Tem dias que ficamos completamente sedentos; de uma sede inexplicável, seca e muito, muito torta. Algo dentro de nós aponta para lugares que nunca estivemos; todos eles muito nostálgicos que nos remetem a um tempo quando parecia que “ nunca sentiríamos fome outra vez”. É o que eu chamaria do sentimento Scarlett O´Hara. É quando fazemos promessas impossíveis e das quais não nos lembramos no dia seguinte. É exatamente nestes dias que estamos mais suscetíveis a paixões relâmpago; carinhos maltrapilhos e orgias do Desejo. É claro que as orgias do Desejo não se restringem ao sexo, mas justamente aos seus derivados: os excessos, os vícios—-as paixões que só servem, momentaneamente, para aplacar a saudade da gente mesmo .
Acho que encontrei as palavras. É saudade da gente mesmo.Em dias como hoje, várias lembranças surgem: um parente querido que se foi, e que você nem se dava conta que sentia falta dele; uma música que trás de volta bons momentos do passado; um choro que foi chorado com tudo que tínhamos e que deu a impressão que nunca mais choraríamos novamente. É um choro repleto. Talvez seja essa a questão—faz muito tempo eu não choro um choro pleno. Daqueles que deixam a alma mais limpa. As orgias do Desejo não resistem a um choro nostálgico... Daqueles que nos trazem de volta ao centro de nós mesmos. Aquele lugar onde sabemos exatamente o que precisamos e jamais nos submetemos a nada menos satisfatório. É o lugar onde as orgias do Desejo não nos alcançam, porque já sabemos do que sentimos falta.
Sentimos falta de um cheiro familiar; de um abraço despretensioso. De alguém que nos acolhe com satisfação. Sentimos falta de um lugar seguro onde não se precisa fingir o tempo todo que não temos necessidades que só um outro pode suprir. Sim, estou falando de um lugar onde realmente afirmamos aquilo que nos faz seres humanos: precisamos do afeto que só se encontra no outro.
Em dias como este...Sentimos tanta falta do toque e do olhar de um outro que faríamos tudo para tê-lo, e , ao mesmo tempo, sentimos tanto medo de pedirmos e não recebermos nada. E pedir e nada receber é uma das piores coisas do mundo. Talvez seja por isso que Cristo certa vez disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrarei, batei, e abrir-se-vos-á. Porque todo que pede recebe; e o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á. E qual de vós é o homem que, pedindo-lhe pão seu filho, lhe dará ma pedra? E pedindo-lhes peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas”.
Acho que Jesus já sabia em que tipo de sociedade estaríamos vivendo hoje, onde pedir é algo indigno e querer ser amado é demonstração de fraqueza. É por isso que gosto de Jesus: ele nunca tinha medo de que fossemos sempre humanos, mesmo que isso implique fraqueza, ou aparente derrota. Ele, acima de todos, sabia como ser grandioso, parecendo ser tão pequeno.
"Amanhã será um novo dia...", assim dizia Scarlett O'Hara, essa era a esperança! Mas, o quê de fato ela teria dito no dia seguinte? Seus versos(Rafael)? Seus sentmentos de quero colo(Rafael)? De fato não sei Rafael, pois a radicalidade que brota em mim atualmente me impede de ver a simplicidade de coisas aparentemente tão simples, tão singelas e singulares, que fico me indagando e pensando com G.H. e como G.H., se realmente a desitência é uma revelação e se a via-crucis não é um caminho, até porque, para G.H. "a insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio." Então, como sentir todas essas coisas, se a vida se me é. A vida se me é_ _ _ _ _ _ desse modo, parece que é a vida mais uma vez se manifestando, a vida estava à altura da vida. Abraço.
ResponderExcluir