Encontrei um velho amigo hoje no MSN. Descobrir que ele está estudando teologia num seminário presbiteriano. Conversamos por um tempinho e lá pelas tantas ele me pergunta: “ E como vai tua vida com Jesus?”.
Fui o mais sincero possível. Mais do que eu jamais já fui em toda minha vida. respondi:
Eu não sei. Sinceramente quando alguém me pergunta sobre Deus hoje não escuta uma resposta pronta; não dou uma retumbante prova de fé, muito menos reajo com o cinismo cético acadêmico. Deus para mim é de um silêncio teológico. Meu amigo achou por um momento que tinha me colocado numa sinuca de bico, mas não. Ao contrário, quando me perguntam sobre Deus fico sereno e ao mesmo tempo destemido. Silencio sem medo ou culpa acerca de um assunto do qual não sei mais nada. Já houve um tempo em que eu sabia muito sobre Deus. Perdi todas as minhas crenças. Sobre o assunto Deus e Cristianismo atravessei a fina linha que divide o medo e o temor ao divino. Fiquei com o temor e ele me deu forças suficientes para me esvaziar de tudo o que minha antiga formação me dera. Hoje, ao pensar em Deus ou em Cristo eu não consigo dizer nada. Um silêncio denso cai sobre mim. Só sinto uma ausência, como se um buraco tivesse sido criado em mim e um imenso vazio pudesse tomar conta de tudo ao meu redor. Sem respostas. Quase sem fé.
Mas eu disse quase; e no quase há um universo de possibilidades. Decidi ficar com o quase. O “ quase” me libertou das certezas que me martirizavam e que me tornavam algoz do meu próximo. O “ quase” me regenerou e deixou a parcela de dúvida necessária para dobrar a empáfia de um homem. Quando eu tinha certezas, morria de medo de ter dúvida; não queria vacilar. Hoje descobrir que o “ quase” me dá o desprendimento necessário para ter fé— fé como um grão de mostarda. É tudo que eu tenho hoje. Sou um homem de pequena fé e me sinto muito satisfeito. Esqueci as respostas que tinha acerca de Deus e comecei a me preocupar com as respostas que preciso dar aos humanos próximos. A bíblia que já foi um livro que tanto li , hoje está na cabeceira. Não a leio faz algum tempo. Deixei de divinizá-la, mas nunca a desprezei. Ao contrário...Nutro uma reverência que me fez afastar-me dela por um tempo. É como se algo em mim estivesse se formando para que, quando eu volte a ler, eu a leia de forma diferente. Estou despertando em mim a letra bíblica para que ela mesma se leia: sem interpretações ou conveniências.
Quanto à pergunta inicial do meu amigo vou responder com um trecho do livro que estou lendo no momento, Crônica da casa assassinada:
“....Abaixei a cabeça, implorando apenas a Deus que iluminasse aquela triste alma prisioneira de si mesma - e enquanto assim o fazia, senti que uma visão se impunha ao meu pensamento, uma visão daquilo que faltava, que faltava a todos nós, ao mundo inteiro – e cuja carência devia ser o motivo de um combate cotidiano e áspero: a presença de Cristo. Ou melhor, sua ausência. Uma ausência tão decisiva, tão presente e tangível, que à nossa volta era quase como se formasse um vácuo de intensa e acusadora lembrança. A verdade veio espontaneamente aos meus lábios...” Trecho do capítulo II Discurso do Padre.
Olá Rafael, já estava te seguindo e adicionei um link do seu blog ao meu, ok?
ResponderExcluirAbraço!
No momento em que escrevo isso, faz apenas 2 minutos que terminei de ler o post Teologia do Silêncio. E vou admitir pra vocês. Há muito que uma história não me arrepiava tanto.
ResponderExcluirTambém acabo de perceber que, se algum dia tive pretensões como crítico literário, foram grandes ilusões. Um crítico precisa ser mais racional e analítico, já eu, sou facilmente conquistado por uma simples história diferente, porém profunda. Afinal Rafa escreve como ninguém, posso até compara-lo com Markus Zusak que assim como Meu querido escreve como ninguém a ponto de tocar na alma até em texto pessoal com palavras leais.
Sou um bom leitor.
Ou um bom apreciador da arte, talvez. Parabéns Rafa