terça-feira, 9 de outubro de 2007

Vai, Carlos! Ser gauche na vida



No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no mei do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

Hoje em uma de minhas aulas ouvi uma colega criticar os poetas porque alguns poemas não fazem sentido, e que, basta ter fama que se pode escrever o que quiser. Obviamente que discordei prontamente e decidi homenagear Drummond ( já que elas citaram expressamente este poema como " enrolação") com o post de hoje. Imagino que as únicas pessoas que podem dizer que este poema é uma enrolação são aquelas que nunca tiveram uma pedra no meio do caminho. Além do mais, mesmo que o poeta ás vezes se engane, é mais uma prova de que na tentativa de dar sentido à existência, sempre haverá uma pedra no meio do caminho. Quem sabe até o poema não faça muito sentido e termine sem terminar; mas não foi porque Drummond queria " enrolar" ou porque ele não tivesse nada melhor pra dizer mas, simplesmente porque apareceu uma pedra no meio do seu caminho. Acerto ou erro de Drummond eu jamais aceitarei que alguém diga que este poema é uma "enrolação". Enrolação é covardia e não há nada covarde sobre este poema, pelo contrário ele foi muito corajoso ao expor sua inadequação perante a vida- inadequação esta que é de todos nós quando somos conclamados a dizer algo sobre o "indizível" e nos deparamos com a pedra no meio do caminho. Tentar encontrar um (1) sentido para um poema como este é beirar a loucura. Na poesia, e neste em específico, estamos no registro não de um (1) sentido , mas do duplo sentido, da metáfora. Mas realmente é pedir demais que todos compreendam isso facilmente. A repetição na linguagem está exatamente firmada no duplo sentido, e como tal , o que para alguns é genialidade, para outros é “ enrolação”. o próprio Drummond ao comentar sobre o frenesi que seu poema gerou nos meios intelectuais da época disse:

"Entro para a antologia, não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais".

A ignomínia da tal colega de classe causou tanta angustia em mim que me lancei a pesquisar sobre outros poetas que utilizaram o mesmo estilo. Deparei –me com o Canto Noturno de um pastor errante da Ásia, composto por Giacomo Leopardi publicado em 1831:

Por que estes ares infinitos, este
Infinito profundo, sereno, esta
Imensa solidão? e eu, que sou eu?

Muitos outros séculos antes Petrarca escreveu: "Tra la spiga e la man qual muro è messo?", o sentido do verso é mais ou menos este:“ No momento em que tudo parece estar obtido, surge inesperadamente um obstáculo de permeio”.

Quero terminar minha simples apologia dizendo o que eu disse a minha ingênua colega:
A genialidade de um escritor é nos fazer pensar que aquilo que lemos nós também somos capazes de escrever, mas no fim, se realmente tivermos “ ouvidos para ouvir” perceberemos que nem em mil vidas seriamos capazes de escrever algo semelhante.

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no mei do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

4 comentários:

  1. a distancia do sentido a palavra, a moralidade da letra, o sentido descontruído da palavra, são tantos os desfazeres do poeta como diria Manoel de Barros, é preciso mais que razão e eloqûência para saber de poesia!

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  2. A beleza de uma poesia não está na linha escrita, mas nas entrelinhas não escritas.

    Nem todo mundo consegue perceber que entender uma palavra é reconhecer o silêncio entre elas.

    Abraço, cara

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  3. Sabe que a frase que eu amo é o "vida de minhas retinas tão fatigadas"... identifiquei-me totalmente. Isso aos 14 anos!

    A reação delas a este verso é natural, ou pelo menos o foi: em 1928 quando este foi lançando virou piada e era contado como tal.

    Drummond ficou muito tocado com a situação - como você bem apontou no post - e acabou lançando, 39 anos depois, o livro "Uma pedra no meio do caminho - Biografia de um poema", coletânea de críticas e matérias resultantes do poema ao longo dos anos. Que coisa, né?

    Talvez Leminski ajude você na resposta a tuas colegas:
    "O mundo não precisa de poetas. Mas ninguém vive sem eles".

    ----
    Ah sim... em especial na primeira fase do Drummond, ele foi muitíssimo influenciado pelos formalistas russos, que presavam a forma poética. Eles defendiam que fazer literatura (principalmente a poesia) era causar estranhamento com a palavra. O poema tinha que ser uma pedra no meio do caminho das retinas tão fatigados dos leitores.

    Acho que era só isso que eu queria dizer...

    Ah, sim: adoro Drummond e adorei a sua explicação-defesa ;)

    Beijos!

    ps.: vim aqui pelo blog do Aécio :)

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  4. hahahahha caraca

    Guimarrães Rosa e Lacan?

    depois de terminar estes dois eu até deixo você ler um Dan Brown... hahahahahaha

    beijos

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