segunda-feira, 4 de maio de 2009

Psicanálise e Psicoterapia, mais ainda.


O último post sobre psicoterapia e psicanálise deu o que falar. Alguns leitores acharam que eu fui injusto ao diferenciar a psicanálise das psicoterapias. Segundo eles, não ficou claro a diferença visto que, algumas psicoterapias teriam o mesmo efeito de uma análise.
Resolvi, portanto, esclarecer alguns pontos importantes.
Lacan sempre insistiu que é impossível “terapizar” o psiquismo. Freud também dizia que não vale a pena terapizar o psiquismo e nem ter pressa em curar. Uma análise, ao contrário, muitas vezes produz um desconforto muito grande posto que ela gera um desconforto advindo do próprio ato analítico: ele não responde à demanda que ele mesmo fomenta.
Nas palavras de Marco Antônio Coutinho Jorge, um renomado psicanalista no texto “ A psicoterapia conduz ao pior”: “ Trata-se da ocupação pelo analista de um lugar a partir do qual este demanda de melhora se desdobrará no advento do desejo, e ao invés de pretender restaurar um hipotético bem-estar, como haveria de se esperar de uma terapia, trata-se de descobrir nesse caminho do desejo que o mal-estar é efeito e defeito de estrutura, é irremediável”.

Uma psicanálise propõe ao paciente uma reviravolta nos motivos que lhe levaram ao divã. Alguém procura um psicanalista com uma queixa de algo pelo qual sofre, e o analista recebe essa demanda e todo o seu trabalho é o de re-significar, antes de tudo, tal demanda.

Porque uma análise não se presta a curar alguém- quem pode ser curar de si mesmo. Lacan dizia também que sofremos de uma doença terrível, e é a pior doença, pois é através dela que nos reproduzimos: o sexual. O sujeito para a psicanálise é inexoravelmente trespassada por um conflito psíquico cuja origem é de sermos seres para a fala, como diria Lacan, um “ falaSSER”. O mal –estar da diferença sexual e dos mistérios de nossas origens estão sempre lá há nos mover e, sempre, a nos fazer sofrer. Quando Forbes fala que uma análise gera responsabilização pelo sofrimento, ele não está trabalhando com o mesmo conceito de responsabilidade e liberdade com os quais trabalham as psicoterapias. A responsabilidade em psicanálise está ligada ao desejo, acima de tudo. E desejo , em psicanálise, implica em falta. Implica em nos depararmos com a aridez do tecido humano em todo o laço social e assumirmos o risco de desejar algo que não temos, e que o outro, também não tem.

O objetivo de uma psicanálise não é a cura, mas uma completa subversão do sujeito , que, como sobeja, pode produzir um efeito de cura ou de alívio no sofrimento. Mas, o efeito que se espera de uma análise não é o bem –estar, ou um pretenso saber viver, ou uma harmonia com o outro e com o ambiente. O efeito de uma análise sempre é um sujeito. E ser sujeito não é nem bom, nem ruim. Não é doentio , e não é saudável em si mesmo. Como eu disse no outro texto, fazer uma análise é sair do Éden com suas próprias pernas. É lavrar a terra; plantar sua árvore da vida e saber, no fundo de sua alma, que esta árvore é meramente decorativa; à título de esperança, mas que nunca poderá dela comer. A psicanálise nos ensinou, desde muito cedo, que a felicidade é uma quimera humana. Eu ouvi recentemente alguém dizer: a análise quer fazer de um sofrimento especial um sofrimento comum.
O tema é rico e bom pra discussões. Convido meus colegas psicoterapeutas e psicanalistas a trazerem suas contribuições. Comentem, esta é a vida de um blog. Deixo uma pergunta: o que quer uma psicoterapia?

9 comentários:

  1. De psicanalista eu não tenho nada! Mas acho que a psicanálise consiste na degenaração reversa do indivíduo em fase de transição alucinógena e mística, um tanto quanto cabalística, mas ainda assim cristã, que não compreende a física do petrefiolismo, por ser vaga e suja. Bom, eu penso isso.

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  2. Bem pessoal, fico com a definição do meu irmão acerca do que seja um trabalho clínico psicoterapêutico:

    uma experiência que acarreta a relativização de valores e arranjos conceituais e vivenciais que provocam um movimento na subjetividade que atinge profundamente os processos de percepção e afetação do indivíduo.

    Eu ainda acrecentaria algo de Maria Bowen: não uma experiência de responsabilidade pelo ato e lugar de sujeito, a psicotereapia é a experiência de um processo de localizar-se enquanto pessoa, organismo, singularidade.

