terça-feira, 29 de abril de 2008

Sabe quem é o meu amor: Você- Composição: Heckel Tavares


Amanhã é dia de Bethânie e Omara Portuondo. Eu não perderia por nada nessa mundo esse show. Ainda bem que os show não estão mais tão caros como era de costume. Assim, terei o privilégio de ver minha diva bem de pertinho.

Gostaria de presenteá-los com esta " New" music que encontrei recentemente, juntamente como outros bons e " novos " encontros que a vida nos propicia.

Você - Penas do Tiê
Composição: Heckel Tavares

Vocês já viram lá na mata a cantoria
Da passarada quando vai anoitecer?
E já ouviram o canto triste da araponga
Anunciando que na terra vai chover?

Já experimentaram guabiraba bem madura
Já viram as tardes quando vai anoitecer?
E já sentiram das planícies orvalhadas
O cheiro doce das frutinhas muçambê?

Pois meu amor tem um pouquinho disso tudo
E tem na boca a cor das penas do tiê.

Quando ela canta os passarinhos ficam mudos
Sabem quem é o meu amor?
Ele é você.

domingo, 27 de abril de 2008

Uma palavrinha sobre Cristo.




Domingo é um diazinho agradável para mim. Sempre que posso faço coisas que não posso fazer durante a semana, uma delas é ir ao culto. É uma experiência agradável, mas que também me desafia sempre a repensar minha fé e a instituição “igreja”. As crianças da igreja apresentaram uma pequena cantata sobre o que os evangélicos costuma chamar do “ plano de salvação”: desde o mito do Gênesis até a morte de Cristo. No meio da apresentação as crianças falavam sobre Jesus. Uma das coisas ditas foi que Jesus veio e morreu por nós e que através dele temos a solução de nossos problemas e felicidade.

Bem, disso eu não tenho dúvida. Ele de fato veio para salvar e trazer solução e felicidade, a questão é que os evangélicos nunca sabem o que falam. É a respeito deles que Jesus diz: “ Pai..eles não sabem o que falam”.A questão é que ele não veio resolver problemas—ele veio resolver O problema. Não é que ele veio eliminar nossas tristezas, ele veio eliminar A tristeza e trazer A felicidade, que com certeza não é como a conhecemos. Os cristãos temem tocar neste assunto. Fogem dele como o diabo da cruz: o problema que Cristo resolveu é de ordem existencial que, obviamente , tangencia toda nossa vida mundana ( mundana no sentido que um Merleau-Ponty traria à questão), mas que não diz respeito a questões meramente triviais. O maior problema do homem sempre foi da ordem da questão do que abrange sua existência e a existência de Deus. A existência de Deus afeta profundamente a existência do homem como aquele que só existe em referência a Deus. O problema do “pecado” é de tal natureza: um abalo nefasto na relação da existência do homem com a de Deus. O fato primordial é que Deus existe e que, o homem vive num plano de ex-istência em relação à natureza de Deus.

A obra redentora de Cristo é de uma magnitude muito maior do que a proclamada pela ingênua fé evangélica. Eles não só subestimam o problema como subestimam, e muito, a solução providência por Deus: que é Cristo em nós, a esperança de convergimos novamente com Deus. Essa convergência proporcionada pelo sacrifício de Jesus muda tudo, não só para nós como para todo o cosmos; mundo material e espiritual, já que a redenção diz respeito a toda criação. Por meio da fé no sacrifício redentor Deus reconcilia não só o homem, mas toda a natureza em uma possibilidade de um novo céu e uma nova terra.

Vemos assim, que o problema é bem maior ( e eu mal toquei nele de forma aprofundada). Ver que o problema é maior amplia nossa visão de quem é Deus, Cristo e nós mesmos. Só assim podemos ver brotar uma fé e um amor verdadeiro por Cristo—um amor que permanece apesar de. Apesar da vida, de nossas trivialidades e dores passageiras. A presença de Cristo conosco até o fim dos tempos é a certeza viva de que há uma esperança de que no fim tudo seja feito de novo. Novo.
Jesus não morreu para resolver nossos problemas e para acabar com nossa tristeza. Ele morreu porque sua morte era necessária para que todas as coisas convergissem naquele momento único no qual o Deus se fez Verbo, habitou entre nós, manifestou sua glória e foi feito sacrifício para que todo aquele que nele crer tenha uma nova espécie de vida. Isso é existencial. Além tudo é transcendental e nos devolve a uma posição. quanto a isto falarei em outro momento.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Acerca do novo título

Uma palavrinha sobre o novo título.
"pas-de-sens" remete a ambiguidade fundadora deste blog. Quando pensei em criar um blog a idéia era que algumas pessoas pudessem saber o que eu penso sobre algumas coisas. Óbvio que aqui não tenho a pretensão de dizer tudo que penso sobre tudo, até porque nem todos estão prontos para ouvir tudo que penso sobre tudo até que escutem por si mesmos o que eu penso sobre tudo que eles pensam que eu penso sobre tudo.

