Ilustração de Fernando Botero
Disciplina. É o que está faltando em minha vida. Muita disciplina. Caso contrário, como Fernando Pessoa, direi no fim dos tempos, sem a grandeza do mestre: não sou nada, nunca serei nada. A diferença entre esses dizeres é que um é dito pelo maior mestre da língua Portuguesa e o outro é dito por uma pessoa tão medíocre quanto uma lagartixa. Meu mérito é que eu sei que sou medíocre, ao contrário de 95% da população maranhense que jura que é merda boa. E não é.
Hoje fui a um concerto de uma cantora lírica, soprano muito boa, graduada pela Escola de Música do Maranhão que fez seu debut hoje em grande estilo em sua noite de formatura. O espetáculo era gratuito, mas ainda assim se havia 100 pessoas era demais. Lógico, é perfeitamente compreensível: não era Pool Party ( ingresso entre 40 a 60 reais), não era Castelo da fantasia ( ingressos até de 90 reais), não era Babilônia ( uma famigerada boate que pensa estar em Ibiza). Resumindo: era cultura. A geração tupiniquim maranhense não tolera cultura. O que eles gostam mesmo é puro entretenimento. Explico. Entretenimento é mera diversão, oba-oba, sentidos embotados. A cultura promove produção de sentido, o pensamento, eleva a alma, dá vida ao corpo, dá beleza aos olhos, produz um novo saber e um novo dizer sobre o que se vê e se admira. Mas, quem quer cultura nos dias de hoje? Poucos. Raros. O populacho vibra ao som do infame verso: “só se quer amar , se quer amar, se quer amar!”. Bobinhos.
Entretanto, no palco do Arthur Azevedo vi pessoas humildes se superando. Todos claramente vinham de castas sociais não muito favorecidas, mas exercendo magnificamente seu talento musical. Todos acima de nós. Aí pensei: quantos da fina burguesia média, farsante e auto-complacente de São Luís, que eu conheço, estudam música, canto ou algum instrumento musical? Quem produz cultura? Desconheço. Certamente tenho andando com o grupo errado de pessoas. A cultura está alhures. A única coisa que encontramos, aqui e ali, são filhinhos da aristocracia maranhense com sua incompetência católica tentando se aventurar nos palcos de respeitáveis teatros. Não sem antes mexer seus pauzinhos juntamente com a laia condescendente com esta barbárie na qual vivemos. Um lambendo as feridas dos outros e achando muito bonito. Patrocínio para pequenos infantes presunçosos e exibidos tem aos montes. E, lógico, público se consegue nos conchavos e favores sociais que todos eles devem a si mesmos. Comparecer a um evento cultural só se der status. Se for visto, se entrarei na mídia, ou entrar para aquele folhetim triste e opaco que de ótimo não tem nada e ter sua foto estampada com uma legenda referendando.
Quando se tem um evento da qualidade deste, de canto lírico da mais alta estirpe, de graça, ninguém comparece. Mas, que venha o Circo Du Solei ( que aliás é grandioso, mas caindo já no puro entretenimento por motivos que escreverei em outros dias...) com seu ingressinho de 500 reais, aí sim. Vai ter briga por camarote, por isso e por aquilo... E fulano foi, e fulano tava vestido assim, assado, cozido, frito e grelhado!! Pra festa de Jesus Luz ( sim, o capacho de Madona. Aquele garotinho bonito cujo único talento é ser bonito, namorar com Madona e ser esperto para aproveitar tudo isso e ganhar 20 mil por ser Dj durante 40 minutos) todos irão. Com suas roupinhas adequadas, bem fashionistas, cada um ligando para seu cada qual querendo saber como vai vestido. “Quem vai estar na festa. Vai bombar? Ficaste com quantos? Viu fulaninho lá? Todo mundo vai ta lá, tenho que ir”. Coisa e tal. Resumo da ópera: já deu né? Como viram cansei. Dei meu ataque histérico. Fiz minha oposição e plantei minha árvore de lucidez. Quiçá eu consiga ao menos arejar um pouco a pesada névoa de entorpecência cultural que paira sobre nossa não mais tão nobre capital maranhense.
De resto, parabenizo Cleidiane Silva pela belíssima demonstração de verdadeiro talento, disciplina, arte e superação. Espetáculos assim me tiram do conforto de minha casa. Agora, tentativas trôpegas de pura exibição, narcisismo e síndrome de BBB não me fazem mover minha bunda deste computador.
Tenho dito.

É a mais profunda verdade. Só não concordo quando dizes:"não sou, nunca serei nada". Talvez não és e nunca sejas o que o sistema exige que as pessoas sejam para estar inserido e receber as benécias dele.
ResponderExcluirEssa percepção da vida o faz muito especial.
Tomaz
Bom dia querido!!acordo c o frescor de uma leitura q me compreende e é compreendida na íntegra!tu bem sabes...é isso mesmo,sem afetação nenhuma afirmar quão patética é a classe média ludovicense me tirou um bom sorriso matutino!se há consolo,é que são patetas que se escondem na coletividade do resto do país.Toda capital que se preze tem seu PH,tem sua juventude dourada brilhando nas revistinhas locais e tem sua Madalena Nobre (que finge bem ruinzinho q não sabe que os que se acreditam "high society" tem vergonha de aparecer no seu colunismo alpinista de segunda.)
ResponderExcluirSabe o que Cleidiane Silva me mostrou ontem? A prática daquilo que Wilde precisou enfrentar a prisão para descobrir,humildade.Uma humildade ancestral,verdadeira, que cm ele tão perfeitamente disse: "não se pode recusar nem oferecer a ninguém" e que só sendo intríseca nos emociona cm foi ontem, naquela Silva.bjs.
Patrícia Fonseca
Adoro a sinceridade de tuas palavras, e da humildade pela qual te defines!
ResponderExcluirRealmente, a sociedade é assim, como diria um professor meu que muito estimo, "CULTURA DE ILHA".
Abraços!
Primeiramente, quero fazer um comentário um tanto esdrúxulo aos pés do que colocaste sobre "A Ilha do Amor", que de amor não tem nada... FABULOSO, EXCÊNTRICO, EXCELENTE o teu texto, e eu fico pensando aqui: -Meu Deus, como ele pensa igual a mim, como é bom saber que dentro de uma sociedade repleta de baratas e extinta de cultura própria, possa existir alguém assim. Concordo cegamente contigo, infelizmente é assim que funciona a vida, a política, o "lazer de circo" daqui. Você vale aquilo que tem e não o que sabe. Parabéns!
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