    Boa discussão...

    abç,

    Helton

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  3. Thiago... o que é a "física do petrefiolismo", é reicheano esse conceito??? :)

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  4. é preciso que se entenda o conceito de sujeito thy...conceito nunca compreendido por outros saberes, talvez por preguiça, indolência ou simplesmente descaso conceitual.

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  5. Qual seria esse conceito de sujeito? Não é o conceito do "trocadilo" pra psicanálise? hehe. A partir da ACP, eu veria essa questão mais que um conceito. Na verdade a análise não é uma experiência de indagar-se como sujeito, portanto, estar no lugar de sujeito dentro da psicanálise ou de uma análise não é ocupar, no resto, um lugar de fragmentação, tragicidade, "dubidade", ambiguidade (dentre outros movimentos)? Mistura-se a essa experiência um pouco de romantismo literário, discursivo e linguístico e temos uma das mais belas práticas terapêuticas da modernidade encarnados numa experiência subversiva de reinvenção de si, sustentada, é claro, pelo desejo do analista, diga-se de passagem, e pelo prórpio desejo de análise. Me questiono o quão subersivo e reinventor isso realmente seria, de fato. Mas sou adepto de que funciona num determinado campo de sentido e sintoma, ou seria mais adequado dizer não sentido e sinthome! Eu, particularmente, acho que a psicanálise serve produtivamente a quem quanto menos saiba dela ou seja por ela causado.

    Meu caro Rafa, acredito que a questão aqui é justamente o que não se sabe e se vive em uma psicoterapia. Pelos exatos motivos que você bem atribuiu, não cabe aqui distinguir uma análise de um campo psicoterapêutico. Também porque são processos bem diferentes, e segundo porque de que psicoterapia se está rewalmente falando? Mas não quero parecer aqui um nefelibata teórico e auto indulgente (cá entre nós, meu amor viu essa discussão e me chamou disso! hehe), mas gostaria de dizer que estou plenamente ciente do conceito de sujeito em psicanálise, na verdade, à parte campos de convergência teórica, eu sei o que é estar nesse lugar e vive-lo dentro de uma análise. Por favor, não se aperreie, mas para mim, atualmente, a cisão subjetiva (sujeito) é mais um campo perceptivo do que real, o que não é sem efeitos.

    Rafael, estou me colocando de uma forma bem a vontade aqui, é para isso também os blog não é?!! Tou adorando, precisava reavivar essas questões... sempre bom. Concorda com minhas colocações? Algumas delas? Um abraço...

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  6. tenho sim, thyersoliveira@hotmail.com

    Fez mais sentido, quer dizer, menos... heheh. Audácia nossa falar de psicanálise virtualmente... Acho que é mais de outra ordem ainda sim, outro campo mesmo além de nós dois...


    Brigado pelos esclarecimentos obscuros... hehe. Adorei!

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  7. Olha que houve um desdobramento!!! De psicoterapia passamos a falar de sujeito, ou melhor vocês passaram. Mas não vou me deter nisso, o que quero dizer é que tenho a concordar com a questão que o Rafael coloca, uma análise se implica sempre no desejo, e o desejo a partir da falta e falar desta falta penso eu que é se localizar como alguém que nunca se realizará, pois a completude para o neurótico acho que é um mito. NÃO? rsrsrs
    Quando chegamos a conclusão de "o que eu quero?" ou "mas o que eu quero mesmo?", o que buscamos na verdade? simplesmente buscamos, buscamos incansavelmente, o que? nada.

    rsrs
    ai que frustração.
    Ser sujeito é se deparar com frustrações todos os dias, ou seja com a castração, para dar conta do real. E aí penso? o que é o real mesmo? se cada um da conta da sua maneira a partir do seu sintoma.

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  8. Olha que houve um desdobramento!!! De psicoterapia passamos a falar de sujeito, ou melhor vocês passaram. Mas não vou me deter nisso, o que quero dizer é que tenho a concordar com a questão que o Rafael coloca, uma análise se implica sempre no desejo, e o desejo a partir da falta e falar desta falta penso eu que é se localizar como alguém que nunca se realizará, pois a completude para o neurótico acho que é um mito. NÃO? rsrsrs
    Quando chegamos a conclusão de "o que eu quero?" ou "mas o que eu quero mesmo?", o que buscamos na verdade? simplesmente buscamos, buscamos incansavelmente, o que? nada.

    rsrs
    ai que frustração.
    Ser sujeito é se deparar com frustrações todos os dias, ou seja com a castração, para dar conta do real. E aí penso? o que é o real mesmo? se cada um da conta da sua maneira a partir do seu sintoma.

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