A verdade é que mudar o título implica uma passagem que estou realizando em minha vida pessoal. Talvez impulsionada por minha análise e pela erupção de algo novo ( que ocupa meus pensamentos, mas do qual não posso dizer porque está naquele âmbito das coisas que as pessoas ainda não estão preparadas para ouvir porque simplesmente acham que já sabem o que eu penso sobre o que elas pensam sobre mim). Só sei dizer que a mudança do título do blog de " Mal-estar" para o " passo de sentido" é substancialmente uma mudança na posição que ocupo perante a vida: é transformar um mal-estar em um passo de sentido, ou quem sabe num não -sentido.
Este é o sentido ( não-sentido, ou sem sentido algum ) deste blog.
Minhas coisas certamente não fazem sentido para quase ninguem que as lê, mas quando vocês me dão o privilégio de seus olhares, eles certamente se voltam para mim em um savoir faire que só diz respeito a mim mesmo, mesmo.
Certa vez eu disse que escrevo o blog para mim mesmo. É fato, mas também escrevo para vocês. Entrego um discurso e recolho algo que não sei extamento o que é ainda.
Mudarei o título ainda muitas vezes ao longo da minha vida. O que não muda é a base: tudo que é dito aqui sustenta-se num dizer impossível de ser agarrado, portanto sempre volto para cá e escrevo...escrevo...escrevo.

Rui Barbosa já disse: tudo muda sobre uma base que nunca muda.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O príncipe e a ilha


Conta-se uma antiga estória de um príncipe que vivia numa floresta encantada. As árvores daquela floresta eram frondosas, muito verdes; de troncos grossos e espessos. As folhas exalavam um forte cheiro doce. O príncipe morava no centro da floresta. Ele tinha poucos amigos porque sua beleza, ao contrário de atrair, afastava todas as pessoas. Todos tinham medo de se aproximar dele. Corria um boato na floresta que quem o visse face a face poderia perder o controle e só Deus sabe que loucuras alguém poderia fazer para ter o seu amor. Assim, ninguém ousava chegar perto. Seus súditos ao longe o saudavam acenando lenços brancos. Todo o reino o servia de longe, ninguém era corajoso o bastante para encarar sua beleza. Aqueles mais corajosos que conseguiram dar uma rápida olhadela em seu rosto não puderam contar tudo que viram, tamanho o torpor que sua beleza causava. Tudo que conseguiam dizer era que seus cabelos eram de um negro denso e aveludado; seu olhar era penetrante--de uma doçura fina, mas também cortante e viril. O príncipe era como uma espécie de medusa, só que seu olhar ao invés de petrificar, enlaçava de um amor louco aquele que lhe fitasse os olhos.
Num belo dia de outono, quando as aves voavam ao longe e os raios de sol dissipavam a neblina da manhã, uma canoa solitária chegou à praia. Um jovem moreno, os olhos como esmeraldas. Com a pela ressacada do sol dormia dentro da canoa. Provavelmente estivera muito tempo ao mar e, ao sabor dos ventos chegou à costa ainda com vida. Quando acordou, morto de sede, avistou a floresta a sua frente. Sem pensar duas vezes adentrou a mata densa à procura de um córrego para matar a sede que lhe afligia. Entrou na floresta como se fosse parte dela. Andava firme e confiante que mais à frente encontraria muita água. Qual não foi sua surpresa quando chegou ao pé de uma linda cascata de água prateada. Banhando-se na cascata havia um jovem nu. Era o príncipe. Quando se deu conta de que estava sendo observado, o príncipe não se escondeu, pois estava atônito que alguém tivesse a coragem de lhe fitar os olhos. Os olhares se encontraram entre lágrimas. O príncipe então perguntou:

-- por que é que eu te amo tanto? Sua expressão era mistura de dor, prazer e medo.
Ao que o jovem respondeu, como se lhe fosse roubadas as palavras de sua boca:
-- Não sei. Eu te amo porque seu olhar me diz que você é verdadeiro. Eu acho que nunca amei ninguém como amo você.
O príncipe olhava-o com plena certeza de amor. Olhou para a cascata. Silenciou por alguns minutos e replicou:

-- Eu não acho. Eu sei que nunca amei ninguém como te amo. Você é único e absoluto para mim a partir de hoje.
O jovem não conseguia tirar os olhos do príncipe. Ele podia sentir o amor como aquela cascata: pura e viva.

--- Sim...Seu amor me alcança príncipe da floresta.
-- Como sabes que sou príncipe da floresta?
-- Porque sinto que seu amor sustenta tudo ao redor. Foi seu olhar que me cativou. Seu olhar penetrou em mim como um vício. Agora preciso de seu olhar todos os dias. Desde que lhe vi não penso mais em minha sede; ainda que a cascata esteja logo aos seus pés tudo que quero é beber do teu olhar. Ah sim meu príncipe, você é o único amor da minha vida. Seu olhar me dá a certeza plena que de nunca amei alguém como te amo . Todos os outros amores foram sombras deste momento. Simulacros de amor. Amor que mata a sede só o teu.

