E lá vai eu na minha tentativa de despistar a tal da Auditoria de Vida! Tentando fugir de avaliar o ano que agora se esvaia me pego driblando minha consciência e inventando mil maneiras de fazer uma auto-avaliação menos clichê. Flanando pelo blog do Nazarian vi que ele fez uma breve retrospectiva que ficou bem legal. “ lai vai a minha!”.
Em janeiro voltei a São Luís. Cheguei triunfalmente carregando meu buraco, tive um feliz buraco novo e, ao redor dele, construir todos os planos para o novo ano: deveria ficar como buraco, como diria meu analista.
Minha primeira leitura foi Niels Lyhne. Quando pensei em qual seria meu primeiro livro do ano não tive dúvida; eu tinha que reler Jacobsen. Há uma profundidade de vida interior que só encontrei neste livro. Sinto que ele será novamente minha primeira leitura. Todo mundo precisa de um livro de cabeceira.
Janeiro foi um mês cheio, mas o principal evento foi minha tão aguardada formatura. Depois de 11 anos de universidade, ( entre o Direito e a Psicologia; entre uma transferência e mudança de cidade)finalmente, literalmente em chagas abertas, formei. Foi feliz, mas foi só um começo feliz.
Depois de me estabelecer em São Luís retomei minha análise, eu sabia que seria essencial para iniciar minha carreira como clínico. Comecei também minha prática clínica. Gentilmente recebi o convite de uma tia para atender em seu consultório. Foi uma ajuda inestimável pela qual sou muito grato. Iniciei uma série de posts tentando incluir mais da teoria psicanalítica,em uma linguagem acessível no texto do blog. Iniciei assim, uma tentativa, a meu ver, bem sucedida, de tornar a psicanálise parte da vida dos meus leitores e de meus escritos.
Devido a intensidade que vivi minha análise pessoal, o blog lentamente começou a tomar um tom muito mais intimista e confessional. Muito mais do que sempre foi. Este ano foi de vivências intensas, mudanças, riscos. Dei minha cara a tapa, ás vezes sem saber exatamente o que eu estava fazendo, outras propositadamente. Por vezes, impulsivo, carente, imaturo e infantil. Mas, todas as mudanças pelas quais passei estão gravadas no blog. Quem tem olhos bons para ler poderá ver tudo. Meu maior defeito é ser transparente, entretanto, termino o ano sabendo que é preciso algo velar. O mundo é mal e a população é imbecil. Já era tempo de aprender, afinal de contas em 2009 completei meus cabalísticos 30 anos.
Aos 30 anos me senti à beira de um precipício. Escolhi saltar. Não cheguei ao outro lado. Cai vertiginosamente, e talvez, isso responda porque eu, até o momento, esteja me sentindo estagnado. Porque o salto foi pequeno. Eu deveria ter saltado mais alto. Tive medo e cai no abismo. Não há de ser nada. Reconheço a queda e sei que com o Eterno a gente cai pra cima.
Em 2009 também tentei fazer as pazes com minha vocação espiritual. Como muitos de vocês sabem, não deu muito certo. Mas, realizei alguns seminários na tentativa de ajudar outros a expandirem sua experiência espiritual. Não deu certo. Certamente porque ainda era um salto pequeno; uma tentativa besta de me auto-justificar. Como que um pedido de permissão.
No mês de Julho participei de uma seleção para trabalhar como psicólogo num projeto especial da Defensoria Pública do Maranhão. Fui selecionado e em agosto comecei a trabalhar na assistência gratuita aos presos e familiares. Uma experiência ímpar de uma entrada num mundo que jamais imaginei existir. Fui com a cara e a coragem. Ainda não me arrependo. No mundo prático e concreto foi uma das minhas grandes realizações neste findo ano.
Ha! Como esqueci. Antes disso MJ morreu. Choquei, fiquei rosa chiclete. Uma pena ele ter ido logo, mas não há dúvidas que seu semblante, aquilo que ele causa e representa ficou mais forte do que nunca, pois é assim com os mitos: quando morrem ficam muito mais fortes, e mostram que sua força nunca foram eles mesmos , mas o desejo que causam.
Em agosto as águas começaram a se agitar. Decisões há muito tomadas em meu coração começaram a pedir satisfação. O pequeno salto que dei reclamou suas conseqüências. Vivi mais. Senti tanta coisa ao mesmo tempo; escorreguei nos percalços. Gastei energia em tudo, comigo, com os outros. Dormi pouco esse ano porque minha alma estava acesa. Crendo em tudo e vendo tudo ao sol me espantei com as possibilidades. Vivi muito, mas fui pouco eu mesmo. Não é triste, não. Descobri a tempo...Tem gente que vive a vida toda sem tornar-se o que é. Ainda posso corrigir. Neste sentido, dia 15 de setembro cometi o maior dos “ pecados”. Rompi de completo com minhas relações com a igreja Evangélica. Excomunguei-me.
