terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Amar se aprende amando

Já era tempo de voltar a escrever. Ontem li uma reportagem sobre Clarice. É o lançamento de mais uma coletânea de cartas, desta vez, cartas que ela escrevia para suas irmãs- “Minhas queridas—é o nome do novo lançamento. Num dos trechos ela diz que necessita escrever; precisa escrever mais do que precisa amar. Gozado não? Parei por um tempo para pensar se isso ocorre comigo. Prefiro escrever a amar? Não sei ainda responder. Ainda acho que prefiro amar. Se escrever for um substituto para o amor, prefiro amar. Mas não acho que Clarice disse isso. Prefiro pensar que ela só escrevia porque muito amava. As cartas que escrevia para seus amigos quando morava fora do país, eram carregadas de amor, saudade, nostalgia. Ela escrevia porque a necessidade de amar era tamanha que, mesmo à distância ela encontrava uma forma de amar e estar em contato- as cartas. Conta a reportagem que um dia Clarice chegou ao ponto de ir ao cinema carregando uma das cartas que recebera de de suas irmãs no sutiã. Junto ao peito ela achou que teria sua irmã mais perto de si.
Penso que Clarice cometeu um pequeno equívoco ao dizer que escrever é melhor que amar. Na verdade, escrever é simplesmente mais uma forma de amar. Talvez seja por isso que minha inspiração tenha desaparecido por algum tempo- porque havia dado férias ao meu coração. Estão lembrados? Pois bem, achei que já era tempo de tirar o coração da gaveta, afinal de contas, a única coisa que amadurece nas gavetas é maracujá; e não existe a expressão “ coração de gaveta”. Para amadurecer, o coração precisa estar sempre fora- para fora- em direção a algo ou alguém. É preciso aprender a amar. Drummond tem um poema que se chama “ Amar se aprende amando”. Selecionei um poema que talvez seja emblemático deste novo momento.

Consolo na Praia

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

De "Amar se Aprende Amando"

3 comentários:

  1. “ Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
    Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
    E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”
    Cora Coralina

    ... incluir na minha coleção

    “O que importa na vida não é o

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  2. Coração é terra que ninguém vê

    Quis ser um dia, jardineira
    de um coração.
    Sachei, mondei - nada colhi.
    Nasceram espinhos
    e nos espinhos me feri.

    Quis ser um dia, jardineira
    de um coração.
    Cavei, plantei.
    Na terra ingrata
    nada criei.

    Semeador da Parábola...
    Lancei a boa semente
    a gestos largos...
    Aves do céu levaram.
    Espinhos do chão cobriram.
    O resto se perdeu
    na terra dura
    da ingratidão

    Coração é terra que ninguém vê
    - diz o ditado.
    Plantei, reguei, nada deu, não.
    Terra de lagedo, de pedregulho,
    - teu coração. Bati na porta de um coração.
    Bati. Bati. Nada escutei.
    Casa vazia. Porta fechada,
    foi que encontrei...

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  3. Preste atenção no que você mesmo diz: "Já era tempo de voltar a escrever." Será que escrever não é propriamente amar? Ou, o contrário, amar não é propriamente escrever? Amava porque muito escrevia, escrevia porque muito amava. "Para amadurecer, o coração precisa estar sempre fora - para fora - em direção a algo ou alguém." Já era tempo de voltar a amar. Abraço.lubrico66@hotmail.com

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