O príncipe se aproximou. Os dois estavam um em frente ao outro. Olhar com olhar. Ficaram assim por muito tempo. Um olhando o olhar do outro. Absortos num momento que parecia eterno, pelo menos para eles dois. A floresta envelhecia, mas os dois permaneciam um em frente do outro. Passaram-se anos e os dois se olhavam. Um amor capturado em seus olhares. Conta a lenda que depois desse encontro nunca mais se amou na ilha. Os casais não sentiam prazer nos seus leitos e as virgens não mais escreviam cartas de amor. Todo reino silenciou. Até os animais não mais se reproduziam. Todo o amor permaneceu cativo do olhar dos dois amantes. Assim, passaram-se anos....Séculos...Eternidade sobre eternidade...E os dois fitos um no outro. Um a contemplar o outro. Nada de palavras. Até que um dia, quando toda a floresta não mais existia e o mundo agora era outro, o jovem de olhos de esmeraldas perguntou finalmente ao príncipe:

-- O que estás olhando?
O príncipe sorrindo respondeu:

--Estou te contemplando...quero decorar seu rosto.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Basta a cada dia o seu mal

Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? 26 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? 27 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? 28 E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; 29 E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. 30 Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? 31 Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? 32 (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; 33 Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. 34 Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

Resolvi fazer uma paráfrase deste belíssimo texto da forma que eu o entendo. Pode não ser a forma correta, mas é como eu vejo os ensinamentos de Cristo. Jesus veio com um projeto existencial para o homem, a igreja que os apóstolos fundaram muito rápido desvirtuou a proposta de Cristo. Meu propósito é recolocá-la no lugar de onde ela nunca deveria ter saído: o Reino de Deus está em nossas almas. Lembrando que é uma paráfrase minha, não são as palavras exatas de Jesus. É uma proposta de interpretação.

“ Não se pode servir a dois senhores, quando você serve um você desagrada o outro. Não dá pra manter os olhos em Mamon e em Deus: não se pode servir a Deus seguindo os padrões de Mamon. É por isso que eu digo que vocês não devem deixar que os cuidados desta vida deixem vocês ansiosos. Coisas como comer, beber , ou os cuidados com o corpo e o que vocês vão vestir. Essas coisas são preocupações que o sistema do mundo quer que vocês tenham. Vocês não acham que a vida é muito mais do que isso? Vocês não acham que a essência é muito importante do que o ter? Vocês confundem muito o ser e o ter. olhem as aves do céu . Elas não reclamam da vida. Não fazem exigências que a natureza não pode cumprir. Ela vivem suas vidas no seu cotidiano sem grandes preocupações. E se uma delas morre ou um dos seus filhotes, elas não se revoltam contra a natureza. A aves do céu vivem simplesmente. Olhem pra vocês? Vocês são muito mais superiores a elas em tudo: intelectualmente e na semelhança que vocês tem comigo, e ainda assim vocês ainda mantém os olhos tão firmes no que vocês podem ver? E quem de vocês pode mudar alguma coisa em suas vidas por meio da pré-ocupação? Ocupem-se com o que vocês podem dar conta, o que não tem remédio remediado está. Aprendam com a natureza—aceitem o que não pode ser mudado e aprendam a viver com o que vocês tem.

E quanto ao que vestir. Por que vocês acham isso tão importante? O valor de uma pessoas está no tipo de roupa que elas vestem? Olhem os lírios dos campos. Eles não andam segundo a moda, não tecem roupas caras. Mas nem mesmo o rei Salomão, com todo seu dinheiro se vestiu como eles. E olhem que Salomão ainda reclamava. Ele escreveu Eclesiastes só para reclamar! Com tanto dinheiro ele não era feliz. Isso é para que vocês percebam que roupa não faz a alma de ninguém. Vocês são muito mais do que isso.
Então, não andem como os servos de Mamom andam. Eles colocam toda sua fé nesta vida. Quando eles não têm o que comer, vestir ou beber ficam loucos e desistem da vida. Porque suas vidas são vazias e tudo o que eles têm são essas coisas materiais. Vocês não são assim. Sua vida é muito mais plena. Deus sabe que vocês precisam dessas coisas, mas Ele sabe também, que mais do que isso vocês anseiam por um significado para suas vidas. Então, busquem primeiro o Reino de Deus que está em vocês! É isso que vai dar significado para suas vidas. Assim, quando alguma coisa material lhes faltar vocês não perderão a esperança como fazem os filhos do sistema deste mundo. Eles sim se desesperam porque suas vidas são fúteis. Eles são mesquinhos e só pensam no aqui e agora. Mas, vocês tem uma viva esperança em um Reino que está em vocês e que um dia há de se manifestar totalmente, fisicamente em toda terra. Deixem cada dia cuidar de si mesmo. Cada dia já tráz preocupação suficiente por si só. Se vocês estiverem certos de quem vocês são, tudo o mais será acrescentado porque vocês terão descanso em suas almas. Eu não vos engano: é preciso ter paz na alma porque os dias na terra são maus. Cada dia tem o seu próprio mal. “

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O último desejo de Martin Luther King


Apesar de longo, recomendo a leitura deste artigo publicado no The New York times.
Um bom dia a todos.


Taylor Branch*

Há 40 anos, no dia 31 de março, na Catedral Nacional, o reverendo Martin Luther King Jr. fez aquele que seria o seu último sermão de domingo, quando estava a caminho de Memphis. Naquela mesma noite, em 1968, o presidente Johnson chocou o mundo ao anunciar que não disputaria a reeleição.

Eu era aluno do último ano de faculdade. A minha mãe me visitava, quatro noites depois, quando toda a conversa subitamente cessou em um restaurante cheio de gente. Um garçom anunciou que King tinha sido assassinado.


Martin Luther King fala em Paris em 1966
Direitos civis, Vietnã, King, Memphis - estes são marcos históricos. Mesmo assim, este ano é um divisor de águas. Como King viveu apenas 39 anos, de agora em diante fará mais tempo que ele partiu do que esteve entre nós. Desde Memphis, duas gerações atingiram a maturidade.

