quinta-feira, 1 de abril de 2010

O espírito vivificante.


“ A letra mata, mas o espírito vivifica”. Eis uma das frases de Cristo que se prestam a muitas interpretações.  No campo da psicanálise e mais precisamente na formação de um analista ela pode lançar preciosa luz. Esses dias estive lendo a linda oba de Octave Mannoni “ Isso não impede de existir”. O autor trata do perigo que há no estudo e aplicação da teoria para um jovem analista. Como ensinou Freud, a teoria “não impede de existir” a experiência concreta e singular de cada analisante. O livro nos relembra que o analista é um artífice da experiência  e que sua principal ferramenta de trabalho é seu próprio inconsciente. No fim das contas no ato de uma interpretação são dois inconscientes que respondem um ao outro.

Daí a importância crucial da análise pessoal na formação de um analista. Ontem mesmo vivi uma experiência crucial em minha própria análise que me levou a finalmente a compreender alguns conceitos que não passavam de “ letra morta”. Agora, eles fazem todo sentido não somente como teoria mais como experiência vivida e, como nos ensinou Freud – aquilo que se experimenta sob as forças da transferência jamais se esquece. Conceitos como gozo, Desejo, sublimação só podem ser aprendidos de fato quando deitamos num bom divã.  O mais excitante é que os efeitos de uma boa análise se estendem além do divã e a análise continua fora dele.  Assim foi comigo ontem: a vontade súbita de ir às compras e um telefona que recebi tiveram efeitos interpretativos do meu inconsciente e fizeram como que eu me desse conta do meu desejo e do meu gozo. Desejo e Gozo são dois conceitos periclitantes em psicanálise; são daqueles que quando achamos que os temos apreendidos eles nos escapam mais uma vez. É somente na experiência analítica que experimentamos a morte com a qual nos fere o gozo; é somente em análise que percebemos o vazio do Desejo e a satisfação que podemos obter na busca por novos significados. Enquanto o gozo obtura os sentidos na fixação de uma repetição vazia o Desejo aponta para a falta, nossa e do outro, obrigando-nos a soluções criativas que nos lançam para fora do ciclo da repetição cansativa e desgastante de nossa buscar pela felicidade. Ontem quando tive vontade de comprar roupas novas foi que me dei conta de que há muito eu não fazia algo para mim mesmo de fato, e que estava mais preso ao gozo do outro do que imaginava. O Outro não precisa ser nosso semelhante; o Outro é alteridade que nos constitui, em última instância a própria linguagem — o simbólico.  Ir às compras, ao invés de ter se tornado em compulsão a repetição foi uma saída criativa para não cair novamente no mortífero gozo do Outro. Comprei: uma calça e uma camiseta.  Assim, experimentei em minha própria carne o efeito certeiro de uma boa interpretação analítica. Eu jamais entenderia e compreenderia o alcance do inconsciente sem sofrer os efeitos da transferência. A teoria psicanalítica pura mata, é só para aquele que atravessou a experiência de sua própria análise que a teoria se torna vida e poder vivificante.
Ah Sim! E o telefonema? Bem...Não atendi! Mas, aí já querem saber demais...


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