Mal o natal se aproxima já começo a ouvir as velhas ladainhas de sempre—pessoas que dizem não gostar do natal por motivos diversos: “ como posso comemorar com tantas pessoas passando fome? Por que vou ser conivente com uma festa que não passa de uma fétida ode ao consumo?” . Blá, blá, blá. Todo ano é a mesma coisa. E todo ano eu manifesto o quanto gosto do Natal, ou como gostam de chamar os gringos “ The Holidays”. O Holiday envolve não só o natal, mas as festas de ano novo também. Bem, eu raramente acredito nessas desculpas que alguns amigos me dão do por que detestam tanto o natal. Até porque estes mesmo “filantropos natalinos” se esbaldam ou se esbaldariam no Reveillon se pudessem--muita cerveja e festa pela chegada de um ano novo. Algo que acho interessante é que o natal estimula um consumismo ao contrário. Vou explicar. O consumismo ao contrário é esta consciência-social-natalina, que só se manifesta nesta época do ano como uma espécie do retorno do recalcado social.
Normalmente algumas pessoas passam o ano todo com a sua consciência crítica um pouco pacificada, mas quando chega o natal cada um faz o que pode: sopão, doação de brinquedos, Natal sem fome, Natal feliz, etc e etc. Fora outras tantas intervenções sociais natalinas.
Entendam bem, não estou recriminando. Eu mesmo sou engajado em uma campanha de cestas básicas para o natal, no entanto, não o faço por culpa ou pela dita consciência crítica. Participo destas campanhas pelo mesmo motivo que não deixo de festejar o natal: aproveito a oportunidade para fazer laço. O natal não deixa de ser uma época do ano com um forte apelo simbólico, principalmente para o mundo ocidental-cristão. É a única oportunidade institucionalizada na qual todo o mundo pode parar e pensar um pouco em temas como solidariedade, família e comunhão com o próximo e com Deus ( para quem acredita, para os que não acreditam não é só o natal que não faz sentido, a vida toda fica um saco). Ainda que a sociedade do consumo tenha pervertido as festas e rituais de nossa sociedade, é preciso oferecer resistência.
Os rituais sempre foram algo importante para manter a civilização humana no que diz respeito aos laços sociais que a sustenta. É por causa disso que ainda me alegro quando chega o natal. A melancolia natalina, aquela tristezazinha que sentimos, para mim, é um leve bocejo de nossa alma que gostaria que os laços fossem mais estreitos; que as pessoas fossem mais tolerantes, que houvesse paz no mundo e oportunidades iguais para todos; e principalmente que os pais se voltassem para os filhos e os filhos para os pais. Então, por que calar esta data que nos faz bocejar? Não estou de acordo, ainda que respeite profundamente aqueles que acham o bocejo tão doloroso – cada um tem sua própria estória natalina--, mas para mim, o natal ainda é uma data especial. É no natal que revejo algumas pessoas que passo o ano todo distante; exatamente porque estou tão inserido num sistema que distancia as pessoas, mas que, como que por um efeito de tiro pela culatra, este mesmo sistema acaba nos reunindo, pelo menos uma vez no ano. Sei que para alguns, pareço soar reacionário, mas esta não é a idéia. Pelo contrário, estou falando de resistência. Os festejos de fim de ano não são uma invenção recente. A celebração das festas de fim de ano antecede o Cristianismo em cerca de 2000 anos. Tudo começou com um antigo festival mesopotânico que simbolizava a passagem de um ano para outro, o Zagmuk.
Para os mesopotânios, o Ano Novo representava uma grande crise. Devido à chegada do inverno, eles acreditavam que os monstros do caos enfureciam-se e Marduk, o seu principal deus precisava derrotá-los para a continuidade da vida na Terra. O festival de Ano Novo, que durava 12 dias, era realizado para ajudar Marduk em sua batalha. A tradição dizia que o rei devia morrer no fim do ano para, ao lado de Marduk, ajudá-lo em sua luta. Para poupar o rei, um criminoso era vestido com as suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto levava todos os pecados do povo consigo. Assim, a ordem era restabelecida. Um ritual semelhante era realizado pelos persas e babilônios. Chamado de Sacae, a versão também contava com escravos que tomavam o lugar dos seus mestres. A Mesopotâmia, conhecida como mãe da civilização, inspirou a cultura de muitos povos, como os gregos, que englobaram as raízes do festival, celebrando a luta de Zeus contra o titã Cronos.
Assim, repito cada cultura possui seus rituais que lhe dão certa estrutura de sustentação dos laços sociais que nos unem. Acabar com os poucos rituais que ainda existem em nossa civilização seria como minar aquilo que oferece, mesmo que de forma capenga, uma oportunidade de revitalizarmos a comunhão que faz de nós seres humanos.
Um feliz natal a todos!
Rafael Pinheiro.