Isto não significa que o nosso entendimento seja acurado ou completo. Uma certa dose de verniz e mitologia é sempre inevitável em se tratando das grandes figuras, seja George Washington cortando uma cerejeira, Abraham Lincoln serrando um dormente de ferrovia ou King pregando um sonho de cidadania igualitária em 1963. Porém, bem além disso, nós envolvemos King e a sua era em um mito impregnante, falso para a nossa herança histórica e perigoso para o nosso futuro. Nós distorcemos toda a nossa cultura política para evitar as lições da era de Martin Luther King.

Ele próprio nos advertiu. Quando subiu ao púlpito, naquele domingo, 40 anos atrás, King adaptou um dos seus sermões padrões, "Remaining Awake Through a Great Revolution" ("Permanecendo Desperto Durante uma Grande Revolução"). A partir da alegoria de Rip Van Winkle, ele falou de um homem que dormiu antes de 1776 e acordou 20 anos depois, em um mundo repleto de roupas e costumes estranhos, dotado de um vocabulário inteiramente novo e marcado por uma preocupação assombrosa com o plebeu George Washington, e não com o rei George III.

King suplicou a sua platéia que não dormisse enquanto o mundo clamava continuamente por liberdade. Quando os antigos hebreus obtiveram uma libertação miraculosa do cativeiro no Egito, muitos sentiram um intenso desejo de voltar atrás. A família do faraó parecia ser melhor do que o pacto oferecido por Moisés, e assim os hebreus vagaram pelas terras desertas. Eles demoraram 40 anos para recuperar o rumo. Passaram-se 40 anos desde que King se foi, mas nós ainda dormimos sob o reino do faraó. É hora de acordar.

King estava em Memphis para participar de uma passeata em apoio aos trabalhadores do setor de saneamento. Dois deles, Echol Cole e Robert Walker, haviam sido esmagados em um acidente provocado por um defeito mecânico. As leis da cidade proibiam os funcionários negros de se abrigarem da chuva, a não ser na carroceria dos caminhões compressores, junto com o lixo. Mas pela primeira vez uma marcha de King descambou para desordem e saques.

Quando apareceu em Washington na manhã daquele domingo, ele estava longe de ser a pessoa mais amada dos Estados Unidos. Manchetes em Memphis o chamavam de "Galinha a la King", acusando-o de ter corrido da sua própria briga. O "Saint Louis Globe-Democrat" chamou King de "um dos homens mais ameaçadores dos Estados Unidos de hoje", e publicou uma charge na qual o ativista mirava uma pistola, em meio a uma nuvem de fumaça de pólvora, com a legenda: "Não estou disparando a arma. Estou apenas puxando o gatilho".

Assim, King estava no púlpito como um homem marcado, ridicularizado e repreendido, e também afligido por conflitos interiores. Mas, como sempre, ele alçou a esperança que trazia no fundo da sua alma. King rogou à congregação que se mantivesse viva e desperta para as grandes revoluções que estavam em andamento. "Digo a vocês que a nossa meta é a liberdade", bradou. "E eu acredito que chegaremos até lá porque - por mais que o país desvie-se deste objetivo - a meta dos Estados Unidos é a liberdade!"

Nós enfrentamos um precedente assustador na História. A nossa nação dormiu durante décadas, enfeitiçada por mitos referentes a raça. Eu cresci aprendendo que a Guerra Civil dizia respeito ao federalismo, e não ao escravagismo. Os meus livros escolares chegavam até a utilizar um termo religioso, os "redentores", para descrever os políticos que restauraram a supremacia branca com o terrorismo da Ku Klux Klan no final do século 19. A Hollywood moderna foi fundada sobre o poder emocional desse mito, conforme se constata no filme "O Nascimento de Uma Nação" ("The Birth of a Nation", EUA, 1915). Forças ditas progressistas defendiam a hierarquia racial por meio da pseudociência da eugenia.

Mais de uma vez a cultura dominante virou a História de pernas para o ar a fim de sentir-se confortável. E quando um movimento pelos direitos civis surgiu a partir de grupos marginais formados por empregadas domésticas e arrendatários, fazendo com que não fosse mais respeitável defender a segregação racial, vozes magoadas mais uma vez se adaptaram para maldizer o governo como agente da calamidade geral. Nós pintamos a era de King como uma época de licenciosidade desbragada e sem objetivo, cheia de hippies comportando-se como doidos.

A palavra-chave do discurso degenerou-se, passando de "movimento" a "onda". Na era King, a palavra "movimento" deixou de ser uma inspiração pessoal e virou salto de fé, e depois evoluiu da descoberta e sacrifício compartilhados para a esfera da luta por direitos, gerando movimentos semelhantes até que locais famosos nos quais se lutou pela liberdade, de Selma ao Muro de Berlim, fossem literalmente capazes de sentir a movimentação da História.

Agora temos em vez disso as "ondas", sugerindo que não está em jogo no debate político uma direção real, e tampouco qualquer conseqüência, exceto para os protagonistas de um determinado jogo. Tal linguagem acolhe o cinismo, ao reduzir a política ao entretenimento.

O equilíbrio democrático dorme há 40 anos, e nos deparamos com um mundo que é algo como uma história de Rip Van Winkle de trás para frente. Nós acordamos e vemos Tiger Woods, Condoleezza Rice e Barack Obama, enquanto o nosso governo exige o domínio arbitrário por meio do secretismo, de conquistas e de calabouços. O rei George III parece ter ressuscitado.

