Onde eu estava com a cabeça que deixei meu centro ir para as beiras? Onde eu estava com a cabeça quando desconfiei de mim mesmo? não há certeza melhor e maior do que si mesmo.
Onde estava meu centro quando eu fugi de mim mesmo e me deixei cair em braços de ignomínia? Quando acreditei na falácia dos semi-deuses? Onde estava meu cérebro quando me conformei com este mundo? “ não vou conformeis com este século”. São Paulo era muito sábio...burro sou eu. Um burro inteligente que pensa que, em algum momento, pode ser burro. Não se pode. Eu não posso. Sou eu mesmo!
Quando esqueço que sou eu mesmo; que não posso ser nada além de mim mesmo. quando esqueço que eu mesmo posso ser desejado por mim mesmo e por um outro mim mesmo.....difícil de entender? É isso mesmo. Volta sensata ao dadaísmo, de onde nunca deveria ter saído. Haaa.....! ser o que se é . mais difícil que mudar. Mas só quero mudar se for para ser o que eu sou . “ Eu mesmo, a charada sincopada que ninguém da roda decifra!!”.
Álvaro de Campos
Sou Eu
Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
eu jamais haverei de ser outro, além de mim...
ResponderExcluire no meu momento bem nina simone:
"Man I can understand how it might be Kinda hard to love a girl like me..."
amanda :)
Perfeito!!! Bem vc, só vc. Bj, Ilka
ResponderExcluirNisso vejo que vc está se tornando o que é... lindo texto, realmente inspirador. Bjs
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