Carnaval hum?
Eu gosto muito de comparar o carnaval a um estorinha bíblica. No tempo que os Israelitas viviam em meio a povos pagãos havia um povo chamado de Amorreus. Este povo adorava ao deus Moloque. Moloque é o nome de um antigo deus adorado pelos povos presentes na península arábica e na região do Oriente Médio.Segundo as escrituras os povos amorreus viveram por volta de 1900 a.C. Há quem diga que nos rituais de adoração havia atos sexuais e sacrifícios de crianças. Estas eram jogadas em uma cavidade da estátua de Moloque, onde havia fogo consumindoa criança viva. Ele era, ao mesmo tempo, um fogo purificador, destruidor e consumidor. A aparência de Moloque era de corpo humano com a cabeça de boi ou leão, no seu ventre havia uma cavidade em que o fogo era aceso para consumir sacrifícios. Bem, o que acontecia é que como as crianças eram oferecidas vivas havia muito choro e gritos horripilantes. Para evitar que as pessoas ouvisse o sofrimento das crianças eles tocavam os tambores freneticamente para abafar os pedidos agonizantes de socorro.
Eu sempre costumo comparar o Carnaval aos frenéticos tambores de Moloque. Por pura observação empírica mais da metade das pessoas que eu conheço que se entregam de corpo e alma à tal da folia carnavalesca sem grandes motivos aparentes para tanta festa. A questão não é se alegrar no carnaval, mas é a obrigação de, por quatro dias, ser feliz, exuberantemente feliz. Como diz Vinícios: “ A felicidade é como uma pétala de flor...a felicidade do pobre parece a grande ilusão do carnaval. A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho para fazer a fantasia de rei..pirata ou jardineira, para tudo se acabar na quarta-feira...tristeza não tem fim, felicidade sim”. Ou como dizia minha vó: “ alegria é mãe de choro”.
...e é folia por toda parte...começa com pré-carnaval...tambores de Moloque....depois o carnaval propriamente dito...mais tambores..todos tocando frenéticamente...abafando o som da realidade, dura e crua. Não desejo que todos vivamos imersos na melancolia que a vida nos tráz, mas é preciso cair na folia sabendo que a felicidade é como uma gota de orvalho que ao nascer do dia desaparece levemente sem deixar rastro. Não podemos nos iludir com o júbilo fugaz da folia de carnaval. Há uma diferença profunda entre alegria e felicidade, pelo menos para mim, ou se preferirem, entre alegria e euforia. A alegria é uma certeza profunda e uma segurança que parece brotar dos lugares mais desabitados de nossa alma; talvez a alegria seja o que Clarice chamou de “ viver apesar de”. Já a euforia normalmente é um sentimento bobo e, quase sempre, piegas. É o que o carnaval tenta fazer conosco: forçar algo que somente nos lembra vagamente que existe algo como a alegria na vida.
Por essas e por outras é que estou indo me isolar da euforia carnavalesca numa pequena vila na serra cearence. Estou levando dois companheiros de profunda alegria. São dois grandes livros que li recentemente: Niels Lyhne( Jacobsen) e De Profundis ( Oscar Wilde). Sinto que no clima ameno das montanhas a leitura de Niles Lyhne vai me trazer as mais profundas alegrias e a pasagem exuberante deve alimentar as mesmas alegrias que mantiveram o gênio de Wilde vivo durante dos dois anos de prisão.
Desejo um bom feriado a todos. Cuidado com os tambores de Moloque.
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