Por favor, resista a enxergar nisto qualquer conotação partidária. O nosso problema é bem maior do que isso. De fato, creio que o desafio mais urgente para os admiradores de King é reconhecer a nossa própria cumplicidade nos mitos sufocantes a respeito da história dos direitos civis. Aliados de King, derrotados e tendo sofrido por muito tempo, descartaram-no como sendo um moderado cansado muito antes do início da campanha reacionária no sentido de transformar a palavra "liberal" em um beijo de morte para candidatos de todo o país. De modo similar, forças chamadas de radicais e militantes voltaram-se contra os governos liberais por estes terem demorado tanto tempo para responder à injustiça racial, e depois à Guerra do Vietnã. Somente uma convergência da esquerda e da direita poderia causar uma erosão tão duradoura da promessa do governo livre.

Vários dos camaradas mais próximos de King rejeitaram este compromisso para com a não violência. O movimento dos direitos civis criou ondas na História enquanto permaneceu não violento, e a seguir estacou. Sem dúvida, o instrumento mais poderoso para a reforma democrática foi o primeiro a tornar-se antiquado. Ele desapareceu entre os intelectuais, nos campi universitários e nas ruas. Até hoje quase ninguém pergunta por quê.

Nós temos que voltar a reivindicar a ampla gama de pontos positivos do movimento dele. Para King, a questão racial fazia parte da maioria das outras questões, mas, sozinha, não definia nada. A sua mensagem atraente estava enraizada no contexto maior da não violência. O seu objetivo declarado sempre foi o de redimir a alma dos Estados Unidos. Ele calcou um pé na Constituição e o outro nas Escrituras. "Nós conquistaremos a nossa liberdade porque a herança da nossa nação e o desejo eterno de Deus estão encarnados nas nossas demandas que ecoam", disse ele diversas vezes. Enxergar King e os seus colegas como algo menos do que os fundadores modernos da democracia - até mesmo como reconciliadores e curadores de feridas raciais - é diminuí-los sob o feitiço do mito.

King afirmou que o movimento libertaria não só o povo negro segregado, mas também os brancos do sul. Sem dúvida isto é verdade. Nunca se ouviu falar na região do Sun Belt quando o sul era segregado. O movimento disseminou prosperidade em uma região anteriormente imprópria até mesmo para times esportivos profissionais. O meu prefeito em Atlanta durante a era dos direitos civis, Ivan Allen Jr., disse que assim que a legislação dos direitos civis foi assinada em 1964, nós construímos um estádio de beisebol em um terreno do qual não éramos proprietários, com dinheiro que não tínhamos, para um time que não criamos e logo atraímos o Milwaukee Braves. Miami organizou uma equipe de futebol americano chamada Dolphins.

O movimento também acabou com o estigma que pairava sobre a política branca sulista, criando uma competição bipartidária. Ele abriu as portas para os deficientes, e começou a reduzir o medo entre os homossexuais antes que a idéia moderna de "gay" passasse a ser utilizada. Durante 2.000 anos de judaísmo rabínico pouco se pensou em rabinos (ou, melhor dizendo, rabinas) do sexo feminino, mas a primeira ordenação de uma delas ocorreu pouco depois do movimento lançar uma luz nova sobre o significado de almas iguais. Agora nós não paramos para pensar nas rabinas, nas precentoras e nas sacerdotisas e bispas episcopais como figuras polêmicas, com as suas colegas das mais diversas formações. Atualmente os pais aceitam como corriqueiras as oportunidades que os filhos herdaram do boicote aos ônibus de Montgomery.

É ao mesmo tempo correto e político para todos os indivíduos, incluindo os milhões que vêem com bons olhos, ou os que são indiferentes em relação ao movimento pelos direitos civis, ou os rudes e ressentidos, observar que eles, também, assim como os seus herdeiros, estão juntos conosco sobre os ombros de Rosa Parks, Medgar Evers e Fannie Lou Hamer.

King demostrou de forma mais profunda que em um mundo interdependente, o poder duradouro cresce em oposição à violência, e não aliado a ela. Tanto a Guerra Fria quanto o apartheid sul-africano terminaram com os acordes do hino libertário "We Shall Overcome", desafiando todos os preparativos para o Armagedon. O movimento dos direitos civis continua sendo um modelo para a nova democracia, tristemente negligenciada no próprio local em que nasceu. No Iraque atual, estamos, em vez disso, atolados no modelo do Vietnã. Não existe um campo mais importante ou negligenciado do que o estudo do relacionamento entre poder e violência.

Nós recuamos da não violência e assumimos um risco. King viu isso no coração da democracia. A nossa nação é uma grande catedral de eleições - eleições não só para o Congresso ou para presidente, mas também para as decisões da Corte Suprema e de incontáveis júris. As eleições governam as diretorias das grandes corporações e das pequenas instituições de caridade. De forma visível e invisível, tudo depende dos votos. E cada voto não passa de uma partícula de não violência.

Assim sendo, o que deveríamos fazer, agora que 40 anos se passaram? Como restauraremos a nossa cultura política, da onda para o movimento, da balbúrdia para o objetivo? Devemos agir, perguntar, estudar a não violência e reivindicar a nossa história.

