terça-feira, 22 de abril de 2008

O príncipe e a ilha


Conta-se uma antiga estória de um príncipe que vivia numa floresta encantada. As árvores daquela floresta eram frondosas, muito verdes; de troncos grossos e espessos. As folhas exalavam um forte cheiro doce. O príncipe morava no centro da floresta. Ele tinha poucos amigos porque sua beleza, ao contrário de atrair, afastava todas as pessoas. Todos tinham medo de se aproximar dele. Corria um boato na floresta que quem o visse face a face poderia perder o controle e só Deus sabe que loucuras alguém poderia fazer para ter o seu amor. Assim, ninguém ousava chegar perto. Seus súditos ao longe o saudavam acenando lenços brancos. Todo o reino o servia de longe, ninguém era corajoso o bastante para encarar sua beleza. Aqueles mais corajosos que conseguiram dar uma rápida olhadela em seu rosto não puderam contar tudo que viram, tamanho o torpor que sua beleza causava. Tudo que conseguiam dizer era que seus cabelos eram de um negro denso e aveludado; seu olhar era penetrante--de uma doçura fina, mas também cortante e viril. O príncipe era como uma espécie de medusa, só que seu olhar ao invés de petrificar, enlaçava de um amor louco aquele que lhe fitasse os olhos.
Num belo dia de outono, quando as aves voavam ao longe e os raios de sol dissipavam a neblina da manhã, uma canoa solitária chegou à praia. Um jovem moreno, os olhos como esmeraldas. Com a pela ressacada do sol dormia dentro da canoa. Provavelmente estivera muito tempo ao mar e, ao sabor dos ventos chegou à costa ainda com vida. Quando acordou, morto de sede, avistou a floresta a sua frente. Sem pensar duas vezes adentrou a mata densa à procura de um córrego para matar a sede que lhe afligia. Entrou na floresta como se fosse parte dela. Andava firme e confiante que mais à frente encontraria muita água. Qual não foi sua surpresa quando chegou ao pé de uma linda cascata de água prateada. Banhando-se na cascata havia um jovem nu. Era o príncipe. Quando se deu conta de que estava sendo observado, o príncipe não se escondeu, pois estava atônito que alguém tivesse a coragem de lhe fitar os olhos. Os olhares se encontraram entre lágrimas. O príncipe então perguntou:

-- por que é que eu te amo tanto? Sua expressão era mistura de dor, prazer e medo.
Ao que o jovem respondeu, como se lhe fosse roubadas as palavras de sua boca:
-- Não sei. Eu te amo porque seu olhar me diz que você é verdadeiro. Eu acho que nunca amei ninguém como amo você.
O príncipe olhava-o com plena certeza de amor. Olhou para a cascata. Silenciou por alguns minutos e replicou:

-- Eu não acho. Eu sei que nunca amei ninguém como te amo. Você é único e absoluto para mim a partir de hoje.
O jovem não conseguia tirar os olhos do príncipe. Ele podia sentir o amor como aquela cascata: pura e viva.

--- Sim...Seu amor me alcança príncipe da floresta.
-- Como sabes que sou príncipe da floresta?
-- Porque sinto que seu amor sustenta tudo ao redor. Foi seu olhar que me cativou. Seu olhar penetrou em mim como um vício. Agora preciso de seu olhar todos os dias. Desde que lhe vi não penso mais em minha sede; ainda que a cascata esteja logo aos seus pés tudo que quero é beber do teu olhar. Ah sim meu príncipe, você é o único amor da minha vida. Seu olhar me dá a certeza plena que de nunca amei alguém como te amo . Todos os outros amores foram sombras deste momento. Simulacros de amor. Amor que mata a sede só o teu.

O príncipe se aproximou. Os dois estavam um em frente ao outro. Olhar com olhar. Ficaram assim por muito tempo. Um olhando o olhar do outro. Absortos num momento que parecia eterno, pelo menos para eles dois. A floresta envelhecia, mas os dois permaneciam um em frente do outro. Passaram-se anos e os dois se olhavam. Um amor capturado em seus olhares. Conta a lenda que depois desse encontro nunca mais se amou na ilha. Os casais não sentiam prazer nos seus leitos e as virgens não mais escreviam cartas de amor. Todo reino silenciou. Até os animais não mais se reproduziam. Todo o amor permaneceu cativo do olhar dos dois amantes. Assim, passaram-se anos....Séculos...Eternidade sobre eternidade...E os dois fitos um no outro. Um a contemplar o outro. Nada de palavras. Até que um dia, quando toda a floresta não mais existia e o mundo agora era outro, o jovem de olhos de esmeraldas perguntou finalmente ao príncipe:

-- O que estás olhando?
O príncipe sorrindo respondeu:

--Estou te contemplando...quero decorar seu rosto.

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