Olha, Rafael, gosto do que você escreve, mas talvez, acredito, você devesse refletir um pouco mais sobre o que escreveu antes de ter publicado. Explico, sem provocações ou afrontas pessoais, longe disso: o que você chama de lamúrias pode ser algo como um assédio moral nos transeuntes desse mundo que não podem comemorar o natal da maneira que a TV impõe. Existem muitas subjetividades paras quais você fez vista grossa. O ato de presentear pode ser saudável para nós, por que temos pelo menos um cartão de crédito para fazer uma dívida, mas e quem não tem o que comer e, involuntariamente, sonha com uma Barbie e, no fundo, sabe que não pode tê-la? Imagino que saiba o que esse tom amargo dos pensamentos pode causar nos corações sofridos. Meu caso é diferente. Depois que meu avô faleceu, meus tios não esperaram o corpo dele esfriar para falarem em partilha. É com essas pessoas com quem quero confraternizar? Será por essas pessoas que ficarei ansioso para encontra-las? Veja, é um contexto diferente, bem diferente e mais complexo do que este do seu post. Não é lamúria, são posicionamentos morais. Tenho uma sobrinha de seis anos, bastante consciente do mundo no que já permite sua pouca idade, mas veja que não lhe tiro o direito de ter sonhos infantis. Já pediu para que eu postasse a carta ao Papai Noel. “Ele mora no pólo norte”, ela disse. Vou comprar a tal boneca, mas espero que um dia ela pense em quem não pode ter uma, assim como eu penso e dispenso presente de natal. Espero que ela pense, um dia, que natal não se restringe a bom vinho, peru, panetone e presentes. Eu mesmo sou daqueles que costuma enviar cartões às pessoas queridas (a você também, inexplicavelmente, pois o contato que temos é pouco). Adoro uma festa, mas acho que natal é bem diferente de ano novo. Que tipo de reflexão essas datas promovem nas pessoas? Comprar, comprar e comprar? Beber, comer, fofocar e depois dormir? Efêmero, não acha? Sim, de fato, é um belo ritual de reunião, de confraternização, do jeito que vale ser comemorado com quem se ama. Com quem se ama, entende? Então, veja que, minha preocupação com os excluídos não se restringe ao natal, mas veja, também, que no dia 24 fazemos o tal almoço porque sabemos que eles dão valor a essa data, inconscientemente, e ficarão um pouco mais felizes. Não tem pieguice ou qualquer coisa no meio. Mas é uma briga interna na minha consciência, muito mais complexo do que você tentou explicar. Eu amo o natal. Amo estar com minha mãe, irmão e sobrinha – minha família, unida e bem naquele exemplo cristão que você deve gostar. Contudo, aprendi que todos os dias nos permitem ter tais reflexões, mas, enfim, não conversamos o suficiente para descobrir em qual momento do ano as reflexões acontecem. Mas te asseguro, Rafael, não me acho louco ou desequilibrado por pensar nisso o tempo todo, todo o ano, cada segundo cósmico que tenho o privilégio de viver. São inquietações minhas e sei que estou longe de ser uma Madre Teresa de Calcutá, mas veja pelo menos, que você tem um amigo que se preocupa com o mundo, sem as ladainhas, lamúrias ou afins. E acho que isso faz uma grande diferença. Feliz natal e bom ano novo pra você também.
ResponderExcluirGuilherme Cavalcante
leia o artigo de novo até vc realmente entendê-lo
ResponderExcluirPois eh, eu tendo a nao ser muito tolerante com quem nao le as coisas.
ResponderExcluirNao ler as coisas cria situacoes em que uma essoa diz: "peras sao parecidas com macas". Ahi, a aoutra le e diz: "NAO! Na verdade, peras e macao sao similares!!"
Ahi eu pergunto: Ele discordou dizendo a mesma coisa?
Respeito a discordancias eh uma coisa, ter que ouvir duas pessoas discordando com a mesma opiniao...
Nao tem a minha tolerancia.
Poxa, mas por que tantas pedras na mão? Bem, depois disso, o que eu posso dizer... Mil desculpas por tentar me expressar. Feliz Natal a você, Diogo.
ResponderExcluirPêras, maçãs...
ResponderExcluirTambém machucam.
discutir com o Diogo é inútil, normalmente ele ganha. Já falei que vc, Guilherme, não entendeu meu texto. é preciso que eu diga isso. como disse diogo , sua crítica é pertinente para outra realidade..não ao que eu quis dizer. a questão não é de intolerância mas de epistemes diferente. sugiro uma leitura de outras esquerdas..essa esquerda já está desgastada, velha e obsoleta.
ResponderExcluirobrigado pelo comentário de todos.
mil vezez aff guilherme. eu imagino que em sua vida vc deva ter coisas mais importantes para ficar ofendido do que esta bobagem. não se affere a quimeras. aferre-se ao essencial. o texto não está confuso. :)
ResponderExcluirÉ, acho que você tem razão...
ResponderExcluirA propósito, não te desejei feliz Natal. Então... Feliz Natal!