O que King prescreveu no seu último sermão de domingo tem início com a história de Lázaro e Dives, no 16° capítulo do evangelho de São Lucas. Narrado inteiramente pela boca de Jesus, trata-se de uma história com Abraão, o patriarca do judaísmo, passada no além. Não existe nada igual na Bíblia.

King adorava essa parábola como o contexto para o famoso sermão de 1949 feito por Vernon Johns, o seu predecessor na Igreja Batista da Avenida Dexter, em Montgomery. Lázaro era um mendigo aleijado que certa vez pediu esmolas, sem que ninguém se dignasse a notar a sua presença, em frente aos suntuosos portões de um homem rico chamado Dives. Ambos morreram, e Dives atormentou-se ao ver Lázaro, o mendigo, seguro sob a proteção de Abraão. O restante da parábola é uma discussão entre Abraão e Dives, entre o céu e o inferno.

Dives primeiro pediu a Abraão que "mandasse Lázaro" com água para refrescar os seus lábios ardentes. Mas Abraão disse que havia um "grande abismo" entre eles, que jamais poderia ser atravessado. No seu sermão, Johns fez uma conexão entre esse abismo e a segregação racial.

Mas, segundo Johns, Dives não estava no inferno por ser rico. Ele estava longe de ser tão rico quanto Abraão, um dos homens mais ricos da antiguidade, que se encontrava no céu. E Dives também não estava no inferno por ter deixado de dar esmolas a Lázaro. Dives estava lá porque jamais reconheceu Lázaro como um ser humano. Mesmo ao se deparar com o veredicto eterno, ele falou apenas com Abraão e desprezou o mendigo, tratando-o como um servo e na terceira pessoa - "mande Lázaro".

Os sermões de King acrescentaram mais camadas significativas a esta parábola. Ele disse que devemos aceitar o homem rico sofredor não como um pecador comum e asqueroso. Quando teve a água recusada para si, ele imediatamente preocupou-se com os seus cinco irmãos. Dives pediu novamente a Abraão que enviasse Lázaro, desta vez como mensageiro para advertir os irmãos a respeito dos seus pecados. Diga a eles que sejam bondosos com os mendigos que ficam do outro lado do muro. Por favor, faça algo, para que eles não terminem aqui como eu.

King disse que Dives era um liberal. Apesar do seu próprio destino, ele quis ajudar os outros. Abraão negou também este pedido, dizendo a Dives que os seus irmãos já contavam com amplas advertências contidas na lei do Torá e nos livros dos profetas hebraicos. Mesmo assim Dives persistiu, dizendo: "Não, Abraão, você não entende - se os irmãos virem algo realmente ressurgindo do mundo dos mortos e avisando-os, eles entenderão".

Jesus cita Abraão negando este pedido. Se os irmãos não aceitam o cerne dos ensinamentos do Torá e dos profetas, eles não acreditarão nem mesmo em um mensageiro que renasce do mundo dos mortos. King afirmou que esta parábola de Jesus remete a diferenças entre o judaísmo e o cristianismo. A lição subjacente a qualquer teologia é a de que devemos agir em relação a toda a criação vendo os outros como almas e vozes iguais. A alternativa para isso é o inferno, algo que King em certas ocasiões definiu como sendo a dor que infligimos a nós mesmos ao recusarmos a graça de Deus.

A seguir King retornou a Memphis para solidarizar-se com os trabalhadores oprimidos, com as famílias de Echol Cole e Robert Walker. Vocês devem ter visto os cartazes usados na greve dos trabalhadores do setor de saneamento, com os dizeres, "Eu Sou um Homem", significando que eles não eram lixo que pudesse ser esmagado e ignorado. Para King, a resposta foi um chamado patriótico e profético. Ele desafia todos a encontrarem um Lázaro em algum lugar, das nossas prisões lotadas à terra que sangra. Essa busca em comum transforma-se na centelha dos movimentos sociais, e é, portanto, o motor da esperança.

*Taylor Branch é escritor. O seu livro mais recente é "At Canaan's Edge" ("À Beira de Canaã"), o terceiro volume da sua história sobre a era moderna dos direitos civis. Este artigo é uma adaptação de um discurso feito por ele na segunda-feira (31/03) na Catedral Nacional.

Tradução: UOL

Visite o site do The New York Times

domingo, 6 de abril de 2008

Isso não impede de existir



“ Isso não impede de existir”


