sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O gato


A luz da noite parecia terna hoje; nada irritável como de costume. Na rua um gato solitário passeava sozinho. Respirava estreitamente à procura de seu destino certo; ele era preto e todo mundo sabe que gato preto dá azar – ele sabia disso – era negro de alma também.

Seus passos eram trôpegos, mas sempre sensíveis a sua sina: de forma alguma ele era insensato. Caminhava solenemente como quem vai ao cadafalso. Seus ossos já carcomidos pela idade ainda doíam do dia anterior--um Corcel preto passou perto de atropelá-lo, as costelas lhe roubavam o fôlego. Andava simplesmente triste e desvairado, misteriosamente começava a aprender a se resignar aos fatos inevitáveis da rua: a dureza das calçadas; o temor das sarjetas mal habitadas; ratos corajosos ávidos por sangue; a crueza daqueles que passam – a rua tem um coração de metal.

O gato desfilava no meio da rua; a esta hora os carros dormiam, ele era o rei da avenida. Estava certo que seu desfile teria um efeito arrebatador sobre a gataria. Aqueles gritos nervosos e incertos da cambada no cio eram promessas de fertilidade – já se passaram anos desde a última orgia. Sua única preocupação era ser fiel ao seu fado. Fatalmente morreria hoje--na solidão de uma esquina vaga, de uma esquina abandonada por outro gato preto. Queria morrer solitário, sem piedade ou pieguice de qualquer marca. Queria morrer feito pierrô; ingênuo e sentimental.

Gato preto tem tempo certo pra morrer, não tem sete vidas como todos os outros; tem uma vida e esta quase sempre mal vivida. Sempre conviveu com gatos de outras cores que o olhavam com desdém, como quem olha para carne pouco vermelha, daquelas que deixam compradores em dúvida quanto a sua saúde. Ele nunca deixou de lado a mágoa, sempre cultivou o rancor da indiferença. A cor da pele marcou o tom de sua alma.

A madrugada avançava lentamente trazendo em seus ventos a perturbadora certeza: ele iria morrer hoje. Só e confuso. Queria morrer antes do nascer do sol. Seu plano era a morte sem doença e não observada. Era preciso ausência de luz. Nada de platéia. O choque deveria ser pela notícia. Bastaria alguém espalhar a notícia e sua alegria seria completa. A dúvida agora pairava sobre o método – como haveria de morrer? Seria uma morte dura, rápida e sem dor ou recheada de crueldade e sadismo? A platéia de certo que gozaria muito mais sensualmente com o sadismo expresso do que com a agressão dispersa em metáforas complicadas. Pronto. Já estava escolhido. Seria brutal, visceral e marcante.

De plano em mãos, porém sem saber como executa-lo continuou vagando ao som de uma ópera distante. Do alto se ouvia a soprano cantar um lamento árduo. O gato perseguia seu plano cego – a rua vazia não lhe oferecia perigo, a não ser nas ruelas úmidas onde habitavam outros gatos. Os espectadores! Precisava evitá-los. Morte para ele pressupunha solidão—o espetáculo é o achado, e depois o funeral - pensava resoluto.

Repentinamente avistou uma alameda vazia. Entrou ofegante; a morte suspirava tons sangrentos... Seus ouvidos ardiam. Tudo aconteceu tão rápido, difícil da narrar. Do alto de um prédio, das escadas de incêndio, das sacadas abandonas; dezenas de gatos revoltos desceram em ataque voraz. A voracidade com que devoravam sua carne deixaria perplexo qualquer expectador. Ele morria agonizando. A dor maior era que, não só tinha a tão repudiada platéia, como era ela mesma que o devorava risonhamente. O espetáculo era sórdido e sádico como ele planejara, mas lhe fora roubado o direito de executá-lo. Morreu frustrado e louco. Seu plano não se consumara.

Os gatos fedidos agora saíam em procissão imponente, felizes e satisfeitos: tinham cumprido sua meta , o plano dera certo: mataram um gato preto.

2 comentários:

  1. E os gatos sempre rotornam ao seu blog...
    Tá na hora de mudar de anima, quem sabe um suricate, uma minhoca, uma tartaruga ou um ursito polar!!

    D. Minhoca

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  2. Gatos, pretos, pardos, brancos... Só tenho gatos pretos ou porque morrem ou por que inspiram a eternidade, o mistério, o medo. Não de dentro, mas de quem os observa de fora, de longe e pensa que seu dono tem poderes mágicos, é uma mago. lubrico66@hotmail.com

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