domingo, 25 de julho de 2010

Despedida.

Nesta mesma época em 2005 eu estava partindo pela primeira vez para Fortaleza.  Aos 26 anos fui pra Fortaleza iniciar meu projeto “ Fernando Pessoa”.  Explico. Antes de ir eu acreditava muito em mim; sabia quem eu era. Eu sabia exatamente que tipo de pessoa eu era ou queria me tornar. Eu tinha tantos sonhos e tudo acabou sendo completamente diferente do que eu imaginava ou previa. Fortaleza mudou minha vida. Acabou comigo. Destruiu a pessoa. Quase quatro anos lá derreteram a pessoa que eu tentava ser e deste então eu não sei mais nada. A cada dia que passa sei menos sobre mim. Não há mais pessoa. Quando não resta mais pessoas abre-se um mundo de vida, um mundo de possibilidade.  Este é o sentido que pode ser dado  aos versos de Fernando Pessoa- Eu não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada.  Hoje, nem posso mais me dar ao luxo de querer ser alguma coisa, pois ser alguma coisa me definiria; ser alguma coisa me daria um nome, algo a me aferrar. Ser uma pessoa me obrigaria um centro. Obrigaria uma metafísica pessoal e isso mataria toda chance de eu algum dia dar uma resposta criativa ao drama de ser humano.
Ontem foi minha festa de despedida. Quando eu era pessoa certamente eu teria achado desnecessário um ritual de passagem dessa natureza, mas não hoje.  Eu queria sentir vividamente esse momento porque sei que é mais um momento de ruptura. Sei que dou um adeus solene a tantas pessoas em mim e fora de mim.  Estiquei muito o braço; agora não há mais volta: é preciso passar para o outro lado. Cavei o buraco sobre a pessoa que eu era e surgiu um abismo... E sobre ele vou estender uma corda; como diria minha querida Marta Léo – Equilibrista onde se lê equilibrado. Outra grande amiga, com quem agora terei o prazer de morar sob o mesmo teto, um dia me disse o seguinte há mais ou menos três meses:
“Você não resistirá se olhar tão fundo, com tanta acuidade e precisão. Desista da lucidez, esqueça-se na opacidade, no claro-escuro, na incoerência salvífica, no titubear, no balbuciar, em levantar, cair, chorar desesperadamente, depois levantar e ir lavar o rosto. Pra que serve a verdade, meu amor? Quem precisa dela depois de possuí-la? É como o gozo que te aprisiona, essa verdade que é um doer dos sentidos. O único mistério das coisas é haver quem pense no mistério. Vem que te acolho na minha ignorância e prepara-te para morrer um pouco. Aceita a perda...de ti no teu sonho fantasmático...Escuta-te perguntando: o que queres? Livra-te de ti”.

Confesso que quando li achei que tinha entendido. Mas só hoje entendo o alcance destas palavras que hoje penetraram fundo que doeu. É isso aí Sandra...Comecei ontem a me livrar de mim mesmo e ainda fiz uma festa pra marcar a data. Livrando-me de mim acabo me livrando também  de sentimentos e pessoas que antes se apoiavam em minha pessoa. Morrer é um caminho solitário e reverente. É uma morte viver e sempre se morre um pouco quando se parte. Eu parto para melhor e morro fazendo isso. E tudo isso é de um prazer angustiante. Salvífico.
Aqui algumas fotos da festa intercaladas pelo tão oportuno poema "Lisboa Revisitada" de Fernando Pessoa. Obrigado a todos pelo carinho. Vocês são parte também de minha morte em vida. Deixo meu carinho com vocês, sempre. Morro hoje para nascer em pedaços... Agora saibam...É com sofreguidão que anuncio minha partida, mas não o faço sem dor. Beijo carinhoso em todos que festejaram comigo ontem. 


NÃO: Não quero nada. 
Já disse que não quero nada. 
Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer. 
Não me tragam estéticas! 
Não me falem em moral! 
Tirem-me daqui a metafísica! 
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 
Que mal fiz eu aos deuses todos? 
Se têm a verdade, guardem-na! 



Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 
Não me macem, por amor de Deus! 
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
Para que havemos de ir juntos? 



Não me peguem no braço! 
Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho.  
Já disse que sou sozinho! 
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 

Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
Eterna verdade vazia e perfeita!  
Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
Pequena verdade onde o céu se reflete! 
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 
Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo... 
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

4 comentários:

  1. clap!clap!clap!que emocionante meu bem.cm se costuma dizer nas mortes:vá em paz...qt a mim...i'm just here.love you,
    bjs.

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  2. Meu querido amado Rafa, nada me surpreende a forma com que você escreve até mesmo na hora da despedida, logo você que sempre brincou com as palavras com um grau de complexidade, como agora pouco ainda comentava com você por MSN. Ah, MSN tantas conversas, tantas delas muito boas, e outras ainda melhores. Meu querido a vida é cheia de surpresas, nem sempre tão belas. Aprendemos a lidar com as dores sem que elas nos peçam licença. Buscamos novos: horizontes, caminhos, novos... Sucesso e vida nova para você!

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  3. Oi Rafosa!O que dizer para um sobrinho querido que cresceu e que se tornou um homem? Dizer talvez que quisera eu nao poder ter sentido tantas dores, mas...e isso nós nao conseguimos nos livrar a nao ser que morramos. Apesar de nao ter tido oportunidade, vc é uma criança,um adolescente,um jovem, um homem,muito querido e amado, meu sobrinho.

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  4. Oi Rafosa!O que dizer para um sobrinho querido que cresceu e que se tornou um homem? Dizer talvez que quisera eu nao poder ter sentido tantas dores, mas...e isso nós nao conseguimos nos livrar a nao ser que morramos. Apesar de nao ter tido oportunidade, vc é uma criança,um adolescente,um jovem, um homem,muito querido e amado, meu sobrinho.

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