Freud, como todos sabem , foi o inventor da psicanálise. Mas, o que nem todos sabem, é que o início dos estudos de Freud sobre a psiquê humana começou quando ele fraquentava as aulas do médico e neurologista Charcot. Sabendo da fama do aclamado neurologista, Freud foi até Paris para conhecer seus trabalhos com as histéricas. Charcot sofreu grandes objeções teóricas ao seu trabalho com as histéricas, mas ele sempre rebatia como uma desconcertante frase: “ isso não impede de existir”.
Desde que li essa frase, ela nunca me saiu da cabeça. Com todas as objeções às recentes descobertas sobre a mente humana, Charcot dava uma única resposta: isso não impede de existir.
Nós humanos dificilmente reagimos muito bem ao inusitado ou a uma repentina novidade que desafie nossos velhos padrões e modelos de pensar. Quando já estamos tão acostumados a ver algo de uma só forma resistimos a ouvir idéias revolucionárias ou que contrariem nossa antiga maneira de pensar. Entretanto, a psicanálise revolucionou o mundo inteiro e até hoje influencia muito do que sabemos sobre a mente humana. Charcot se tornou então, um nome que ficou para a história da humanidade. Assim acontece sempre com as pessoas inovadoras, criativas e inteligentes: elas estão sempre a um passo à frente dos pobres mortais.
Tássia hoje fecha mais um clico em sua vida. As coisas velhas ficam para trás e eis que tudo se faz assombrosamente novo. Eu posso imaginar como ela se sente. Há três anos eu fiz este mesmo percurso. Saí de minha casa, do seio da minha família e amigos e resolvi inovar. Eu tinha tantas novas idéias borbulhando em minha mente que mal dava para explicar. Também sofri objeções quanto a minha repentina mudança para Fortaleza, mas eu não hesitei. Ouvi coisas como: “ isso vai ser muito difícil. Por que sair da casa de seus pais? Por que mudar de cidade? O que há de tão novo em Fortaleza, uma cidade tão próxima e tão lascada quanto São Luís? Bem, a todas elas eu respondi, intimamente, como quem está sendo guiado ao deserto para ser tentado: isso tudo não impede de existir.
Tássia sai de São Luís deixando um passado conturbado. Entre mortos e feridos creio que ninguem se salvou. Mas que bom que foi assim! Tudo que morreu tem agora a chance de renascer. “ o grão se cai na terra e não morrer fica só. Ele precisa morrer para renascer. Não é assim com nós cristãos? Todos um dia morremos e renascemos para uma nova esperança. Esse é meu desejo para Tássia. Sei que ela já morreu. A mulher que agora vocês podem ver é mais forte, madura, e com muita vida ainda para viver e inovar. Sua vida em São Luís prova isso. Ela foi e continua sendo uma mulher inovadora; muito a frente de seu tempo. Com certeza, muitos irão objetar: “ mas, depois de tudo que ela viveu agora vai ter que enfrentar mais um desafio? Mais uma incerteza?” . Outros podem dizer: “ existem várias razões, todas elas muito lógicas, para ela não enfrentar mais esse desafio”.
Tássia, sua resposta deve ser sempre a mesma: “mas isso não impede de existir”.

Tudo isso não impede de existir nova vida. As dores e momentâneos fracassos não impedem de existir alegria e paz para aqueles que têm coragem. A saudade dos familiares, amigos e igreja não impede de existir em Fortaleza outras famílias; mais amigos e uma renovada comunhão com o corpo de Cristo. A grande verdade é que nada impede de existir. Como dizia Clarice Lispector: é preciso viver apesar de”. Apesar das perdas e das mortes que vivemos é preciso viver. Tudo que é vivo se movimenta, se renova.
Charcot ajudou Freud a criar a psicanálise por meio dos estudos das histéricas. Em poucas palavras, para Freud, o desejo da histérica é sempre insatisfeito. Quem conhece Tássia bem , como eu, sabe que ela é uma perfeita histérica! Grita quando precisa, chora quando precisa e quando não precisa; pode ser uma pessoa agressiva quando provocada, mas pode ser a criatura mais doce quando necessário. Portanto, minha querida, seja a histérica que você é. Sempre insatisfeita na busca de sua felicidade. O conformismo não veio em nosso material genético. Somos uma família inovadora que nunca temeu pensar e nem colocar em prática novas idéias. Jamais se conforme. O conformismo é a porta para a mediocridade e você não tem vocação para isso. Como nossa vó disse muito bem: “ artista é assim mesmo”. Você nasceu para o estrelato. Agora, acima de toda essa baboseira que eu disse, lembre-se de uma coisa só: tudo isso não impede de existir.

Amo você, seja bem vinda. Neste momento de despedidas ouça o que Jesus disse para Maria quando estava na cruz: Mulher eis aí o teu filho; filho eis aí a tua mulher. Você sabe que tem em mim mãe, pai e irmãos e amigos. Estarei sempre com você; isso sim, até que a morte nos separe.

Rafael .

sábado, 5 de abril de 2008

Sonhando acordado



( para ler ouvindo " Olha" na voz de Bethânia))

Ele sabia que estava sonhando. Em seu sonho seu amor tinha os cabelos perfumados, a pele macia e tênue—parecia seda. Em seu sonho sentavam-se juntos à mesa; sentavam-se lado a lado; olhar com olhar. Um suspiro abafado subia-lhe o estômago ao escutar aquelas palavras: --...então, se eu estava procurando algo em alguém acho, acho não!, eu encontrei. Ele não esqueceria aquela sensação, quase boba, de veneração alucinada por aquele olhar. Em seu sonho tudo era aroma: cabelos. Boca. Corpo. Tudo exalava uma novidade revivida; uma paixão reencarnada. Em seu sonho tudo era tão cálido. Uma luz morna que aquecia seu coração enquanto segurava a mão do seu amor; eles sabiam que se existia algo de especial na cidade acontecendo naquela noite, era ali entre eles que acontecia. Em seu sonho o primeiro beijo vinha com um ímpeto de um raio que cai em noite solitária: tudo atrai sua força. Era um beijo fluído, como se os lábios de ambos fossem feitos um para o outro: a paixão tomava ritmo.

