domingo, 30 de dezembro de 2007

Feliz alma nova!



E lá vem um novo ano. Sei que é um clichê nojento, mas não consigo evitar dizer que o ano passou muito rápido. Acho que minhas pegadas andaram mais rápida que meus próprios pés. Fiquei olhando para trás tentando entender por onde andei e porque fiz tudo que fiz e não deu em nada. Fiz tudo que fiz, e andei por onde andei porque foi assim que foi. Não é destino nem providência divina, é que foi assim que aconteceu, e não podia ter sido diferente pelo simples fato de que foi como foi e como podia ter sido.

Com isso quero dizer que eu agi como agi foi porque eu não podia fazer de outra forma, ou porque não quis agir de outra forma ou simplesmente porque não sabia ser de outra forma. É assim que termino o ano sem culpa alguma. Certa vez ouvi de alguém que a culpa não serve para nada. É a mais pura verdade. Sentir-se culpado pelo que se fez ou deixou de fazer não nos ajuda em nada; não ajuda a mudar de atitude e nem gera arrependimento. Não sinto culpa por nada. Na verdade, sinto uma expectativa grande pelo novo ano que começa. Pressinto que um mar de oportunidades, escolhas, destinos e caminhos se abrem para mim. É assim com todo ano: não há nada programado, não há destino, não há absolutamente nem um plano traçado ou sina obrigatória. Tudo que há é da ordem da mais pura possibilidade. Como diz o ditado bíblico “ para Deus tudo é possível”. Sim. Tudo é possível porque Ele é a eterna possibilidade. Nele tudo é possível e está entregue em nossas mãos. É verdade que de tempos em tempos ele mexeu os pauzinhos e algo de milagroso cruza nosso caminho, mas não é sempre assim. Pela minha experiência vejo que Ele prefere ficar como um pai coruja que vê seu filho andar de bicicleta pela primeira vez—sabe que o filho vai cair, mas não o priva das muitas quedas que darão o tão sonhado equilíbrio. Ele vê de longe, de uma distância segura, mas longe o suficiente para fazer de nós seres autônomos, com força própria. Posso estar errado, mas acho que isso explica porque nossas orações são monólogos; exceto pelos fanáticos que dizem ouvir a voz de Deus.


Em 2008 cabe a mim fazer escolhas boas e, principalmente racionais. Quero tentar, ao menos uma vez na vida, usar minha razão para alguma coisa. Nunca deixarei de viver com paixão pela vida e por meus sentimentos, mas neste ano quero racionalmente ser intolerante comigo mesmo. Ontem disse para alguém que o título deste novo ano será O ano da intolerância. Na mesma hora esta pessoa me disse que eu nunca fui muito tolerante. Ledo engano. Sempre fui tolerante demais com tudo e com todos, especialmente comigo mesmo e meus desejos obtusos e masoquistas.

Mas, é interessante como chega um momento ( acho é que são os ventos de uma velhice que já anuncia cálidos porém certeiros agouros) em que cansamos de tolerar nosso próprio masoquismo e percebemos que, acima de tudo, todos merecem ser felizes, incluindo nós mesmos. Acho que estou chegando nessa nova era.
É com isto em mente que anuncio a chegada do Ano da intolerância para mim. É algo do tipo: ame-o ou deixe-o. alguns hão de concordar comigo que : tentamos ser bons para os outros e de nada vale; quando somos piores do que realmente somos, também de nada vale. Então, é preciso ter coragem de assumir que somos todos insuportáveis. Assumir que somente nós mesmos nos aceitamos como somos e que ninguém mais está disposto a nos suportar com tudo que somos e com tudo que sentimos. Esta é uma libertação sem par. Apesar de parecer uma entrada num mundo extremamente solitário, pelo contrário, continua sendo uma entrada solene no mundo das coisas possíveis.

Sendo como somos, sem tirar e nem nada acrescentar, corremos de fato o risco de sermos muito solitários. Ao mesmo tempo, temos a possibilidade de encontrar pessoas ( ou quem sabe uma pessoa) que goste do que veja ( viva à diversidade!) e estejam disposta a nos suportar por algum tempo. Não todo o tempo porque já sabemos que ninguém é capaz disso, mas ser suportado e amado por algum tempo já é alguma coisa. Mesmo que seja por pouco tempo seremos amados por quem nós somos e não por uma imagem mal feita e mal talhada de alguém que nunca fomos ou seremos.

Estimado público, é com muita honra que, em alto e bom som, anuncio o Ano da Intolerância. Não só para comigo mesmo, mas para com todos aqueles que tentarem tirar ou acrescentar uma vírgula na minha famigerada existência. Custou-me muitíssimo conseguir ser o que hoje sou e jamais permitirei que alguém ache isso ruim. Continuarei aceitando as posições contrárias e críticas de qualquer ordem, mas asseguro-me o direito de não levar em consideração nada que contradiga o que minha alma sempre soube. É. Durante 2007 sempre soube todas as respostas em minha alma, ainda assim, não resisti à tentação de buscar uma boba confirmação no outro. Por que? Quando sempre tive minha alma para buscar conselho e conforto? Nunca estive só. Sempre tive a mim mesmo, mas era como se estivesse adormecido entre densas brumas de insegurança.
Que venha 2008....Sem medo, com coragem e uma pitada de insanidade, sigo em frente..Eu e minha alma. Juntos, jamais sozinhos. Um fazendo companhia ao outro. Fazendo assim, espero que em algum lugar do caminho encontremos outra alma acompanhada. Cansei das almas solitárias. Elas são sedentas; vampiros de sentimentos. É como Caio Fernando disse uma vez: “ num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece a outra”. Faço votos de que neste novo ano eu e minha alma cruzemos com almas especiais...deixo as desertas para peregrinos mais inexperientes...

Feliz ano novo !

Rafael Pinheiro.

3 comentários:

  1. "Quero tentar, ao menos uma vez na vida, usar minha razão para alguém coisa."

    Ok...a sessão está encerrada!
    =D

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  2. Está dito. Só nos resta seguir em frente, o resto, bom o resto como diz o poeta: o resto é mar, são coisas que não sei contar...
    Reafirmo minha saudade e espero nos vermos em breve. Fique em paz!

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