"...Mire e veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. para isso é que o muito se fala?"
( Grande Sertão: Veredas)
O restaurante estava lotando. O lugar não era de primeira, mas as pessoas pareciam satisfeitas, cada um se divertindo como podia. A música ajudava montar o clima---clássicos do brega brasileiro eram tocados por uma daquelas bandas iniciantes; o público não se importava, cantavam empolgados com tristeza renovada. A conversa era barulhenta e insistente. Um grupo de mulheres, já com seus cinqüenta anos nas costas dançava atabalhoadamente com copos de cerveja nas mãos. Logo ao lado uma senhora de chapéu azul bebia e acompanhava a música cantarolando, entre um gole e outro, as letras misturadas. De tempos em tempos ela lançava um olhar confiante e debochado para um rapazinho que almoçava com os pais. O rapaz não se continha em seu desconforto – o olhar feminino lhe penetrava como uma ameaça provocante. Ele não retribuía o olhar, pelo menos nunca de propósito, somente o suficiente pra fingir que não estava percebendo a paquera.
Em meio a toda movimentação de domingo de praia, ninguém notava um garoto que esperava seu almoço junto com a família. Uma menina que aparentava ser sua irmã lia com desinteresse o jornal do dia; a mãe, sempre calada, mastigava algo que não se sabe o que; o pai usava uns óculos escuros pra lá de démodé, também nunca abriu a boca pra falar. A família apreciava ficar em um silêncio angustiante, daqueles que sempre temos a impressão que alguém quer dizer algo: um barulhinho de nó na garganta que se ouve nos silêncios combinados. Era isso mesmo. Facilmente se podia ver que eles combinaram há muito tempo deixar o nó na garganta; aquela fala áspera que se ouve nos movimentos pesados e bruscos de quem grita com a pele. A família inteira gritava com a pele. O maior nó de silêncio parecia ser do garoto. Ele não podia ter mais que dezenove anos, mas tinha um peso de uma idade que se disfarça para não ser achada – uma idade adoecida. Usava preto e carregava uma corrente prata no pescoço. Ele passava maior parte do tempo com a mão direita segurando o queixo. Coberto por um ar de carência curtida em mãos alheias, ele esperava o almoço chegar. Seu olhar atravessava a multidão; perdido num ponto isolado lá fora, como um reflexo longínquo de sua alma. Ao redor os garçons iam e vinham no baile das bandejas. Vez por outra ele acompanhava um deles com olhar furtivo, mas logo voltava a se concentrar em seu nó. Cada membro daquela família tinha que guardar com muito cuidado o seu --- ninguém gostaria de ver um nó se desfazer em público; seria humilhante, muito claro, muito amplo: um nó é uma coisa que fala e que, só ás vezes, se escreve.
O garoto continuava olhando ao longe. Quem o observasse poderia sentir certa coerência lógica entre as músicas que tocavam e a expressão fugida do garoto. Seus finos braços continuavam sustentando com firmeza seu queixo que pendia. Seus olhos cantavam um pedido lânguido, porém insistente. Era como se uma ausência comprimisse seu corpo – ele se remexia na cadeira, procurando um lugar na saudade. Aos poucos o barulho, as danças e os garçons arrefeciam frente à força do seu nó. Caminhando agora em um mundo pacífico, mas monótono, o garoto perdia a suavidade no olhar tentando mostrar-se contente. Queria parecer faceiro para disfarçar o silêncio que devia carregar---lhe fora passado de pai pra filho, não poderia falhar agora. Manteve uma empáfia vigorosa até seu pai pagar a conta e os libertar. Seu olhar voltou a se fixar no ponto distante quando se levantou; o balanço de seu corpo falava de sua carência curtida e de sua força para mantê-la quieta. Antes de sair passou no banheiro e olhou-se no espelho. Gostou do que viu---tudo ainda estava lá. Saiu do restaurante deixando pra trás o salão barulhento que dava música a tantos outros nós que foram desatados.
Adorei isso: "um barulhinho de nó na garganta que se ouve nos silêncios combinados."
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