1. sempre tenhu preguiça de arrumar meus papeis, mas qdo faço..prefiro placebo a la traviata

    abraços belo texto

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