terça-feira, 15 de setembro de 2009

A excomunhão



Finalmente a vida me conduziu a mais um momento de clivagem, como diria minha dileta amiga Sandra Helena. Os momentos de clivagem são pontos existenciais onde somos obrigados a nos posicionarmos perante a vida ou então desistir de continuar. No meu caso, jamais desisto de continuar, porque a auspiciosa saga do desejo é essa mesmo: cheia de conflitos, embates e principalmente resistência. Aquele que decide viver pela ética do seu desejo, daquilo que lhe impulsiona; aquele que decide sair da alienação fundamental na qual somos fundidos como seres falantes numa dada cultura sofrerá sempre o preço caro a pagar por sua singularidade. E nem todos estão dispostos a levar sua singularidade ao limite mais longínquo, mais além, mais duro do ser.

Outro caminho para aquele que se vê confrontado por esta convocação é de dar explicações e satisfações ontológicas, isto é, uma satisfação concernente ao seu ser. Esta não será mais minha escolha, visto que dar satisfações sobre quem você é somente nos recoloca na roda viva da alienação no desejo do outro. Não é este o caminho que persigo. Ao contrário, construo a cada dia meus próprios fundamentos, minha própria casa construída sobre a rocha, meu próprio discurso, minha própria teoria de viver...Meu próprio saber.

Insisti durante muitos anos com a instituição “Igreja evangélica”, talvez pelo fato de eu ter nascido e criado dentro dos portões da igreja. Entretanto, minha paixão espiritual nunca foi alimentada pela igreja. Sempre estive lá, mas Deus para mim sempre foi de uma ordem superior e fora da ordem, fora da ordem da igreja. Passei por um longo aprendizado de amar e aceitar diferentes formas de expressão da espiritualidade, inclusive os evangélico. Só que chegou um ponto no qual não posso mais negociar. Minha consciência de fé e Graça de vida não mais comporta os portões da Igreja evangélica. Assim, vejo que preciso romper seus portões, destruir seus fundamentos e abandonar seus umbrais. Irei para fora da cidade oferecer meu sacrifício.

O apóstolo Paulo nos diz que a fé é um bom combate. Eu estou disposto a lutar esta luta, até as últimas conseqüências. Não posso deixar de falar do que ouvi e do que eu vi do próprio Senhor Jesus. Junto Dele aprendi a tomar o Seu jugo e Seu fardo, porque dele vem leveza de vida e liberdade no coração. Aquele que vive pela Graça e a conhece vive com o seu Ser sempre perante Deus; somente com esta afirmação radical de sua essência é que alguém pode experimentar o que é ser o que se é perante Deus e ser por Ele aceito, sem restrições.

Eu tinha certeza que meus trinta anos seriam paradigmáticos. Estou próximo de minha morte existencial. Tal como Jesus aos trinta iniciou seu ministério e aos trinta e três morreu para este mundo, assim, começo minha lenta e definitiva morte existencial. Morrerei para as cadeias do Ser; romperei com qualquer coisa que caracterize meu ser. Ficarei somente com as possibilidades existências que se descortinarem. Morrei para toda rigidez do viver, para as autoflagelações do viver e das culpas atiçadas pelos homens.

A igreja evangélica morreu há muito tempo. Está como o povo que caminhou durante 40 anos... E todos morreram em sua mente obtusa e teimosa. Assim é esta igreja. Toda deve morrer, porque se o grão não morrer ele nada frutifica. Mas há homens que são verdadeiros profetas em suas gerações e que nelas habitam mesmo quando o mundo deles não é digno. Conheço alguns deles e me rejubilo porque vozes clamam neste deserto... Preparem o caminho.

Finalmente atingi o pronto que por tanto tempo almejei: morri para o este sistema e ele morreu para mim. Minha morte será lenta, minha ressurreição como uma floresta reflorestada. A “ igreja” não está mais em mim e eu não estou mais nela. Portanto, que eu não seja mais importunado como um representante da causa evangélica. Eu a nada represento a não ser um Reino invisível que só se manifesta nos corações simples e humildades. O rei está nu e seu manto invisível só é visto pelos simples de espírito. O trono está vazio, não há quem tome seu lugar. Sigo minha caminhada com certeza, fé e segurança. Em confiança em Deus e em mim. A verdade de uma alma só o sabe seu dono e ninguém é obrigado a dar satisfações de seu ser. Pelo menos não aqueles que já saíram do estádio primário de busca de amor em fontes externas a Deus e a si mesmo. O desejo sempre remete a um Outro, mas é preciso saber que este Outro não é completo, ele também é cortada pela impiedosa marca da falta.

Assim, hoje entro para a história de minha vida e do mundo. Jericó perdeu seus muros ao sonido das trombetas. Eu deixo seus portais e caminho rumo a minha cidade que tanto almejo, cidade cujo arquiteto e fundador é o próprio Deus. Aos que permanecem na “ igreja” reafirmo minha amizade e o meu respeito, pelo menos àqueles que de coração puro servem ao Espírito da verdade, mas minha convivência a terão fora dos portões dogmáticos de sua instituição. Meu ser se expandiu demais e não foi comportado pelos braços da religião. Me expulsei, fui parido como um natimorto e recebido fui pelo misericordioso Deus. Minha luta, porém continua junto a todos os homens de boa fé e boa vontade. Que ninguém chore por mim. Quando não me acharem mais no meio da grande congregação a resposta a minha ausência será somente uma:
“ por que procuram dentre os mortos aquele que vive”?

Creio que hoje sim é o primeiro dia do ano da Resistência. Neste ano minhas conquistas existenciais devem ser defendidas com tudo que tenho, resistir até o sangue.

2 comentários:

  1. As únicas coisas que existem realmente são a fé e o amor. O resto é sombra.

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  2. Até pouco tempo atrás tinha lá as minhas dúvidas a respeito da importância da igreja na minha vida espiritual. Mas a cada dia que passa tenho me convencido que a minha vida espiritual e a minha relação de amor c Deus independe dessa empresa religiosa, pois hoje entendo que a igreja é uma instituição cheia de dogmas e regras criadas pelo falho homem, nas quais mais nos afastam d Deus que nos aproxima. Também Rafael fui criada, dentro dos portões da igreja e hoje mais nada ela me acrescenta. Aliás, assim como você já tentei me reconciliar com ela, mas n consigo mais me enquadrar, encaixar-me nos seus moldes. Desisti e Tô Feliz! Finalizo este comentário com uma frase sua q li no seu texto: "Aquele que vive pela Graça e a conhece vive com o seu Ser sempre perante Deus" - singela e brilhante.
    Rompemos com a hipocrisia, com a falsidade e a mentira da igreja.
    Que vivemos a vida com transparência e não deixemos de ser quem realmente somos.
    Da sua admiradora Carla.

    Bjo na alma com gosto de liberdade e de "viver a vida"

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