terça-feira, 4 de agosto de 2009

às margens do rio sangrei...

Sentei junto ao rio e deixei que as águas lavassem meus pés sangrentos. A areia mansa acalmava meus cabelos e o rigor dos ventos me passou sabedoria. Não queria mais a vida de guerreiro, a espada lasciva deixada ao lado indicava minha última derrota. Foram tantos fracassos ao longo do rio, prazeres mal acabados e goladas sinceras, porém cheias de ilusão. Bebi do cálice do amargo desespero do gozo roubado e cai num poço profundo onde meu coração se perdeu . E o amor que antes guiava minhas batalhas embriagou-se do veneno da demanda e caiu manco sem forças. Assim, eu sucumbi a mim mesmo e cai ferido de morte.

Mas, é que a Providência tem seus caminhos de resgatar seus heróis. E como quem acorda de um torpor e não sabe onde está, assim acordei com meu coração nas mãos. Batia forte sangrando aos cântaros...Bebi de meu sangue. Senti que jamais poderia voltar ao front de batalha, não por aquela batalha. Não podia mais lutar pelos prazeres da espada; do corte afiado , do gotejar de sangue, das almas sonâmbulas à procura de outra. Não podia mais sacrificar aos vampiros. E meu corpo cedeu de mim. Desistiu de mim. Da busca implacável por goladas cada vez maiores daquele frenesi estático da batalha. Recuperei meu semblante, larguei o escudo, tirei a roupa, lancei-me no rio.

Ganhei meu coração de volta e com ele o amor. Nos braços de um mortal encontrei um abraço quente; seu toque devolveu-me a lucidez e quis sentar junto ao rio. Enquanto ele me tocava seu calor aquecia novas ilusões, mas outras, sem vampiros e lutas sangrentas. Ele me enchia de ilusões calorosas. Minha vida ao longo do rio tornou-se de uma nova fantasia, na qual eu era um andarilho sem cinismo, sem ranço, sem mágoas. Aberto, de peito aberto; na verdade, como peito rasgado da última batalha e o coração exposto. Livre e ansioso para um encontro qualquer inesperado. Pronto para os riscos que existem quando queremos conhecer alguém de verdade. Conhecer simplesmente porque uma pele almeja por outra pele. Eu disse almeja, não demanda.
Um abraço,

Joseph Staples.

3 comentários:

  1. Gostei muito do texto. Achei rico e profundo. Me fez parar e refletir. Ótimo.
    Glaber.

    ResponderExcluir
  2. "Recuperei meu semblante, larguei o escudo, tirei a roupa, lancei-me no rio. Livre e ansioso para um encontro qualquer inesperado."
    Dá até pra imaginar,
    como fruto do prazer e poder da leitura!! amei.

    ResponderExcluir