O que há de errado numa sociedade que idolatra e demoniza seus pares tão rapidamente?
Retirantes- Portinati
Bruno foi a sensação do campeonato brasileiro, ídolo da maior torcida do Brasil. Referência para toda aquela turba de garotos sem rumo, torcedores do flamengo, Bruno era alvo do amor de milhões de brasileiros- amor expresso no fanatismo ensandecido de seus seguidores. De repente, na mesma proporção, ele se torna um monstro digno de todo ódio possível. Ninguém viu quando ele matou; 99% dos brasileiros tiram suas opiniões unicamente da impressa, não são investigadores ou envolvidos nas investigações.
Ninguém tem informação em primeira mão, mas mesmo assim alimenta um repúdio mortal pelo pobre rapaz. O fino tecido de nosso laço social parece carecer de qualquer bom senso ou razão. Na mesma proporção que amamos também odiamos o próximo. Há uma crescente necessidade de referências que posam sustentar esse lugar de amado e odiado em nossa cultura. Talvez porque os pais, esses educadores sem legitimidade, não consigam mais sustentar um lugar de amor e ódio para seus filhos. Ontem no Fantástico saiu a matéria sobre a proibição da palmadinha nas crianças. Uma psicóloga multimídia falava de como não se deve causar dor ou sofrimento a uma criança na hora de educar. Qualquer tipo de trauma deve ser banido da educação dos filhos. Não faço apologia à varinha da sabedoria, a única coisa que posso dar é o testemunho de alguém que apanhou e não se ressente disso. Concordo que há outros meios de disciplinar uma criança, mas nenhum deles sem causar algum tipo de dor ou trauma. O trauma é indispensável não só para inserir a criança num mundo de limites, mas para tirá-la de um estado de narcisismo e abri-la para o mundo externo. O mais importante é que aquele que educa seja capaz de sustentar o lugar de ser alvo de sentimentos de ódio e agressividade por parte da criança. Quando os pais só querem ser amados a coisa fica preta! Pierre Lebrun ,em seu novo livro “ A perversão comum”, explica:
Hoje, como sabemos, muitos pais sentem-se até obrigados a estar sempre em condições de atender aos pedidos dos filhos, e o argumento que acabam dando ao clinico para justificar esse comportamento é que, caso contrário, arrisca o filho não gostar mais deles. É claro, sempre se admitiu que os pais deviam ser amados pelos filhos, que não convinha que estes fossem sem cessar sujeitados, punidos. Mas o objetivo primeiros dos pais não era, de modo algum, ser amado pelos filhos. A tarefa de educá-los era primeira; e bastava dosarem suas intervenções para não serem detestados pela prole. Hoje, o objetivo número um parecer ter-se tornado, em todo caso para certos pais, serem amados pelos filhos, o que muda consideravelmente a perspectiva.
Para o autor, pais deslegitimados, ou mais ocupados em se interrogar se tem mesmo legitimidade para educar seus filhos, não se sentem mais capazes de assimilar o golpe de suas crianças. Acham que não tem mais o dever de sustentar a posição de interdição, necessária para limitar o gozo do “ tudo é possível”. O pai hoje se esquiva do ódio da criança, evitando sempre o conflito. Neste caso, o jovem não se confronta mais com um outro, que, antes dele, pôde se virar mais ou menos bem com este ódio. Logo, não recebe mais o testemunho de que pode sim transformar seu ódio em outra coisa, sublimá-lo. O autor finaliza dizendo:
E disso resulta, como muito bem veicula sua maneira de falar, que ele não sente mais— como ontem dizia—ódio por seus velhos, de agora em diante só tem ódio! Tem ódio como teria gripe ou sarna, algo que o atinge, mas que ele não sabe apreender como seu, que precisamente, ele não consegue subjetivar.
Assim é que não resta muita alternativa para uma sociedade que vive desamparada a não ser eleger seus próprios ícones. Simulacros da função de referência como o também desamparado Bruno. Alvo dos sentimentos mais próprios do homem em sua polaridade amor-ódio, Bruno representa o desamparo de uma comunidade capenga.
Capengamos na educação de nossas crianças... No respeito ao próximo. No jeitinho brasileiro; na solidariedade, no amor, na justiça e na misericórdia. A justiça vale para todos, não sendo assim, não vale como justiça. Quando entregamos um homem para ser julgado pela mesma turba ensandecida que o ovacionava nos estádios, estamos perdendo lugar para a barbárie. O que sabemos de certo neste caso é que Bruno também já foi vítima, disso todo mundo esquece. Se foi ele o responsável pela morte da garota-que-só-queria-amor(?) já não se pode afirmar com tanta segurança. Num país sem Lei condenar antes de um julgamento adequado dos fatos é um perigo para cada um de nós. E não só isso. A comoção em torno de casos como esse mostra muito mais do que gana por justiça: mostra o substrato frágil e efervescente do laço que nos une ao próximo. Nem um goleiro consegue segurar tantas bolas no ar ao mesmo tempo....
Leia mais sobre Violência em outro artigo meu : AQUI

Quando li seu texto me remeti a pensar em um desejo que tenho, desde que comecei a fazer minha graduação em psicologia me imaginava dando aulas. Não sei do que a princípio, mas como passei a amar a psicanálise... talvez após minha formação, (pretendo ser psicanalista) passar a ensinar sobre aquilo que gosto e vivo, não tem como fugir dela! não tem mais como não ver o mundo à partir dela!
ResponderExcluirE pensei; será que conseguiria ser vítima de amor e ódio? Pois ser tolerante a frustração é pouco comparado ao que deve-se ter e ser quando você é um professor, ainda mais de psicanálise que envolve tantas coisas, tantos sentimentos.
Bem, Freud quase levou uma "sapatada" na cara, rs... coitado, ele era tolerante demais!
Como lhe dar com isso, tantos sentimentos de amor e ódio ao mesmo tempo ...
Sem inspiração pra muita coisa ultimamente...então é sempre bom ler alguma coisa interessante pra despertar desejos de novo....
ResponderExcluirParabéns pelo dito. espelho de meus achismos educacionais,seu texto poderia estar nas reuniões de pais e mestres para lembrar a cada um qual seu papel.pai é e sempre será pai.mãe não vai conseguir, por mais que tente,ser uma amigona,ow my...os reflexos da tentativa de ser amado incondicionalmente são adultos cambeleantes por toda,as vezes curta, vida.certeiro,as usual.
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