sexta-feira, 20 de junho de 2008

De dentro do meu coreto



Aqui na minha cidade tem uma pracinha jeitosa onde todos gostam de caminhar. Lá tem uns banquinhos de madeira bonzinhos de sentar. Gosto de ficar sentado olhando os que passam com suas vidas rotineiras, cheias de bobagens interessantes. E tem uns que andam a ver navios; outros são gordos e outros são magros. Há velhos e moços jovens que se balançam num caminhar que, no fundo, é bem parecido. Passam por lá os garotinhos à procura de um tio; tem as meninotas com seus velhos maridos e , por fim, tem os passantes aleatórios que esbarram com a praça no caminho ao trabalho.

Eu gosto daquela praça porque lá tem um coreto. Gosto de chamá-lo de “ o coreto no centro da praça”. Toda praça tem que ter um centro, penso cá comigo e meus botões desgastados. Praça sem coreto não tem graça porque é lá que, normalmente, se namora. E namorar é tão bom. Fico pensando nas praças sem coreto. E onde é que o povo lá namora ein? Porque é no coreto que os namoradinhos se escondem dos passantes e sentam-se a escutar passarinhos e a contemplar as flores. Sim, porque todo coreto tem que ter muitas flores. E no “ coreto no centro da praça” tem tantas flores.

Foi nesse coreto que conheci Notwen. Ela tem os cabelos pretos por sobre os ombros, e uma pele clara que, de tão sedosa, faz me escorregar os dedos ao deslizar com carinho.

Era um tarde morna de luz serena quando vi Notwen pela primeira vez sentada a ver os pássaros. Ela sempre gostou de pássaros; gosta de se inclinar numa janela qualquer e dar boas vindas a qualquer um que se preste a cantar. Eu cheguei de leve e fui mostrando minha simpatia tão peculiar. Andam dizendo por aí que eu não sou nada cortês; nada poderia estar mais longe da verdade. Sou bem gentil até, mas tenho um olhar e uma cara torta que sempre dá impressão de que flerto com a soberba. Nem é isso. Se podem me acusar de algo é de humor volátil e ser, ás vezes, um pouco castiço. Posso mudar de humor em minutos—fico triste e alegre na mesma intensidade e não gosto de explicar por que.

Cheguei de levinho e fui mostrando meu sorriso. Notwen devolveu um olhar sereno e alegre. Ela é sempre receptiva; acredita na bondade de algumas pessoas, enquanto eu as tenho em total descrédito. Depois de um minuto de troca de olhares, ela chegou pertinho e me sussurrou: “ prefiro nem começar, e se te perco?”.

“ Ando bem perdido, não tem como você me perder. Acho que é mais fácil você ter me encontrado do que você me perder. Acho-me em você”.

Anos depois Notwen ainda não entenderia minhas palavras. Eu a amo todos os dias; sim, na minha maneira trôpega de ser, mas amo profundamente. Ela ainda não entendeu que ela não pode me perder assim tão fácil; que ela me achou... Que eu me acho nela. Ela ainda não entendeu que naquele coreto encontrei uma paz que ainda não nomeei. Depois dela não me sinto solto por aí à procura de qualquer rabo de saia. Sinto uma firmeza de raízes preso a ela. Talvez ela goste de se sentir insegura; talvez goste que eu a conquiste todos os dias. Tem gente que é assim, já aprendi.

É por isso que todo dia eu volto ao coreto; quero me lembrar do dia quando nos conhecemos e as flores e os pássaros estavam ali a ver-nos. Lembro da paz que senti ao vê-la e de que depois disso nada foi igual. Gosto de olhar pro coreto e pensar em novas formas de conquistar Notwen. Ela tem um nome forte, não? Uma pronúncia feliz que agrada. Ela gosta de deitar no meu peito e , mansamente, chegar como quem não quer nada pedindo um amor e um beijo de testa. Ela gosta de se sentir beijada até “ a alma se sentir beijada”, diz o poeta.

Aqui na minha cidade tem um coreto no meio de uma praça onde todos gostam de caminhar. Mas, ninguém caminha como ela, no meio das flores é ela quem passa tal brisa de arco-íris. Ela tem um jeito manso de me fazer rodeios e me deixar todo serelepe. Gosto dela de tanto que gosto dela, e passo por ela nas voltas pelo coreto no centro da praça.

É que na cidade onde eu moro tem um coreto no centro da praça que, de passagem, as pessoas gostam de caminhar quando vão para os seus trabalhos aleatórios. Já eu, gosto da praça porque no centro dela tem Notwen, sentada imperiosa entre os melancólicos bem-te-vis. Gosto dela sentada na praça, no centro do meu coreto, no centro de minha música, bem na minha praça mais querida. E quando escrevo, faço pra ela essa conquista diária; sempre contando, crendo que ela não se esqueça o quanto gosto de conquista-la sempre que ela requisite meus romances e minhas estórias. É porque contando uma estorinha eu conto como gosto dela; mantenho também a conquista forte e tenra das palavras bem colhidas lá de dentro, de dentro do meu coreto.

2 comentários:

  1. É isso!
    É exatamente isso...
    Eu também entendo o teu texto.
    Hoje percebo o quanto um coreto é capaz de trazer paz a uma alma.

    Meu "amigo de Jesus" a cada dia você surpreende em sua escrita. Uma construção tão singela... bem Rafael!

    ResponderExcluir
  2. Vem, meu menino vadio...
    Vem, sem mentir pra você..
    Vem, mas vem sem fantasia...

    Gosto dele de tanto que gosto dele...também.

    ResponderExcluir