Refletindo assim, faz pouco tempo. As conseqüências ainda virão. Meu mal é que vivo três meses como se fossem cem anos. É tudo muito intenso...Parece até que nasci prematuro. Tomei a consciência de minha avidez pela vida. A pressa de viver.
Refletindo assim, faz pouco tempo. As conseqüências ainda virão. Meu mal é que vivo três meses como se fossem cem anos. É tudo muito intenso...Parece até que nasci prematuro. Tomei a consciência de minha avidez pela vida. A pressa de viver.
Chego ao fim. Se me perguntam o que de prático fiz, eu digo: malhei durante o ano todo. Logicamente não estou sarado. Mas, o fato de insistir na academia o ano todo é uma vitória. Minha vocação para o levantamento de pesos mostrou-se pífia. Chego lá! 2010 eu continuo a saga rumo ao meu corpo, um dia faço as pazes com ele.
Ufa! Olhando para trás dá pra ver que não fui tão inútil quanto eu sinto ser. E por que essa sensação de estagnação? Foi o ano da minha graduação, iniciei meu consultório ( com relativo sucesso), comecei em um razoável emprego, publiquei um artigo científico, apresentei um trabalho num congresso Sul-Americano de Psicanálise, fiz novos amigos, aprofundei amizades antigas, conheci novos lugares, viajei, ajudei pessoas. Ainda assim, sinto que continuo a cair e não chegar do outro lado do salto. Acho que vislumbro a resposta... “a dúvida não desinflama enquanto a gente não se der”.
Sinto que bebi o ano de uma vez; goladas voluptuosas, enormes, enchentes de vivências. Talvez precise diminuir o ritmo. Ano passado foi o buraco que me fez parar. Este ano é a coluna. Tive uma contratura muscular ontem, o que me obrigar a parar, diminuir o ritmo e acreditar mais na minha própria experiência solitária. Crer no que posso tirar de mim mesmo. Das minhas lembranças, dos meus sentidos. A dor sempre foi meu tutor. Espero um dia não mais precisar sentir dor para sentir a mim mesmo. A dor parece me chamar pra perto de mim na hora que mais preciso de mim. Meu corpo é sábio, ele sabe melhor do que eu a grandeza que carrego em mim. Como diria Clarice, “ sou mais forte do que eu”. Questão é que ainda não vejo ou se vejo, nisso não acredito. Mas os ventos de 2010 alertam-me: escute a parte de você mais forte do que isso! Quem sabe no ano que vem eu faça as pazes com a dor e comece a sentir as coisas de outra forma
Na vida não tem prova de recuperação. Quando a gente reprova começa tudo de novo, mas é sempre uma nova escola. Tem sempre uma nova chance: sem auto-comiseração, sem remorsos ou feridas lambidas. Encerra-se um ciclo, lança-o no ostracismo e bebe-se tudo de novo. Cuidado só nas goladas. Mais graves, menos desperdício, mais medida. Nem tão perto do chão, nem alto demais. O mundo, como dirá Nietzsche, parece mais belo à meia altura.




Acho que vou tentar fazer uma retrospectiva minha também..será que consigo? veremos.
ResponderExcluirAdorei essa retrospectiva, apesar de metida a escrever, creio que não poderia fazer melhor...
ResponderExcluirMas vejo, que a cada dia, a dor pode ter te deixado mais sábio... os livros, a cultura, as tuas lembranças e sentidos te tornam alguém que reflete bem a vida. A tua própria vida!
Isso seria bom ou não?
Ah, ia esquecendo... Não se frustrou ao fazer o seminário, não... Alguém que tu ajudou muito com as tuas palavras está aqui, a comentar no teu blog!
Que em 2010 tu possas pular mais alto, e atravessar o abismo!
Abraços.
Palavras que reverberam em mim e me lançam esperançoso rumo a 2010. Continue malhando para garantir o próximo salto... Risos. Cada vez me mais me convenço de que, parafraseando Clarice, tua força está na solidão. É ela que te define e é ela que deves presentear sempre a nós que estamos próximos de ti. Meu melhor abraço e boas festas, querido amigo.
ResponderExcluirComo é gostoso ler por aqui!
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