Em seu sonho...Ele sonhava que não acordava, mas acordou. Virou-se na cama e se lembrou das louças sujas do dia anterior. Os restos ainda estavam sobre a mesa. Virou-se na cama novamente...As delícias da noite anterior povoaram seus sonhos, tudo ainda era puro aroma: seu cheiro continuava nele, impávido. Destemido. Envolvente. Virou-se por uma última vez e novamente sonhou. Sonhou que o mundo era uma fazenda. Sonhou com um pôr-do-sol solene numa tarde de outono. Sonhou novamente com seu amor, sentados ao cair da tarde. Mãos dadas a sentir o calor da pele envolver os braços unidos. O canto crepuscular dos pássaros. Era fim do dia, mas o amor não arrefecia. Sonhou que eram outros em uma outra vida. Era uma vida alegre; uma comunhão de olhares. Sonhou que o olhar do seu amor continuava colado ao dele-rente a sua íris.
Em seu sonho....Ele sonhava que não acordava, mas acordou. Dessa vez pegou o telefone.

--Sonhei com você – disse com voz sonolenta, propositadamente para seduzir.
-- Eu também. Sonhei que tínhamos uma fazenda.....
--...e tinha uns pássaros a cantar....
---...é ..eu lembro. Eu também sonhei – disse em tom profético.
--- sim, eu também lembro...você estava lá. Eu sonhei o seu sonho....
---verdade....Fui sonhado por você e você por mim.

Despediram-se com um beijo. Ambos felizes: afinal, suas vidas não eram apenas um sonho. A vida é um sonho quando a sonhamos sozinhos, sem ninguém para dividi-la. Mas essa não era só isso. Era um sonho sonhado junto. Duas almas que sonham juntas nunca estão sozinhas. Seja nesta vida; seja em outra vida, ou mesmo em outras vidas. Almas que sonham juntas, uma sonhando o sonho da outra, não estarão jamais separadas.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

da arte de falar pouco.


Ano passado li um livro chamado " A arte de escrever" de Shcopenhauer.Mas, neste momento que vivo hoje gostaria que ele tivesse escrito " A arte de falar pouco". Na verdade das verdades seria melhor que eu aprendesse a arte de nada falar, mas isso é absolutamente impossível- principalmente para uma pessoas falante como eu .
A questão é que no muito falar há também muita incompreensão. Você fala e as pessoas raramente lhe compreendem. Cada um entende como bem entende e como lhe chega. Recentemente falei para uma amiga que eu realmente não me importava com nada ou ninguem ao meu redor; que eu não me importava com a vida alheia. Bem, isso já me causou certo constrangimento já que rapidamente recebo o título de intolerante, egoísta e outras características tidas como " inumanas". Estou pagando o pato por falar demais.É fato que eu realmente não me importo com pessoas eu não conheço ou que não tenho muito contato. Não tenho medo de afirmar isso categoricamente: não me importo e mal sei da existência. Entretanto, não se da´da mesma forma com as pessoas que eu quero bem.
Resolvi parar para analisar um pouco o que as pessoas pensam que seja alguem " tolerante". Eu conheço poucas pessoas realmente tolerantes com os defeitos das outras. Não conheço ninguem, do meu círculo de amizades que tolere as diferenças alheias; o que elas normalmente fazem é fingir bem melhor do que eu, mas por dentro se envenenam de ódio e agonia enquanto alguem se reclama da vida. Demonstrar as emoções em nossa cultura não é um comportamente reforçado pelos demais. Somos ensinados que é muito melhor parecer ser alguem tolerante, que se importa. É como o racismo. Ninguem tem problemas com os negros; contanto que alguem próximo não resolva se casar ou namorar com um negro ( a).
O que seria também uma pessoa altruísta?
Dei uma pesquisadinha na wikipedia e olha só o que veio:

"a palavra altruísmo foi criada em 1830 pelo filósofo francês Augusto Comte para caracterizar o conjunto das disposições humanas (individuais e coletivas) que inclinam os seres humanos a dedicarem-se aos outros. Esse conceito opõe-se, portanto, ao egoísmo, que são as inclinações específica e exclusivamente individuais (pessoais ou coletivas).

Além disso, o conceito do altruísmo tem a importância filosófica de referir-se às disposições naturais do ser humano, indicando que o homem pode ser - e é - bom e generoso naturalmente, sem necessidade de intervenções sobrenaturais ou divinas.

Na doutrina comtiana, o altruísmo pode apresentar-se em três modalidades básicas: o apego, a veneração e a bondade. Do primeiro para o último, sua intensidade diminui e, por isso mesmo, sua importância e sua nobreza aumentam. O apego refere-se ao vínculo que os iguais mantêm entre si; a veneração refere-se ao vínculo que os mais fracos têm para com os mais fortes (ou os que vieram depois têm com os que vieram antes); por fim, a bondade é o sentimento que os mais fortes têm em relação aos mais fracos (ou aos que vieram depois)."



Bem, tendo em vista esta definição devo dizer que nem eu , nem nenhuma pessoa que eu conheço é altruísta. A grande maioria das pessoas espera ser tratado da mesma forma que trata os outros. Isso não é altruísmo.

Então, parece que eu não sou tão anormal em não ser altruísta. Para que eu o seja será preciso , contrariamente à própria definição de altruísmo, uma intervenção divina. Neste sentido, pode-se dizer que resta em mim uma pequena centelha de humildade: sei que para que eu seja tudo isso que as pessoas esperam de mim será necessário uma tremenda intervenção divina.